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8 colaborações entre artistas visuais e grandes nomes da música

Muito antes da era do streaming reduzir a identidade visual de um álbum a uma miniatura de poucos pixels na tela do celular, o vinil de 12 polegadas (cerca de 30×30 cm) representava uma tela em branco disputada. Para grandes músicos, a embalagem não era um invólucro comercial, mas um manifesto conceitual indissociável da música.

Em momentos emblemáticos da história recente, mestres das artes visuais — da Pop Art e do Surrealismo ao grafite de guerrilha e ao movimento Superflat japonês — transpuseram os limites dos museus para dialogar diretamente com o público em prateleiras de lojas de discos.

Abaixo, mergulhamos nos bastidores, tensões e curiosidades por trás de quatro das colaborações mais lendárias entre grandes artistas e a indústria musical.

1. Andy Warhol e Velvet Underground

Em meados da década de 1960, Andy Warhol já era o grande papa da Pop Art novaiorquina e comandava a The Factory, seu ateliê-laboratório de celebridades, cineastas e boêmios no centro de Manhattan. Fascinado pela eletricidade caótica da banda de Lou Reed e John Cale, Warhol assumiu o papel de empresário e produtor nominal do disco de estreia do grupo: The Velvet Underground & Nico (1967).

Warhol sabia que o impacto do álbum precisava começar antes mesmo de a agulha tocar o vinil. A capa trazia apenas a serigrafia de uma banana amarela sobre fundo branco, sem foto da banda e acompanhada da inscrição: “Peel slowly and see” (“Descasque devagar e veja”).

Curiosidades:

As prensagens iniciais dependiam de um adesivo colado manualmente sobre o papelão. Ao ser puxado pelo comprador, o adesivo revelava uma banana cor-de-rosa, com óbvia conotação fálica. A gravadora Verve enfrentou um pesadelo logístico para encontrar gráficas e operários dispostos a montar e colar as tiras manualmente, o que atrasou o lançamento do disco por meses.
Além disso, em vez de colocar o nome dos músicos em destaque, a capa original estampava apenas: “Produced by Andy Warhol”. Para Warhol, a própria embalagem era uma obra de arte assinada e comercializada em escala industrial.

A ideia do objeto tátil e interativo funcionou tão bem que, em 1971, Warhol levou a ousadia adiante ao criar a capa de Sticky Fingers, dos Rolling Stones, incorporando um zíper metálico de verdade costurado à braguilha de uma calça jeans — outro desafio para o transporte que costumava riscar os próprios discos de vinil dentro dos lotes de entrega.

2. Jean-Michel Basquiat e Rammellzee

Antes de se tornar um dos artistas mais valorizados da história recente da arte contemporânea, Jean-Michel Basquiat estava profundamente ligado à cena underground de Nova York, especialmente ao graffiti, à música e à cultura hip-hop. Essa circulação entre diferentes linguagens ajuda a entender sua aproximação com Rammellzee, artista, rapper e teórico conhecido por desenvolver conceitos como o “Gothic Futurism” e o “Ikonoklast Panzerism”.

Em 1983, Basquiat produziu Beat Bop, single de Rammellzee e K-Rob. Além de produzir e lançar o disco por seu próprio selo, Tartown Records, Basquiat criou a arte da capa. O trabalho apresenta sua escrita característica em preto e branco e se tornou um dos objetos mais procurados da produção ligada à música do artista. O MoMA registra o disco como uma obra com Basquiat como artista colaborador da capa, enquanto a Sotheby’s documenta sua participação na produção e edição do lançamento.

Curiosidades:
A relação entre Basquiat e Rammellzee ia além do disco. Os dois pertenciam ao mesmo ambiente artístico e musical da Nova York do início dos anos 1980. Rammellzee também desenvolveu uma produção visual própria, com pinturas, esculturas, performances e figurinos, e sua trajetória passou a ser recuperada por importantes instituições nas últimas décadas.
Beat Bop acabou se tornando um ponto de encontro entre três campos que estavam se transformando naquele momento: arte contemporânea, graffiti e hip-hop.

3. Elifas Andreato e Chico Buarque

No Brasil, poucos artistas gráficos tiveram uma relação tão extensa com a música popular quanto Elifas Andreato. Nascido em Rolândia, no Paraná, em 1946, Andreato construiu uma produção que atravessou design gráfico, ilustração, pintura, cartazes e capas de discos. A partir dos anos 1970, seu trabalho ajudou a transformar a capa do LP em um espaço de criação autoral dentro da indústria fonográfica brasileira.

Entre os músicos com quem trabalhou está Chico Buarque. Andreato criou capas para álbuns como Ópera do Malandro (1979), Vida (1980) e Almanaque (1981). Em entrevista, o próprio artista contou que desenvolveu diferentes soluções visuais para Chico, incluindo uma proposta para Vida que incorporava um espelho de acetato à capa.

Curiosidades:
A parceria com Chico é apenas uma parte de uma trajetória muito maior. Elifas criou mais de 300 capas para artistas como Paulinho da Viola, Elis Regina, Martinho da Vila, Clara Nunes, Adoniran Barbosa, Clementina de Jesus, Toquinho, Vinicius de Moraes e Zeca Pagodinho, entre outros. Entre seus trabalhos mais conhecidos estão também Nervos de Aço, de Paulinho da Viola, e Arca de Noé, de Vinicius de Moraes.
Seu trabalho é um exemplo particularmente importante de como um artista visual pode interferir na maneira como uma obra musical é percebida antes mesmo de ser ouvida. Em suas capas, a imagem não funcionava apenas como embalagem: era uma interpretação visual do universo do músico.

4. Peter Blake e The Beatles

Quando Peter Blake recebeu a encomenda para criar a capa de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, em 1967, já era um dos nomes importantes da Pop Art britânica. Sua produção incorporava imagens da cultura popular, publicidade, entretenimento e personagens reconhecíveis, aproximando a arte de elementos presentes no cotidiano.

Para o álbum dos Beatles, Blake trabalhou com a artista Jann Haworth e com o fotógrafo Michael Cooper para criar uma composição que reunia os quatro integrantes da banda diante de uma multidão formada por dezenas de figuras históricas e culturais. A capa foi concebida como uma espécie de grande colagem tridimensional, com fotografias, esculturas e elementos gráficos.

Curiosidade sobre o projeto:O projeto tornou-se uma das imagens mais conhecidas da história da música e também uma obra importante na trajetória de Blake. O MoMA registra a capa como um trabalho de Peter Blake, Jann Haworth e Michael Cooper, enquanto o Metropolitan Museum destaca Blake justamente como o artista conhecido por seu trabalho no projeto de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

A relação de Blake com a música, contudo, não se restringiu aos Beatles. Sua produção gráfica e artística também dialogou com outros nomes da música popular, incluindo trabalhos relacionados aos The Beach Boys. Sua obra permaneceu ligada à cultura pop ao longo de décadas, explorando personagens, celebridades e imagens que fazem parte do imaginário coletivo.

5. Stephan Doitschinoff e Sepultura

Stephan Doitschinoff é um dos nomes brasileiros contemporâneos que melhor exemplificam a aproximação entre arte visual, cultura urbana e música. Sua produção combina pintura, desenho, instalação, vídeo e intervenções com uma iconografia própria, marcada por símbolos religiosos, referências populares, linguagem gráfica e elementos associados à cultura de rua.

Em 2006, o artista foi convidado a criar a capa de Dante XXI, álbum do Sepultura inspirado na Divina Comédia, de Dante Alighieri. A escolha de Doitschinoff aproximou o universo simbólico do artista da sonoridade pesada da banda, resultando em uma identidade visual diretamente relacionada ao conceito do disco.

Seu trabalho também esteve ligado a projetos envolvendo Samuel Rosa, Sepultura, Cavalera Conspiracy, Saves the Day, Buraka Som Sistema e Yamandu Costa. No caso de Cavalera Conspiracy, por exemplo, o artista criou a capa do álbum Pandemonium, depois de receber dos músicos as gravações e as letras para desenvolver uma imagem integrada ao conceito do trabalho.

O encontro com o Sepultura mostra como a produção de um artista visual pode deixar de ser apenas uma representação gráfica de um álbum e participar diretamente da construção de seu universo conceitual.

6. Banksy e o Blur

O misterioso artista de rua britânico Banksy construiu sua reputação no final dos anos 1990 sobre uma premissa inegociável: condenar a mercantilização da arte e rejeitar trabalhos publicitários corporativos. No entanto, em 2003, os fãs do grafiteiro foram surpreendidos ao ver sua assinatura na capa do álbum Think Tank, da banda Blur.

A imagem principal, intitulada The Thinker ou Out of Time, traz um casal com trajes de escafandristas antigos se abraçando calorosamente em stencil sobre fundo cru e desgastado, como se tivesse sido arrancado de um beco londrino.

Curiosidades:
Questionado por ativistas sobre ter “se vendido” à grande indústria fonográfica (a EMI), Banksy respondeu com sua ironia habitual:“Eu precisava de dinheiro, e o Blur é uma boa banda. Na verdade, fiz a capa para pagar o aluguel. É uma hipocrisia, claro, mas pelo menos fiz algo para um grupo que tinha uma mensagem política parecida com a minha.”
Tanto Damon Albarn (vocalista do Blur) quanto Banksy eram figuras vocais nos gigantescos protestos contra a invasão do Iraque em 2003. A estética militar, as máscaras de proteção e o isolamento dos trajes submarinos refletiam a claustrofobia política daquele ano.

A tela original usada para a produção gráfica do álbum foi levada a leilão pela casa Bonhams em 2007 e arrematada por nada menos que £ 624.000 (mais de 4 milhões de reais na cotação da época), um dos marcos que deram início à disparada global de preços do chamado “Efeito Banksy”.

7. Takashi Murakami e Kanye West

No início dos anos 2000, o hip-hop norte-americano buscava novos caminhos visuais para além da ostentação urbana tradicional. Ao mesmo tempo, no Japão, Takashi Murakami fundava o movimento Superflat, teoria estética que integrava a planificação das gravuras tradicionais ukiyo-e do período Edo à cultura moderna dos animes, mangás e do consumismo pop.

Em 2007, encantado com as esculturas e pinturas de Murakami após visitar sua galeria Kaikai Kiki em Tóquio, Kanye West encomendou a direção de arte completa de seu terceiro álbum de estúdio, Graduation.

Curiosidades:

Desde o primeiro disco (The College Dropout), Kanye usava a fantasia de um urso como seu alter ego. Murakami humanizou e animou o mascote no estilo anime, colocando o urso saltando de um trampolim em direção ao cosmos sobre uma metrópole futurista (Universe City), simbolizando a libertação do artista rumo ao estrelato internacional.
O projeto está repleto dos símbolos autorais de Murakami: as célebres flores multicoloridas de expressão eufórica, nuvens estilizadas e paleta de tons pastel em contraste com luz neon, trazendo um ar lúdico que mascarava reflexões sobre a ansiedade da fama.

A colaboração não parou na capa: Murakami dirigiu o videoclipe oficial animado da faixa de abertura do disco, “Good Morning”, que levou uma equipe inteira de animadores japoneses a trabalhar por meses para dar vida ao universo visual do encarte. A parceria pavimentou a entrada definitiva da arte contemporânea asiática no imaginário do hip-hop global.

8. Salvador Dalí e Jackie Gleason

Nos anos 1950, Jackie Gleason era um dos comediantes e astros mais bem pagos da televisão norte-americana, mas mantinha uma paixão ardente pelo jazz orquestral e pela música de humor melancólico (mood music). Gleason compunha assobiando as melodias para assistentes transcreverem em partituras e gravava álbuns com arranjos suntuosos de cordas.

Para o álbum instrumental Lonesome Echo (1955), Gleason queria uma capa que traduzisse a solidão existencial de suas melodias. Amigo pessoal de Salvador Dalí, que frequentava suas festas em Nova York, Gleason convidou o pintor surrealista para criar uma tela original exclusiva para o projeto.

Curiosidades:

Impressionado com a proposta, Dalí fez questão de redigir um texto explicativo para o encarte do disco:“O primeiro efeito é o de angústia. O espaço se expande em todas as direções… O bandolim representa a presença humana e a música, mas flutua sem cordas tocadas, transformando o som em eco solitário.”
A obra reúne o vocabulário visual mais célebre do artista: a paisagem árida de Portlligat banhada por luz poente, uma borboleta fossilizada simbolizando a brevidade da vida e um relógio derretido caído no tronco seco de uma oliveira, aludindo ao tempo que parece estagnar na tristeza.

Durante a apresentação oficial da arte em uma galeria em Nova York, Dalí e Gleason promoveram uma coletiva repleta de champagne onde o pintor declarou que Gleason era “um dos poucos homens do show business com a sensibilidade de um místico espanhol”.

A arte como manifesto tátil

Esses encontros demonstram que as melhores capas de disco operam como pontes culturais: elas arrancam obras de arte do ambiente solene e restrito das bienais e museus para colocá-las diretamente nas mãos de milhões de ouvintes. O vinil permitiu que Andy Warhol, Salvador Dalí, Banksy e Takashi Murakami fizessem parte da vida cotidiana e íntima de quem consome música.

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Paulo Varella

Estudou cinema na NFTS (UK), administração na FGV e química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil nos anos seguintes. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo, pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil. Paulo dirigiu 3 galerias de arte e hoje se dedica a ajudar artistas, galeristas e colecionadores a melhorarem o acesso no mercado internacional.

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