Feiras

SP-Arte Rotas 2026: o novo mapa da arte brasileira

A SP-Arte Rotas 2026 reúne cerca de 70 galerias, além de museus e projetos especiais, ampliando também o diálogo com a produção artística latino-americana. Participam espaços brasileiros de diferentes regiões e galerias da Argentina, Colômbia, Uruguai e Itália.

Cheguei à ARCA, em São Paulo, com aquela mistura de expectativa e curiosidade que acompanha toda feira de arte. A movimentação já começava a tomar conta do espaço. Galeristas recebiam convidados, colecionadores circulavam entre os estandes, artistas reencontravam amigos e, aqui e ali, pequenos grupos se formavam diante de uma obra.

Antes mesmo de começar a olhar com atenção, havia uma sensação muito clara de que alguma coisa estava acontecendo. Não apenas dentro da feira, mas no próprio mapa da arte brasileira. Caminhando pela ARCA, percebi que a pergunta mais interessante talvez não fosse “o que está sendo vendido?”, mas outra, bem mais reveladora:

O que o mercado de arte está começando a enxergar?

A SP-Arte Rotas está redesenhando o mapa da arte brasileira

O número de participantes é expressivo, mas não conta sozinho a história desta edição. O que realmente chama atenção é a diversidade de origens.

Ao lado de galerias brasileiras de diferentes regiões estão espaços latino-americanos e uma galeria italiana. A feira amplia, assim, uma vocação que já estava presente desde sua criação: colocar em circulação uma produção artística que muitas vezes permanece distante dos principais eixos do mercado.

E isso muda a experiência de percorrer a feira.

De repente, o Brasil deixa de parecer um centro cercado por cenas menores. O que aparece diante dos nossos olhos é um país muito mais amplo, complexo e diverso, conectado a outros territórios da América Latina por questões que atravessam memória, identidade, ancestralidade, política e cultura.

Foto: Érica Varella

Mas existe uma consequência de mercado nessa descentralização que merece atenção. Descobrir um artista é apenas o primeiro passo. Criar condições para que sua obra circule, seja produzida com qualidade, apresentada adequadamente, conservada e chegue a novos colecionadores é outra etapa igualmente importante. É nesse ponto que a expansão geográfica deixa de ser apenas uma questão curatorial e passa a envolver também infraestrutura, profissionalização e capacidade de circulação.

O que o mercado de arte começa a enxergar?

O mercado de arte também é feito de atenção.
Antes de uma obra ganhar valor, alguém precisa olhar para ela. Antes de um artista entrar em uma coleção, alguém precisa descobrir seu trabalho. E antes de uma cena regional ganhar projeção, precisam existir pontes capazes de conectá-la a novos públicos.

É justamente aí que a Rotas se torna relevante.
Ao aproximar produções de Salvador, Recife, Fortaleza, Maceió, Brasília, Goiânia, Boa Vista e outras cidades de galerias e agentes já estabelecidos em diferentes circuitos, a feira cria encontros que dificilmente aconteceriam com a mesma intensidade fora dali.

Foto: Érica Varella

Mas há algo ainda mais interessante nesse movimento: não se trata simplesmente de trazer novos artistas para São Paulo. Trata-se de ampliar aquilo que entendemos como arte brasileira. E, quando o mercado amplia seu campo de visão, também precisa ampliar seus mecanismos de mediação.

Um artista pode ter uma produção consistente, uma pesquisa relevante e uma linguagem própria. Mas sua entrada em circuitos mais amplos depende de uma cadeia que envolve galeria, curadoria, comunicação, documentação, produção, transporte, conservação, montagem e relacionamento com o colecionador. Essa infraestrutura costuma ficar invisível para o público. Sem ela, entretanto, a descoberta dificilmente se transforma em permanência.

Uma feira que pede tempo

No centro desse percurso está o Mirante, espaço central da feira, que em 2026 tem direção artística de Bernardo Mosqueira. A proposta reúne pinturas, esculturas e instalações em torno de questões relacionadas à paisagem, ao território e aos possíveis rumos da arte contemporânea.

É um daqueles espaços em que vale a pena diminuir o passo. Porque a paisagem, aqui, não é apenas aquilo que vemos. É aquilo que habitamos. É memória, disputa, ancestralidade e transformação.

Foto: Érica Varella

No Brasil, falar de território quase nunca é apenas falar de natureza. É falar também de povos originários, urbanização, desigualdade, preservação ambiental, pertencimento e apagamentos históricos. Talvez por isso o Mirante funcione tão bem dentro da Rotas: ele cria uma pausa reflexiva em meio à dinâmica inevitavelmente comercial de uma feira. E essa pausa é importante.

Uma feira precisa vender, mas também precisa criar contexto. O valor de uma obra não começa necessariamente na etiqueta de preço; começa na capacidade de produzir significado, construir repertório e estabelecer relações.

E se o próximo grande nome ainda não for conhecido?

Uma das coisas que mais gosto em percorrer uma feira é perceber quando o olhar muda. No início, procuramos os nomes que já conhecemos. Depois de algum tempo, começamos a prestar atenção naquilo que ainda não conhecemos. É justamente aí que surgem as descobertas.

Entre os projetos que chamam atenção está a Galeria Jaider Esbell de Arte Indígena Contemporânea, de Boa Vista, que aproxima o público da produção indígena contemporânea. O Sertão Negro, em Goiânia, articula arte, educação, território e comunidade. Também estão presentes espaços de Salvador, Recife, Fortaleza, São Luís, Brasília e outras regiões do país.

Foto: Érica Varella

A presença de iniciativas como essas revela uma mudança importante: o circuito começa a olhar não apenas para artistas que já chegaram ao mercado, mas para os contextos que produziram esses artistas.

Isso é relevante porque o território deixa de ser apenas tema da obra e passa a ser também parte da leitura sobre sua trajetória.

Para quem trabalha com produção de arte, essa mudança de perspectiva é especialmente interessante. Obras produzidas fora dos grandes centros frequentemente carregam desafios adicionais de circulação, embalagem, transporte, montagem e conservação. Quando entram em circuitos nacionais e internacionais, essas questões deixam de ser detalhes operacionais e passam a fazer parte da profissionalização do próprio mercado.

A descoberta, portanto, não termina quando encontramos o artista. Ela começa ali.

Colecionar também é aprender a olhar

Outro ponto que merece atenção é a variedade de preços e de perfis de artistas presentes na feira.
Isso importa porque formar um colecionador é, antes de tudo, formar um olhar.

Uma coleção não começa necessariamente com uma grande aquisição. Às vezes começa com uma obra que simplesmente nos atravessa. Você para diante dela, volta alguns passos, observa novamente, pergunta quem é o artista, pesquisa seu trabalho. Vai embora e continua pensando naquela imagem.

Talvez seja assim que uma coleção realmente comece. Não pelo patrimônio, mas pelo vínculo.

E esse vínculo também precisa de informação. Quanto mais diverso se torna o mercado, maior é a responsabilidade de galerias, feiras, curadores e agentes culturais em criar contexto para que o público consiga compreender o que está diante dele.

Colecionar não deveria significar apenas comprar uma obra. Deveria significar entrar em uma história.

O que a SP-Arte Rotas 2026 deixa para o mercado brasileiro?

Quando entrei na SP-Arte Rotas, queria descobrir o que havia de mais interessante para ver. Algumas horas depois, ao deixar a ARCA, percebi que estava pensando em outra coisa.

Não mais: “O que vale a pena olhar?”

Mas: “O que ainda não estamos olhando?”

Talvez essa seja a pergunta mais importante que a Rotas 2026 deixa para o mercado de arte brasileiro. Porque existem muitos Brasis produzindo arte.

Artistas trabalhando longe dos grandes centros, construindo linguagens próprias, investigando seus territórios, recuperando memórias e criando obras que talvez ainda não estejam no radar dos grandes colecionadores.

A questão agora é saber se o mercado terá estrutura e disposição para transformar essa descoberta em continuidade. Porque reconhecer novos territórios é apenas o começo. É preciso criar as condições para que seus artistas possam circular, produzir, ser colecionados e permanecer no circuito. É justamente nesse espaço, entre aquilo que o mercado já reconhece e aquilo que começa a descobrir, que uma feira como a Rotas encontra sua força.

No fim, o nome parece cada vez mais preciso.

Rotas.

Porque não existe uma única maneira de chegar à arte brasileira. Existem muitos caminhos. E alguns deles estão começando agora.

Por Érica Varella.
Érica Varella atua no mercado de arte e nas áreas de Fine Art, produção e desenvolvimento de projetos culturais. Com um olhar atento à materialidade, aos processos e às transformações do setor, escreve no ARTE!REF sobre exposições, galerias, artistas, colecionismo e os movimentos que ajudam a definir o mercado de arte contemporânea.

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