Opinião

Entenda o mito do artista

Você acredita em um artista?

É uma pergunta carregada, com certeza: a palavra “acreditar” já traz consigo conotações de fé, dedicação e adoração de um ser superior e místico, enquanto “artista” é um título que afirma autoridade, individualismo e universalidade.

Mas, por mais melodramático que possa parecer, é uma questão séria que vale a pena examinar pois, a infinita idealização da figura criativa ao longo da história levou ao surgimento de um perigoso culto.

É fácil se apaixonar por um artista, essa figura sentada no topo de um culto à personalidade em que cada movimento percebido como um ato de gênio criativo, um queridinho crítico com um apelo extraordinariamente popular.

Louco ou gênio?

Graças à prosa intrigante de muitos romances e à própria lealdade histórica ao individualismo supostamente rude e à cultura de celebridades, o artista tem usado muitas faces icônicas.

Às vezes, ele é apresentado ao público em imagens onde ele aparece com um pincel em uma mão e garrafa de bebida na outra fazendo o papel de gênio incompreendido e sensível.

Enquanto alguns podem achar fácil descartar esses esboços como meros clichês, acho que a maioria das pessoas realmente se vê seduzida pela aura mágica do artista. E, como toda magia, o apelo do artista é um truque que estamos muito confortáveis ​​em comprar.

O Homem Desesperado (1845), de Gustave Courbet

De fato, a própria existência de tal noção coletiva de gênio criativo revela mais sobre nossas próprias inseguranças e necessidades de identificação do que temos com o ser humano real. Além disso, cria certos preconceitos e pressões problemáticas para aqueles indivíduos que ainda estão testando suas expressões criativa.

Por um lado, a crença no artista atribui erroneamente uma certa correlação entre a aparência e o talento, pressupondo que a habilidade inata irá e deve se manifestar em uma pessoa em particular.

Se, por exemplo, fizermos do artista um revolucionário arrojado, alguém que corajosamente enfrenta as convenções sociais, poderemos esquecer que o verdadeiro talento (e o verdadeiro potencial revolucionário) pode ser encontrado igualmente em indivíduos tímidos e inicialmente hesitantes. Por outro lado, se sempre associarmos o artista à calma pensativa e à reclusão, poderíamos ser rápidos demais para dispensar sua contrapartida tagarela, assumindo que a franqueza compulsiva.

Uma vez que o grande título de artista foi atribuído à um indivíduo, os críticos culturais rapidamente caem na armadilha de projetar opiniões predeterminadas na esperança de meramente afirmar sua crença na existência dele.

Tomemos, por exemplo, as muitas anotações, esboços e diários que galerias e editores exibem após a morte de um determinado artista. Esse impulso revela um desejo de conferir brilho ao que poderia ter sido simplesmente um rascunho descartado ou um pedaço de papel, enquanto os espectadores esquecem que o falecido pode ter escondido esses projetos por várias razões – como a baixa qualidade, por exemplo.

Nesses casos, o grau em que uma figura é superestimada ou subestimada como um “artista” também aparece, muitas vezes obscurecendo ainda mais o julgamento do consumidor.

Mas talvez o artista como uma construção social seja mais prejudicial não para o crítico, mas para o artista de amanhã. Pois mesmo aqueles que têm o maior potencial criativo se sentirão sem inspiração, desencorajados e pouco artísticos às vezes.

Nesses momentos, é essencial que o indivíduo fique longe do mito. Se começarmos a acreditar muito no artista, poderemos parar de acreditar em nós mesmos.

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Equipe Editorial

Os artigos assinados pela equipe editorial representam um conjunto de colaboradores que vão desde os editores da revista até os assessores de imprensa que sugeriram as pautas.

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