Lygia Clark. Crédito: Pinacoteca
Lygia Clark (1920–1988) foi uma das artistas fundamentais para a transformação da arte brasileira na segunda metade do século XX. Ao longo de sua trajetória, questionou os limites tradicionais da pintura e da escultura e propôs novas formas de relação entre a obra e o público. Em vez de manter o espectador à distância, passou a convidá-lo a tocar, manipular e participar de experiências que envolviam o próprio corpo.
Essa mudança ganhou força a partir do final da década de 1950, quando Clark se aproximou do movimento neoconcreto, que defendia uma experiência artística menos subordinada à racionalidade geométrica e mais aberta à percepção e à participação. Nos anos seguintes, a artista avançou na investigação do corpo e dos sentidos, desenvolvendo trabalhos que ultrapassavam a ideia convencional de objeto artístico.
Cinco obras e proposições ajudam a compreender essa transformação.
A série Bichos marcou uma mudança importante na escultura brasileira. Produzidas principalmente em placas de metal articuladas por dobradiças, as obras podem ser manipuladas e assumir diferentes configurações. O público deixa de observar uma forma fixa e passa a participar de sua construção.
A interação não é um complemento da obra: faz parte de sua proposta. Ao movimentar as placas, cada participante estabelece uma relação particular com a escultura, que responde aos gestos e às escolhas de quem a manipula.
Os Bichos também questionam a separação entre artista e espectador. A forma final não depende exclusivamente de uma decisão tomada no ateliê, mas se transforma durante o contato com o público. Por razões de conservação, os originais hoje costumam ser protegidos, e algumas exposições recorrem a réplicas autorizadas para permitir a manipulação.
Em Caminhando, Lygia Clark desloca o interesse do objeto para a experiência de realizá-lo. A proposição consiste em cortar uma fita de papel em forma de Möbius, uma superfície contínua que não apresenta uma distinção convencional entre dentro e fora.
O participante faz um corte longitudinal na fita e precisa decidir como continuar o percurso, escolhendo a direção do próximo corte. A cada etapa, as possibilidades se alteram, até que a fita se torne estreita demais para continuar sendo cortada sem se romper.
O resultado material não é o aspecto central do trabalho. O que importa é a ação, as decisões tomadas ao longo do processo e a experiência individual de realizá-lo. Com essa proposição, Clark radicalizou a participação do público: a obra deixa de ser apenas um objeto produzido pela artista e passa a existir no próprio ato de fazer.
Nas Máscaras Sensoriais, Clark amplia a experiência artística para além da visão. A série reúne máscaras de tecido que combinam diferentes estímulos visuais, olfativos e auditivos. Cada peça possui características próprias, com materiais e dispositivos que modificam a maneira como o participante percebe o ambiente.
Algumas máscaras alteram o campo visual; outras incorporam elementos que produzem sons ou aromas. Ao vestir uma delas, a pessoa experimenta uma percepção diferente da habitual, que pode variar entre uma maior integração com o entorno e uma sensação de isolamento.
O trabalho integra a investigação de Clark sobre o corpo e a percepção, desenvolvida a partir de meados da década de 1960. A artista deixa de tratar a visão como principal via de acesso à obra e propõe uma experiência que envolve diferentes sentidos, tornando a participação física parte essencial do trabalho.
Em A casa é o corpo, Lygia Clark transforma o espaço expositivo em uma experiência corporal. A instalação foi concebida como uma estrutura que o participante atravessa, passando por ambientes que remetem a diferentes etapas da experiência de formação do corpo, do nascimento à passagem para o mundo exterior.
Em vez de observar a instalação de fora, o público entra nela e percorre seus espaços. A experiência envolve deslocamento, contato com materiais e percepção das relações entre interior e exterior.
A obra amplia uma questão presente em trabalhos anteriores: o corpo não é apenas o elemento que manipula ou percebe a obra, mas também o espaço a partir do qual a experiência artística acontece. A instalação convida o participante a vivenciar a estrutura fisicamente, em vez de compreendê-la apenas pela observação.
Realizada durante o período em que Clark viveu em Paris e desenvolveu experiências com estudantes, Baba Antropofágica envolve um grupo de participantes reunidos em torno de uma pessoa deitada. Os integrantes colocam carretéis de linha na boca e desenrolam os fios sobre o corpo da pessoa, formando uma trama que cresce à medida que a ação avança.
O título remete à ideia de antropofagia, associada à incorporação e à transformação do que vem do outro. Na proposição, a troca acontece por meio de uma ação coletiva que envolve proximidade física, confiança e participação.
A experiência não se concentra em um objeto acabado, mas no processo construído pelo grupo. Os fios, os corpos e os gestos constituem uma situação compartilhada, na qual a relação entre os participantes é parte fundamental do trabalho.
A trajetória de Lygia Clark mostra como a obra de arte pode deixar de ser entendida apenas como um objeto destinado à contemplação. Dos Bichos às experiências coletivas, a artista desenvolveu propostas nas quais o público participa ativamente da construção do trabalho.
Essa mudança também transformou o papel do artista. Em vez de determinar sozinho uma forma acabada, Clark passou a criar situações que dependiam da ação e da experiência de outras pessoas. O público, por sua vez, deixou de ocupar uma posição exclusivamente passiva e tornou-se parte essencial da realização da obra.
Sua produção permanece relevante para compreender as possibilidades da arte contemporânea e as diferentes maneiras pelas quais uma obra pode existir: como objeto, ação, experiência sensorial ou situação coletiva.
Fontes:
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