Arte brasileira

Entre memória e ancestralidade: conheça a obra de Dalton Paula

Dalton Paula nasceu em Brasília, em 1982, e vive e trabalha em Goiânia, Goiás. Sua produção artística investiga a representação dos corpos negros na diáspora africana, do período colonial à contemporaneidade, articulando memória, ancestralidade, identidade e cura simbólica. Pintura, instalação, fotoperformance e videoperformance fazem parte de uma prática multidisciplinar que busca questionar imagens historicamente construídas sobre a população negra e abrir espaço para outras narrativas.

O corpo ocupa o centro dessa pesquisa. Em seu site oficial, o artista descreve o interesse em representar corpos silenciados pelo medo, pela insegurança e por estruturas sociais que limitam seu reconhecimento. Para desenvolver esse trabalho, recorre a referências presentes nos subúrbios, nas congadas, nos terreiros e nos ritos das religiões de matriz africana. Esses espaços, marcados pela transmissão de conhecimentos, pela celebração e pela experiência comunitária, são fundamentais para compreender sua produção.

Dos desenhos infantis à carreira artística

O interesse de Dalton Paula pela arte começou na adolescência, de uma maneira que talvez surpreenda quem conhece seus trabalhos atuais. Aos 14 anos, ele reproduzia personagens do desenho animado Os Cavaleiros do Zodíaco, usando papel-carbono para copiar os contornos e lápis de cor para preencher as imagens. Anos depois, reconheceria naquela combinação de cores, personagens e mitologias uma das portas de entrada para seu interesse pela pintura.

Pouco depois, ingressou na Escola de Artes Visuais em Goiânia e começou a estudar pintura. Enquanto desenvolvia sua formação, prestou concurso público para se tornar bombeiro militar, buscando uma fonte de renda que lhe permitisse continuar estudando. Durante dez anos, conciliou a profissão com o trabalho artístico, mantendo a pintura como parte de sua vida mesmo diante das exigências de uma carreira profissional paralela.

Em 2016, ainda atuando como bombeiro, Paula foi convidado a participar da 32ª Bienal de São Paulo, com a obra “Rota do Tabaco”. A participação representou um marco importante, ampliando sua visibilidade e contribuindo para a consolidação de sua carreira artística.

Instalação “Rota do Tabaco”, de Dalton Paula, na 32ª Bienal de São Paulo, em 2016. Foto: Google Arts & Culture
Rota do tabaco, 2016

“Na obra de Dalton Paula, objetos são destituídos de suas funções originais para se tornarem suporte da pintura. Primeiro as enciclopédias, antigas detentoras de um conhecimento universalista, tiveram suas capas sobrepostas por representações de sujeitos e saberes comumente omitidos em seu conteúdo, como negros e indígenas. Agora esse procedimento se repete sobre um conjunto de alguidares, pratos cerâmicos que recebem a comida e também as oferendas em rituais de religiões afro-brasileiras. Com a pintura em seu interior, esses objetos confrontam os discursos hegemônicos da arte e da política, buscam novos personagens e reencenam passagens de nossa história. Piracanjuba, em Goiás, Cachoeira, no Recôncavo Baiano, e Havana, em Cuba, são cidades produtoras de tabaco. Essa atividade econômica remonta ao passado colonial e à migração de africanos escravizados nas Américas. Paula viajou aos três pontos dessa Rota do tabaco (2016) para pesquisar como essa herança se apresenta hoje. Encontrou desde a precariedade dos meios de trabalho nas fábricas de cigarrilhas até o uso dos charutos como ícone da revolução comunista. No vasto imaginário retratado, o fumo é um contexto omitido que revela o contraste entre corpos negros e roupas brancas, entre a invisibilidade da cultura afro-brasileira e os legados de cura – medicinal e espiritual – extraídos do tabaco.” – texto curatorial da 32ª Bienal de São Paulo, em 2016.

O corpo negro como centro da pesquisa

A produção de Dalton Paula parte da observação de corpos e experiências frequentemente marginalizados nas narrativas históricas e nas representações visuais. Sua pesquisa não se limita à recuperação de personagens do passado: também considera as experiências cotidianas, os espaços de convivência e as manifestações culturais que preservam conhecimentos e fortalecem vínculos comunitários.

Dalton Paula | Bananeira, facão e rede | Óleo e folha de prata sobre tela | 130 x 296 cm | 2018 | Foto: Paulo Rezende

Os terreiros, as congadas, os quilombos, os subúrbios e as festas tradicionais afro-brasileiras são referências importantes nesse processo. Nesses contextos, o corpo está relacionado à memória, à religiosidade, à música, à dança e à transmissão de saberes. Em seu texto Do Silêncio à Cura, o artista chama a atenção para a maneira como os mitos são revividos e ressignificados nesses espaços, nos quais pessoas comuns podem assumir papéis simbólicos de reis e rainhas de Congo e renovar sua relação com a religiosidade afro-brasileira.

Dalton Paula | Reisado | Óleo sobre tela | 70 x 90 cm | 2009 | Foto: François Calil

A ideia de cura simbólica atravessa esse trabalho. Ao criar imagens que reconhecem o protagonismo de pessoas negras, Paula questiona representações que as aprisionaram em posições subordinadas e propõe outras formas de presença. Sua intenção não é apenas denunciar o apagamento histórico, mas produzir imagens capazes de participar da construção de outras memórias.
Essa investigação também se relaciona à trajetória de artistas que abriram caminhos para discutir a representação da população negra na arte brasileira. Entre as referências importantes para Paula está Rosana Paulino, artista a quem ele considera sua madrinha na arte. A relação evidencia a importância das trocas e das referências entre artistas que investigam as conexões entre imagem, corpo, memória e história.

Retratos que reescrevem a memória

Entre os trabalhos mais conhecidos de Dalton Paula estão suas séries de retratos de figuras negras históricas. Nessas pinturas, personagens que tiveram pouca presença nos registros visuais tradicionais são representados com vestimentas elaboradas, poses formais e uma composição que lhes confere destaque e dignidade.

Dalton Paula | Zeferina | Óleo sobre tela | 61 x 45 cm | 2018 | Foto: Paulo Rezende

A linguagem visual desses retratos é marcada por paletas de cores características, atenção aos detalhes e elementos que evocam o prestígio associado aos retratos oficiais. Em algumas obras, o artista utiliza folhas de ouro, recurso que reforça a presença das figuras e estabelece um contraste com a exclusão histórica de pessoas negras dos espaços de representação e poder.

Dalton Paula | João de Deus | Óleo sobre tela | 61 x 45 cm | 2018 | Foto: Paulo Rezende

A série também evidencia uma questão recorrente em sua pesquisa: como representar pessoas cuja aparência não foi registrada ou cujas imagens não chegaram até o presente? Para construir esses retratos, Paula parte de informações históricas e biográficas, elaborando interpretações visuais que não devem ser confundidas com registros documentais. A pintura permite imaginar a presença dessas figuras e conferir visibilidade às suas trajetórias, reconhecendo ao mesmo tempo as lacunas que atravessam a memória histórica.

Em 2022, essa pesquisa ganhou destaque na exposição individual Retratos Brasileiros, realizada no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP). A mostra reuniu 30 pinturas de personagens negros da história brasileira, ampliando um trabalho que o artista vinha desenvolvendo sobre a representação de indivíduos cuja participação na formação do país nem sempre recebeu o devido reconhecimento.

Exposição “Retratos Brasileiros” no MASP

Um exemplo anterior é Zeferina (2018), obra associada à exposição Histórias afro-atlânticas, realizada pelo MASP e pelo Instituto Tomie Ohtake. Zeferina foi uma liderança negra relacionada ao Quilombo do Urubu, na região de Salvador, e à resistência à escravidão. Ao dedicar uma pintura à personagem, Paula contribui para trazer sua trajetória ao campo da memória visual contemporânea.

A diversidade de suportes e materiais

Embora a pintura seja uma linguagem central em sua produção, Dalton Paula também se destaca pela variedade de superfícies e objetos sobre os quais trabalha. Suas obras podem utilizar telas, lamparinas, bateias e gamelas — instrumentos associados ao garimpo artesanal —, livros e alguidares, recipientes de barro utilizados em rituais de religiões de matriz africana.

Essa escolha amplia o sentido dos trabalhos. Os objetos carregam referências a práticas sociais, atividades econômicas, tradições religiosas e formas de vida que integram o universo de pesquisa do artista. Ao incorporá-los à obra, Paula estabelece relações entre imagem e materialidade, aproximando a experiência estética de contextos culturais específicos.

36a Panorama da Arte Brasileira. Dalton Paula | Bamburrô | Instalação de 3 x 7 m | Pintura a óleo e folha de ouro sobre 40 bateias e 5 gamelas de madeira e metal | 2019 | Foto: Paulo Rezende

A diversidade material não se limita à escolha dos suportes. A aplicação de folhas de ouro e outros recursos pictóricos contribui para a construção de uma identidade visual reconhecível. Em seus retratos, o diálogo entre cores, vestimentas, objetos e superfícies cria uma presença que contrasta com a ausência histórica dessas figuras em muitas narrativas oficiais.

Sertão Negro: arte, educação e ancestralidade

Em 2021, Dalton Paula fundou o Sertão Negro Ateliê e Escola de Artes, em Goiânia. Criado em parceria com a pesquisadora Ceiça Ferreira, o espaço aproxima práticas artísticas contemporâneas das tradições culturais afro-brasileiras e da diáspora africana. A iniciativa reúne criação, formação, residências artísticas e atividades comunitárias, com atenção à consciência ambiental e à valorização dos conhecimentos tradicionais.

Com uma estrutura que incorpora princípios de bioconstrução e chalés destinados a residências artísticas, o Sertão Negro recebe participantes de diferentes lugares e busca favorecer a troca entre artistas, pesquisadores e comunidade. Mais do que um ateliê, funciona como um espaço de aprendizagem e convivência, no qual a arte está relacionada à autonomia, à educação e à continuidade de práticas culturais.

Sertão Negro

O projeto também ajuda a compreender a dimensão coletiva do trabalho de Paula. A preocupação com a memória e a ancestralidade não aparece apenas nas imagens que produz, mas na criação de um ambiente em que os conhecimentos afro-brasileiros possam ser compartilhados, renovados e transmitidos às novas gerações.

Para o artista, o Sertão Negro integra sua própria prática: é um lugar de reflexão sobre o passado, de atuação no presente e de construção de possibilidades para o futuro. Nesse sentido, o espaço prolonga, no campo da educação e da vida comunitária, questões que também atravessam suas pinturas e instalações.

Da pintura à instalação: Rota do Algodão

A investigação de Dalton Paula também se estende às relações entre história, trabalho e economia. Em 2022, o artista apresentou Rota do Algodão, na Pinacoteca de São Paulo, uma obra que aborda a história do algodão e suas conexões com a escravidão e com estruturas econômicas que atravessaram diferentes territórios.

Exposição de Dalton Paula ‘Rota do Algodão’, na Pinacoteca de São Paulo, em 2022. Crédito. Pinacoteca

A instalação amplia a pesquisa para além do retrato individual. Em vez de concentrar o olhar em uma personagem, o trabalho examina processos históricos e as marcas deixadas por sistemas de exploração. O algodão funciona como ponto de partida para refletir sobre as relações entre produção, trabalho e desigualdade, conectando a história econômica às experiências de pessoas cujas vidas foram condicionadas por esses sistemas.

A obra evidencia como a prática multidisciplinar de Paula permite abordar uma mesma preocupação por diferentes caminhos. Se os retratos dão presença a indivíduos historicamente marginalizados, a instalação investiga estruturas que influenciaram a vida de comunidades inteiras.

Exposições e reconhecimento internacional

A participação na 32ª Bienal de São Paulo, em 2016, foi um dos primeiros marcos de projeção nacional de Dalton Paula. Nos anos seguintes, sua presença em exposições importantes ampliou a circulação de seu trabalho. Em 2018, participou da Trienal do New Museum, em Nova York, com Songs for Sabotage, e integrou a exposição Histórias afro-atlânticas, apresentada pelo MASP e pelo Instituto Tomie Ohtake. No mesmo ano, participou da 11ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre.

Em 2019, recebeu o Prêmio CNI SESI SENAI Marcantonio Vilaça para as Artes Plásticas. Em 2021, integrou a exposição Enciclopédia Negra, na Pinacoteca de São Paulo. O ano de 2022 foi especialmente significativo, com as individuais Retratos Brasileiros, no MASP, e Rota do Algodão, na Pinacoteca.

Em 2023, Paula recebeu o Soros Arts Fellowship, concedido pela Open Society Foundations. No ano seguinte, participou da 60ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, intitulada Stranieri Ovunque – Foreigners Everywhere, e recebeu o Chanel Next Prize, reconhecimento internacional voltado a artistas que exploram novas possibilidades em suas práticas.

Sua obra integra coleções de instituições como o Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York; o Art Institute of Chicago; o Institute of Contemporary Art de Miami; o MASP e a Pinacoteca de São Paulo. Essa presença em coleções públicas e privadas contribui para ampliar a circulação de seus trabalhos e sua inserção no debate internacional sobre arte contemporânea.

Em 2025, Paula também integrou a lista Power 100, da revista britânica ArtReview, ocupando a 68ª posição e sendo o único artista brasileiro incluído naquela edição. O reconhecimento reforçou a projeção internacional de uma trajetória que articula produção artística, pesquisa histórica e atuação comunitária.

Atualmente, Dalton Paula está entre os 148 artistas, provenientes de 20 países que compõem “Histórias latino-americanas”, a maior exposição de 2026 no MASP.

Entre o silêncio e novas narrativas

A trajetória de Dalton Paula reúne experiências e linguagens diversas, mas sua produção mantém uma questão central: como representar corpos, histórias e conhecimentos que foram silenciados ou marginalizados?

Seus retratos desafiam as ausências da memória visual brasileira; a diversidade de suportes aproxima a arte de objetos e práticas culturais; e o Sertão Negro leva essa pesquisa para o campo da educação e da construção comunitária. Em todos esses caminhos, a ancestralidade aparece não como algo distante ou imutável, mas como conhecimento vivo, capaz de orientar novas formas de compreender o presente.

Ao criar imagens para personagens historicamente apagados e fortalecer espaços de transmissão de saberes afro-brasileiros, Dalton Paula não pretende encerrar as lacunas da história. Seu trabalho convida o público a reconhecê-las e a questionar como foram produzidas. É nesse movimento, entre memória e reinvenção, que sua obra abre espaço para outras narrativas e para futuros em que mais pessoas possam se reconhecer na história.

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Thais de Albuquerque

Thais de Albuquerque é Relações Públicas, artista visual e criadora de conteúdo. Atua há mais de 15 anos em marketing e criação de identidade visual para empresas, projetos e instituições. Em seu Instagram, desenvolve conteúdos autorais ligados a curiosidades sobre o mundo das artes.

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