Arte brasileira

Como a tecnologia pode ampliar a experiência com a arte?

Hoje, com o avanço da inteligência artificial, já é possível reproduzir a voz de uma pessoa que morreu, criar imagens inéditas a partir do estilo de um artista e até simular conversas com personagens históricos. São possibilidades que, há poucos anos, pareciam pertencer à ficção científica e que agora estão cada vez mais acessíveis. Mas, quando falamos de artistas que já não estão vivos, até onde podemos ir nessas recriações?

Essa foi uma das reflexões que surgiram durante minha participação no Hacktudo 2026, festival dedicado à cultura digital e à inovação. Na HackConference, discutimos como as novas tecnologias estão transformando a produção e a experiência artística. Entre tantas possibilidades apresentadas, uma questão me parece especialmente importante: a responsabilidade de quem utiliza essas ferramentas para representar pessoas e obras que fazem parte da nossa história.

A discussão não é sobre ser contra ou a favor da inteligência artificial. Essas ferramentas já fazem parte do nosso cotidiano e oferecem possibilidades interessantes para a pesquisa, a educação e as instituições culturais. O que me interessa é entender em que momento uma interpretação contemporânea pode começar a ser confundida com um registro histórico.

Imagine entrar em uma exposição e encontrar uma gravação de Tarsila do Amaral comentando suas próprias pinturas. A voz parece verdadeira, as palavras fazem sentido e o conteúdo foi produzido a partir de informações conhecidas sobre sua trajetória. Ainda assim, Tarsila nunca fez aquela gravação e talvez nunca tenha expressado aquelas opiniões.

As tecnologias digitais também permitem explorar novas formas de apresentar obras já existentes, criando movimentos, ampliando detalhes e propondo experiências que não seriam possíveis diante de uma pintura original. Essas possibilidades não comprometem, por si só, a autenticidade de uma obra. A distinção está na maneira como essas intervenções são apresentadas e na clareza sobre o que pertence à criação original e o que resulta de uma interpretação contemporânea.

Na gestão de um legado artístico, essa distinção é fundamental. Uma obra não se resume à sua aparência: ela também é resultado de um processo criativo, de escolhas individuais e de um contexto histórico específico. Por isso, qualquer intervenção contemporânea precisa considerar não apenas suas possibilidades estéticas, mas também a maneira como será compreendida pelo público.

Isso não significa que artistas históricos não possam ser reinterpretados. A história da arte está repleta de releituras, apropriações e novas interpretações de obras anteriores. Essas práticas fazem parte da produção cultural e podem contribuir para que diferentes gerações estabeleçam relações com o passado.

O problema surge quando essas interpretações deixam de ser identificadas como criações contemporâneas e passam a circular como se fossem registros autênticos. Uma imagem produzida hoje pode reproduzir características de determinado artista, mas isso não a transforma em uma obra de sua autoria. O mesmo vale para uma voz recriada artificialmente, ainda que reproduza com precisão seu timbre e sua maneira de falar.

Durante a curadoria de O Brasil de Tarsila, ao lado de Juliana Miraldi, essa preocupação apareceu em uma decisão bastante concreta. Na sala Roteiros de Viagem, os visitantes são convidados a conhecer as experiências de Tarsila pelo mundo por meio de uma narrativa construída a partir de cartas, documentos e relatos históricos, em uma ambientação inspirada nos vagões de trem.

Seria possível utilizar inteligência artificial para simular a voz da artista nessa narrativa. Preferimos não fazer isso. Sou eu quem empresta a voz à história das viagens da minha tia-bisavó.

A escolha não está relacionada à impossibilidade de reproduzir sua voz, já que existem registros sonoros de Tarsila. O que nos preocupava era não atribuir à artista uma narrativa construída posteriormente, ainda que baseada em documentos históricos. Ao utilizar minha própria voz, optamos por apresentar essa história como uma interpretação contemporânea de sua trajetória, sem a intenção de simular um depoimento da própria artista.

Esse cuidado me parece ainda mais necessário porque as tecnologias de reprodução estão se tornando cada vez mais convincentes. Nem sempre será simples identificar se uma imagem, uma fala ou um vídeo corresponde a um registro verdadeiro. E, no campo da arte, onde a autoria e a proveniência possuem tanta importância, essa confusão pode trazer consequências que vão além da experiência de uma exposição.

Penso também no que acontecerá com esses conteúdos daqui a algumas décadas. Uma imagem gerada hoje pode circular fora de seu contexto original, perder a identificação de que foi produzida artificialmente e acabar sendo compartilhada como se fosse um documento histórico. A facilidade de produzir e distribuir essas representações torna ainda mais importante a responsabilidade sobre sua identificação e circulação.

Quando trabalhamos com o legado de um artista, existe uma responsabilidade que não termina na preservação física das obras. Ela também envolve a maneira como sua história é contada, como sua produção é contextualizada e como sua imagem é utilizada publicamente.

Talvez uma das discussões mais importantes diante das possibilidades atuais da inteligência artificial seja justamente essa: como lidar com a memória de pessoas que já não podem participar das decisões sobre a maneira como serão representadas?

A tecnologia nos permite recriar imagens, vozes e situações com uma precisão cada vez maior. Mas, quando trabalhamos com a história de um artista, precisamos reconhecer que existe uma diferença entre ampliar as possibilidades de interpretação de sua obra e atribuir a ele algo que nunca produziu. É nessa distinção que considero fundamental concentrar nossa atenção.

Leia também: Aos 140 anos de Tarsila do Amaral, o Brasil celebra sua continuada modernidade

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Paola do Amaral

Paola do Amaral Montenegro é gestora cultural, curadora, pesquisadora e especialista em branding cultural. Sobrinha-bisneta de Tarsila do Amaral, atua na gestão de seu legado na Tarsila do Amaral S/A, coordenando projetos de catalogação, licenciamento e difusão de sua obra. Pós-graduada em Museologia e membro do ICOM, desenvolve iniciativas voltadas à preservação do patrimônio artístico, à gestão de propriedade intelectual e à valorização de legados culturais. Também produz conteúdo sobre arte, memória e patrimônio, contribuindo para a ampliação do acesso e do interesse público pela arte brasileira.

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