Você conhece essa Tarsila do Amaral?
Tarsila do Amaral é conhecida pelas cores. O “azul puríssimo, rosa violáceo, amarelo vivo, verde cantante”, que ela mesma descreveu como a paleta da sua infância na fazenda. Essa paleta virou sinônimo do seu nome, e com razão: ela inventou uma forma única de ver o Brasil.
Mas há um conjunto de obras de Tarsila, que poucos conhecem, e que revelam uma pintora diferente da que aprendemos a reconhecer. São obras dos anos 1940, de paleta mais contida, mais introspectiva, que a historiografia costuma tratar como um período menor. Eu penso diferente.
Para entender essas obras, é preciso voltar a duas telas anteriores.
A primeira é o Abaporu, de 1928. Todo mundo conhece: aquela figura de perna enorme, braço apoiado no chão, diante de um cacto solitário.

© Tarsila do Amaral S/A
A segunda é Composição (Figura Só), de 1930, pintada no ano mais difícil da vida de Tarsila, quando a crise econômica e o fim do casamento com Oswald de Andrade aconteceram ao mesmo tempo. Ela pintou uma única obra naquele ano. Uma figura cujo cabelo se transforma numa fita longa e ondulada que percorre a tela inteira.

Em Terra, de 1943, o cabelo da Composição (Figura Só) voltou. Está lá, percorrendo a tela, mas agora confundido com o solo, mais sutil. A figura também voltou, mas diferente: agora é um corpo humano de proporções distorcidas, praticamente unificado com a Terra. A paleta é outra, a estética é outra, mas os elementos são os mesmos. Será que a ideia é a mesma?
Obras em Destaque

Em Primavera (duas figuras), de 1946, é o Abaporu que volta. Há duas figuras que se fundem: uma tem a perna na mesma posição inconfundível, o braço na mesma proporção descomunal. O cabelo da Composição (Figura Só) também está lá. Tarsila parece não estar revisitando si mesma conscientemente, estava sendo fiel a um repertório de imagens que carregava dentro de si há quase duas décadas.

A estética de Tarsila mudou completamente. O que permaneceu foram as imagens.
Essa mudança de paleta tem contexto. A crise de 1929 havia devastado a fortuna da família e Tarsila passou os anos seguintes trabalhando para se manter com o próprio dinheiro. Parte significativa de sua produção dos anos 1940 foi de retratos, uma forma de pintura com mercado mais garantido. O contexto econômico deixou marcas no que ela produzia: as cores caipiras, alegres, foram cedendo espaço para uma pintura mais contida, mais alinhada ao que o mercado de arte brasileiro queria comprar naquele momento.
Por que Tarsila do Amaral é tão importante para a arte?
Isso é o que me move quando olho para esse conjunto de obras: a ideia de que Tarsila, como qualquer pessoa, foi mudando ao longo da vida. Algumas coisas foram ficando para trás. Outras continuaram ali, subterrâneas, aparecendo de formas que ela mesma talvez não reconhecesse imediatamente.
Apresentar essas obras é um convite para conhecer uma Tarsila além do Abaporu, além das cores caipiras e do glamour de Paris. Uma pintora que lutou contra muitos preconceitos e que teve uma vida que ainda não foi contada o suficiente.

