Arte Contemporânea

O que é Vantablack? O pigmento preto que mudou a arte contemporânea

Por Thais de Albuquerque - maio 26, 2026
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O Vantablack ficou conhecido mundialmente como o “preto mais escuro já criado”. Desenvolvido pela empresa britânica Surrey NanoSystems, o material absorve cerca de 99,96% da luz visível, criando um efeito visual tão extremo que objetos parecem perder forma, profundidade e volume. Criado originalmente para aplicações militares e aeroespaciais, o material foi lançado em julho de 2014, no Reino Unido, durante um dos principais eventos da indústria aeroespacial mundial, deixando muita gente de olhos arregalados.

Mais do que uma tinta, o Vantablack é uma tecnologia nanotecnológica que transformou debates sobre ciência, percepção e arte contemporânea. Ela rapidamente despertou interesse no universo artístico por produzir algo raro: a sensação de vazio absoluto. Estruturas e esculturas revestidas com Vantablack parecem buracos bidimensionais, como se partes da realidade tivessem sido apagadas.

Vantablack
Crédito: Surrey NanoSystems

O que exatamente é o Vantablack?

O nome Vantablack vem da expressão Vertically Aligned NanoTube Arrays (“matrizes de nanotubos alinhados verticalmente”). O material é composto por milhões de nanotubos de carbono microscópicos capazes de aprisionar praticamente toda a luz que entra em contato com sua superfície.

Vantablack
Papel-alumínio com uma porção — também amassada — revestida com Vantablack. Crédito: Surrey NanoSystems

O Vantablack não funciona como um pigmento comum… não é uma tinta. Trata-se de um revestimento ultratecnológico produzido em laboratório sob temperaturas extremas. A luz entra na estrutura dos nanotubos, ricocheteia internamente e quase não consegue escapar — o que cria a impressão de ausência visual completa.
Eu sei que é difícil imaginar “nanotubos”, e a explicação técnica é essa, mas o que realmente importa é o resultado perturbador: curvas desaparecem, texturas somem e objetos tridimensionais parecem planos ou irreais.

Vantablack
Crédito: Surrey NanoSystems

Quando a arte encontrou o “vazio”

Quando Anish Kapoor descobriu o Vantablack, ficou obcecado! O artista britânico milionário, conhecido por esculturas monumentais e superfícies hipnóticas, passou a protagonizar uma participação quase novelesca no surgimento desse pigmento. Afinal, não era apenas uma nova cor: era algo que parecia desafiar a própria realidade visual, e isso combinava muito com a narrativa que ele vem criando há anos.

Vantablack
Anish Kapoor

Em 2016, Kapoor assinou um acordo de exclusividade artística com a fabricante Surrey NanoSystems e, de repente, o “preto mais preto do mundo” passou a ter um único artista autorizado a utilizá-lo. A notícia caiu como uma bomba no circuito contemporâneo. Como assim alguém poderia “ter” o preto absoluto?

A polêmica cresceu rapidamente. Pra começo de conversa, o material foi desenvolvido inicialmente para aplicações científicas e militares. Por sua complexidade técnica, ele não funciona como tinta convencional aplicada com pincel. O processo exige equipamentos específicos, reatores de alta temperatura e superfícies preparadas especialmente para receber os nanotubos. Quer dizer… Não é que você vai poder comprar essa tinta numa loja e pintar uma obra.

Enquanto parte do meio artístico via a parceria como uma colaboração tecnológica legítima, outros artistas acusaram Kapoor de monopolizar um avanço visual que deveria ser acessível a todos. O episódio acabou transformando o Vantablack em um fenômeno pop da arte contemporânea — misturando ciência, ego, mercado, rivalidade e uma discussão quase filosófica sobre quem pode possuir uma cor.

Ainda assim, Kapoor alimentou o mistério em torno do material. Durante anos, falou pouco sobre o processo técnico e demorou quase uma década para apresentar publicamente suas primeiras obras feitas com Vantablack. Até que as obras foram finalmente apresentadas na Bienal de Veneza de 2022, e pareciam menos esculturas e mais falhas na realidade: superfícies tão escuras que o olhar humano simplesmente não conseguia compreender onde começavam ou terminavam.

Vantablack
Exposição de Anish Kapoor usando Vantablack na Bienal de Veneza 2022. Foto: © David Levene.

Polêmica, rivalidade e deboche acabaram originando novas tintas

A polêmica em torno do Vantablack ganhou novos contornos quando o artista britânico Stuart Semple decidiu responder ao monopólio artístico de Anish Kapoor com ironia e deboche. Incomodado com o fato de Kapoor possuir exclusividade artística sobre o “preto mais preto do mundo”, Semple lançou em 2016 um pigmento chamado PINK, descrito como “o rosa mais rosa do mundo”. O produto podia ser comprado por qualquer pessoa, desde que aceitasse um termo curioso: confirmar que não era Anish Kapoor, nem comprava o material em nome dele.

O que começou como uma provocação performática acabou viralizando. A comunidade artística abraçou a brincadeira, transformando Semple em símbolo de uma defesa mais aberta e democrática dos materiais artísticos. A rivalidade ganhou ainda mais repercussão quando Kapoor publicou em seu Instagram uma foto mostrando o dedo do meio coberto pelo pigmento rosa de Semple — uma imagem que rapidamente se tornou um meme no universo da arte contemporânea.

Desde então, Semple transformou a disputa em um projeto contínuo de experimentação cromática. Seu estúdio passou a lançar materiais como “o verde mais verde”, “o glitter mais brilhante” e diferentes versões de tintas pretas ultrafoscas, desenvolvidas para produzir efeitos visuais semelhantes ao Vantablack, mas com preços acessíveis e disponíveis ao público.

Vantablack
Stuart Semple. Crédito: Mayhar Malhotra

A mais famosa delas foi a Black 3.0, uma tinta acrílica extremamente escura criada como alternativa artística ao Vantablack. O material produz um efeito visual impressionante e reforçou a discussão sobre criatividade, acesso e democratização no mundo da arte.

O preto Black 3.0 de Stuart Semple

Como assim as cores podem ter “donos”?

Pois é. O debate sobre exclusividade de cores existe há décadas. Um dos exemplos mais conhecidos é o do artista francês Yves Klein, que desenvolveu nos anos 1950 o International Klein Blue (IKB), um azul ultramarino profundamente associado à sua produção artística.

Vantablack
IKB 191 (1962), uma das várias obras que Klein pintou com International Klein Blue

Também existem cores registradas por marcas comerciais, como o azul da Tiffany & Co. ou o vermelho característico das solas da Louboutin.

Mas o caso do Vantablack chamou atenção porque não envolvia apenas uma tonalidade específica, e sim uma tecnologia radicalmente nova de absorção luminosa.

O fascínio pelas cores impossíveis

O sucesso do Vantablack revela algo maior: a obsessão humana por cores capazes de desafiar os limites da percepção. Nos últimos anos, artistas, cientistas e laboratórios passaram a investigar pigmentos cada vez mais fluorescentes, refletivos ou absorventes. Mais do que simples efeitos visuais, essas pesquisas exploram como o cérebro interpreta espaço, profundidade, luz e matéria.

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