Arte Contemporânea

Por que a venda de ‘Comedian’ por US$ 5,2 milhões incomoda tanta gente?

‘Comedian’, a famosa fruta de Maurizio Cattelan, roubou a cena na casa de leilões Sotheby’s New York – e na mídia – nos últimos dias. A obra, composta por uma banana colada na parece por um pedaço de fita adesiva, foi arrematada por US$ 5,2 milhões. O lance vencedor veio de Justin Sun, o fundador da plataforma de criptomoeda TRON, que fez a compra usando criptomoedas.
O trabalho de Cattelan vinha sendo comentado há muitos dias e prometia ser a grande sensação da noite do leilão que incluía obras de arte de outros artistas importantes como Basquiat, Koons e Kooning.

Imagens do leilão da Sotherby’s New York


Mas o mundo divide opiniões sobre a notícia. ‘Comedian’ é arte? Cattelan alcançou sua meta de criticar ao mercado ao vender uma banana presa com fita adesiva por milhões de dólares? O que é arte?

‘Comedian’, desde 2019 dividindo opiniões

A estreia da banana com fita adesiva foi em 2019 na Art Basel Miami Beach. A obra estava à venda por US$ 120.000.
A obra rapidamente se tornou uma sensação global viral que deixou um impacto duradouro na consciência cultural contemporânea. Sua aparição inicial atraiu multidões recordes, dividiu espectadores e críticos e causou tanto pandemônio que teve que ser removido do local antes do fim da feira.

Amplamente venerado e fortemente contestado – e comido não apenas uma, mas duas vezes – o trabalho foi manchete de notícias compartilhadas ao redor do mundo. Disparando para a infâmia histórica da arte e reconhecimento universal em um instante, nenhuma outra obra de arte do século XXI provocou controvérsia, despertou a imaginação e derrubou a própria definição de arte contemporânea como esta.

O leilão de Comedian

Em novembro de 2024, a fruta superou facilmente sua estimativa de pré-venda de US$ 1 milhão a US$ 1,5 milhão, chegando a US$ 5,2 milhões após um concurso de lances que durou pouco mais de seis minutos. Foi o único lote da venda pelo qual os compradores puderam pagar com criptomoedas.

Imagens do leilão da Sotherby’s New York

“Comedian é Dada — uma espécie de obra-prima do momento”, disse o negociante particular Andy Terner ao sair da venda.

As obras polêmicas de Cattelan

Visto como um trapaceiro do mundo da arte, Cattelan é mais conhecido por suas esculturas hiper-realistas sarcásticas. A fruta multimilionária marca o terceiro maior preço de leilão do artista italiano.

O recorde vai para Him (2001), uma representação ligeiramente menor que o tamanho natural de Hitler ajoelhado com as mãos cruzadas como se estivesse em penitência; a obra foi vendida por US$ 17 milhões na Christie’s New York em maio de 2016 .

‘HIM’, de Maurizio Cattelan

Quando uma banana presa com fita adesiva na parede foi vendida por US$ 120.000 em 2019, houve um alvoroço nas redes sociais e um antigo debate sobre o significado da arte.

“Isso não é apenas uma obra de arte”, disse Sun no press release. “Representa um fenômeno cultural que une os mundos da arte, dos memes e da comunidade de criptomoedas. Acredito que esta peça inspirará mais pensamento e discussão no futuro e se tornará parte da história.”

Como o licitante vencedor, ele receberá um rolo de fita adesiva e uma banana, bem como um certificado de autenticidade e instruções oficiais para instalar a obra. Antes da venda, a Sotheby’s confirmou à CNN que nem a fita nem, felizmente, a banana são originais.

Conheça 10 obras polêmicas de Maurizio Cattelan

Divisão de opiniões

O mundo da arte se divide sobre os méritos da obra, embora alguns críticos a vejam como enraizada na rica tradição de obras conceituais — que remontam ao famoso mictório montado de Marcel Duchamp — que questionam o valor da arte em si. Multidões logo se formaram, com os participantes da feira fazendo fila para ver a instalação viral.

Já nas redes sociais, podemos ver comentários mais acalorados, que vão desde “Cattelan é um hipócrita que está se beneficiando do próprio mercado de arte que ele mesmo critica”. Ou algo como “guerras, aquecimento global, fome e o chinês paga 5 milhões em uma banana”.

Em entrevistas dadas desde a instalação de Miami, Cattelan descreveu “Comedian” como uma obra de comentário. Falando ao Art Newspaper em 2021, ele disse que Comedian “não era uma piada”, chamando a instalação viral de “uma reflexão sobre o que valorizamos”.

A venda de Comedian por US$ 5,2 milhões é um lembrete provocativo de como a arte contemporânea pode ultrapassar os limites das convenções e desafiar nossas percepções de valor e significado. Enquanto críticos e entusiastas discutem se a obra é uma sátira genial ou uma simples provocação, o impacto cultural e o alcance global de uma simples banana presa por fita adesiva são inegáveis. Ao transformar o comum no extraordinário, Cattelan não apenas expõe as contradições do mercado de arte, mas também nos convida a refletir sobre os valores e narrativas que atribuímos àquilo que chamamos de arte. Seja aplaudido ou criticado, Comedian cumpriu seu papel: fazer o mundo falar.

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Thais de Albuquerque

Thais de Albuquerque é Relações Públicas, artista visual e criadora de conteúdo. Atua há mais de 15 anos em marketing e criação de identidade visual para empresas, projetos e instituições. Em seu Instagram, desenvolve conteúdos autorais ligados a curiosidades sobre o mundo das artes.

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