Antoon VAN DYCK (1599-1641) DETALHE: Rainha Henrietta Maria da Inglaterra, s/d. Óleo sobre tela, 119 x 98. Bayerische Staatsgemäldesammlungen - Alte Pinakothek, Munique, Alemanha. Disponível em: https://www.sammlung.pinakothek.de/en/bookmark/artwork/5RGQeJapGz Acesso em 02 nov. 2019.
Vinte e dois anos mais novo que RUBENS1, independente e criativo, Antoon van Dyck, conhecido também por Sir Anthony VAN DYCK (1599-1641) já estava registrado por volta de 1618, como pintor de retratos, na Guilda de Saint Luke2, na Antuérpia.
“Anthony van Dyck foi essa raridade entre pintores, um menino-prodígio. Antes dos vinte anos”, já se tornara um dos mais importantes e preferidos da oficina de Rubens. (JANSON, 1992, p. 523).
Por volta de 1620, ainda no estúdio de Rubens, van Dyck viajou para a Inglaterra. Ali conheceu famosos colecionadores, ligados à corte, para os quais pintou e com os quais teve a oportunidade de ver as obras de TICIANO3 e VERONESE4, que o marcaram definitivamente, na dissolução das linhas com o ambiente de fundo e na aplicação das cores e tons venezianos. No final de 1621 foi para a Itália, onde permaneceu por seis anos, estudando os mestres italianos e pintando para a aristocracia romana e genovesa, desenvolvendo um estilo de retrato de corpo inteiro.
De volta para a Antuérpia, criterioso, com grande clientela e extremamente produtivo, van Dyck desenvolveu e renovou a técnica de representação de retratos refinados e aristocráticos, combinando o que tinha visto em Ticiano, Veronese e Rubens.
Em Haia, por volta de 1631-1632, van Dyck trabalhou para o Príncipe de Orange5 e seus descendentes. No mesmo ano, em Londres, na Inglaterra foi nomeado pintor da corte de Carlos I6 e sua esposa, a rainha Henrietta Maria, passando a receber um salário anual.
Os inúmeros retratos do rei e da rainha, bem como de membros de sua corte, influenciaram profundamente a percepção da história aristocrática durante o reinado de Carlos I e tornaram van Dyck um dos artistas mais requisitados na alta sociedade inglesa.
De acordo com Gombrich (2000) a esse artista de temperamento de prolongada tristeza, se deve o registro artístico da conduta desafiadora da elite social e o culto às maneiras e refinamento cortesão.
Os cabelos compridos, as enormes mangas bufantes, os sapatos forrados de veludo com salto alto, os tecidos de seda, damasco e cetim, as botas altas com as bordas viradas, os chapéus enfeitados, as meias de seda até a altura das calças abaixo dos joelhos, o arremate dos laços de fita, as grandes golas de renda caindo nos ombros, enfim, a moda do século XVII, assim como a elegância das poses aristocráticas, são apresentadas nas pinturas de van Dyck.
Até 1641, van Dyck transitou entre a Inglaterra e a Antuérpia, aumentando seu status artístico e social principalmente após a morte de Rubens. De tal forma que sua oficina de pintura compreendia, tal como a do antigo mestre, uma quantidade imensa de assistentes para dar conta das encomendas.
Gravemente doente, van Dyck voltou definitivamente para o lado da esposa e do filho recém-nascido, na Inglaterra, vindo a falecer logo depois.
Sejam nos retratos palacianos, nos temas religiosos ou mitológicos, van Dick soube, assim como Rubens, simbolizar o movimento do Barroco, nas composições em grande escala, na livre distribuição dos elementos no plano visual dentro da estrutura aberta, que excede os limites do quadro e leva o observador a fazer parte do tema e do cenário.
Van Dyck representa James Stuart, amigo de Carlos I, com a pose e indiferença típicas da nobreza. O retrato provavelmente foi executado para comemorar a investidura na Ordem da Liga, a mais elevada de Inglaterra sobre o cavalheirismo, recebido por James Stuart em 1633. A medalha recebida está presa no lenço de seda verde, embaixo do colarinho de renda, um acessório da época. O galgo carinhosamente encostado nos quadris é símbolo da lealdade e também representa o nobre passatempo das caçadas, comum no período.
A técnica de jogar os tons semelhantes e sequenciais na direita e esquerda, ora escura, ora brilhante, lembram muito o mestre Rubens.
Antoon van Dyck:
“criou uma nova tradição do retrato aristocrático que perdurou na Inglaterra até aos finais do século XVIII e teve uma influência considerável também no continente.” (JANSON, 1992, p. 525)
Pintura executada em 1641, na ocasião do casamento do Willem II (1626-1650), principe de Orange, com quinze anos, e a filha de Carlos I (1600-1649) a princesa Maria Henrietta Stuart (1631-1660) perto de completar dez anos.
A joia no peito de Maria foi um presente do príncipe, que veste um traje entregue por um alfaiate de Londres. A espada de ouro teria sido entregue por Carlos I. Provavelmente, Van Dyck já com a saúde debilitada iniciou o retrato durante a curta permanência do casal na Inglaterra, logo após a cerimônia do casamento.
Van Dyck soube como nenhum outro artista mostrar o estilo barroco palaciano, onde de acordo com Hauser (2003) a nobreza se reveste dos conceitos de moralidade romântico-cavaleiresca. Heroísmo e fidelidade, moderação e equilíbrio, generosidade e delicadeza são as virtudes que o nobre deve procurar e se orgulhar, pois fazem parte do mundo harmonioso e belo, que o rei e sua corte apresentam aos demais.
BAYERISCHE STAATSGEMÄLDESAMMLUNGEN – ALTE PINAKOTHEK,Munique, Alemanha. Disponível em: https://www.sammlung.pinakothek.de/en/bookmark/artwork/5RGQeJapGz Acesso em 02 nov. 2019.
GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: LTC, 2000. 714 p.
HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. Tradução Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 1032 p.
JANSON H. W. História da Arte. Tradução: J.A. Ferreira de Almeida; Maria Manuela Rocheta Santos. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 823 p.
RIJKSMUSEUM, Amsterdam, Holanda. Disponível em: URL: http://hdl.handle.net/10934/RM0001.COLLECT.8289 Acesso em: 23 set. 2019.
THE CLEVELAND MUSEUM OF ART, Cleveland, EUA. Disponível em: http://www.clevelandart.org/art/1923.1100 Acesso em: 01 out. 2019.
THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/436252 Acesso em: 23 set. 2019.
1 Na obra Barroca do artista flamengo, Peter Paul RUBENS (1577-1640), as alegorias, os episódios bíblicos, as cenas mitológicas, os eventos históricos, os retratos e as paisagens se destacam vivas e atuais, nas telas gigantescas. Famoso, no seu estúdio na Antuérpia, foram treinados inúmeros artistas.
2 Uma das mais importantes guildas formadas nos Países Baixos, a Guilda de Saint Luke foi fundada em Antuérpia no final do século XIV. A guilda representava diferentes atividades e o governo regulava o comércio, investindo no mestre, que se responsabilizava pelos aprendizes e pela venda das pinturas e gravuras ali produzidas. A guilda também protegia os membros contra as importações, controlando o mercado de arte, forjando conexões com autoridades cívicas e outras guildas.
3 Grande retratista, procurado por toda corte europeia, ricos e famosos, TICIANO Vecellio di Gregorio (1488/90-1576) conhecido, também, por Tiziano Vecellio é, talvez, o representante supremo da pintura veneziana. Com uma obra versátil, abrangendo temas religiosos, mitológicos e paisagísticos, com a aplicação de tons quentes e frios e do chiaroscuro. A dissolução das linhas com o ambiente de fundo influenciou os futuros artistas.
4 Maneirista, Paolo VERONESE (1528-1588) dominou a pintura veneziana ao lado do colega TINTORETTO (1518-1594) após a morte de Ticiano. O artista ficou conhecido pelas cenas de banquetes e costumes da vida opulenta dos palácios venezianos. A aplicação de cores fortes e os tons puros e luminosos marcaram a sua obra.
5 Frederico Henrique de Orange-Nassau (1584-1647) príncipe de Orange.
6 Rei da Inglaterra, Escócia e Irlanda, Carlos I (1600-1649) foi coroado em 1626 e morreu enforcado em 1649. Casado com Henrietta Maria (1609-1669) filha do rei Henrique IV (1553-1610) da França e Maria de Médici (1575-1642)
Legado artístico é algo que se constrói ao longo da vida de um artista, mas…
O Centro Cultural Candido Mendes, tradicional reduto de experimentação e vanguarda artística em Ipanema, no…
O artista visual, animador cultural e diretor de arte Raimundo Rodriguez apresenta a exposição “Grandes…
Há uma ironia de trajeto em André Mogle. Conhecido pelo pulso largo do grafite paulistano…
Benjamin Rothstein costuma dizer que carrega certo estranhamento em relação ao mundo. Aos 73 anos,…
No final dos anos 1980, quando frequentava as salas da Escola de Artes Visuais do…
View Comments
Toda forma de arte é surpreendente.