Curiosidades

10 obras de arte que viraram símbolos da cultura pop

As obras de arte, por muito tempo, estiveram associadas a museus, galerias, coleções particulares e a um público específico. Mas algumas imagens ultrapassaram esses espaços e passaram a fazer parte da vida cotidiana. Hoje, elas aparecem em camisetas, cartazes, filmes, videoclipes, memes, campanhas publicitárias e produtos dos mais diversos tipos.

“Mona Lisa”, de Leonardo da Vinci, “A Grande Onda de Kanagawa”, de Hokusai, e “A Noite Estrelada”, de Van Gogh são exemplos de obras reconhecíveis mesmo quem nunca visitou um museu provavelmente.

Esse processo aconteceu – e continua acontecendo – por diferentes formas de reprodução e circulação. A impressão em larga escala, a publicidade, o mercado de produtos licenciados, a moda e, mais recentemente, a internet ajudaram a transformar determinadas obras em referências visuais compartilhadas por públicos muito maiores do que aqueles que frequentam instituições culturais.

Mais do que reunir algumas das obras mais famosas da história da arte, esta seleção olha para aquelas imagens que conseguiram ultrapassar o circuito artístico e ganhar uma segunda vida na cultura popular.

1. Mona Lisa — Leonardo da Vinci

Poucas imagens atravessaram tantos séculos e chegaram tão facilmente ao cotidiano quanto a Mona Lisa. Pintado por Leonardo da Vinci no início do século XVI, o retrato tornou-se uma das obras mais reconhecidas da história da arte e também uma das mais reproduzidas.

Mona Lisa, de Leonardo da Vinci

A imagem aparece em objetos, roupas, publicidade, paródias e inúmeras releituras. O próprio Museu do Louvre comercializa reproduções da obra em diferentes formatos, incluindo impressões fine art, telas e painéis. A personagem retratada por Leonardo deixou de ser apenas um retrato renascentista e passou a fazer parte do imaginário visual global.

2. Frida Kahlo — os autorretratos

A popularização de Frida Kahlo está ligada não apenas à força de seus autorretratos, mas também à preservação e à gestão de seu legado. Após sua morte, em 1954, a Casa Azul foi transformada em museu, preservando obras, objetos pessoais, roupas e documentos que ajudaram a consolidar a imagem pública da artista.

Décadas depois, a gestão de seus direitos de propriedade intelectual aproximou ainda mais Frida do mercado. Em 2004, foi criada a Frida Kahlo Corporation, responsável por administrar e licenciar direitos relacionados ao nome e à imagem da artista, transformando elementos como suas sobrancelhas, flores e roupas em uma identidade visual reconhecível mundialmente.

Frida Kahlo

O caso mostra como a construção de um ícone cultural pode envolver não apenas a obra, mas também a preservação, a gestão de direitos e o licenciamento de sua imagem. Hoje, Frida é reconhecida muito além de seus autorretratos e circula em produtos e contextos que ultrapassam o circuito artístico.

3. A Grande Onda de Kanagawa — Katsushika Hokusai

Uma onda prestes a engolir pequenos barcos, com o Monte Fuji ao fundo. Mesmo sem saber o nome de Hokusai, muita gente reconhece imediatamente essa imagem. Under the Wave off Kanagawa, conhecida como A Grande Onda, foi produzida por Katsushika Hokusai por volta de 1830–32 como parte da série Trinta e seis vistas do Monte Fuji. O Metropolitan Museum of Art a define como um ícone global, associado não apenas a Hokusai, mas à própria arte japonesa.

Sua influência ultrapassou rapidamente o Japão. A abertura do comércio entre Japão e Ocidente no século XIX contribuiu para a circulação das gravuras japonesas na Europa e para o chamado japonismo, influenciando artistas como Manet, Degas, Cassatt, Bonnard e Toulouse-Lautrec. A imagem continuou circulando em diferentes linguagens. Um exemplo curioso é La Mer, de Claude Debussy: a primeira edição da partitura, publicada em 1905, usou um detalhe da Grande Onda na capa.

A Grande Onda de Kanagawa — Katsushika Hokusai

Hoje, a onda aparece também em roupas, acessórios, objetos e inúmeras releituras. O próprio Metropolitan Museum comercializa produtos inspirados na obra, mostrando como uma gravura do período Edo pode continuar funcionando como imagem contemporânea.

4. O Grito — Edvard Munch

Poucas imagens traduzem uma emoção de maneira tão imediatamente reconhecível quanto O Grito. A figura com a boca aberta e as mãos próximas ao rosto tornou-se uma espécie de código visual para representar medo, desespero, surpresa ou simplesmente uma situação levada ao extremo. Criada por Edvard Munch em diferentes versões entre 1893 e 1910, a obra ultrapassou há muito o contexto do expressionismo e da produção do artista. Sua imagem foi reproduzida, parodiada e adaptada inúmeras vezes pela cultura popular.

É justamente essa facilidade de reconhecimento que explica parte de sua força fora dos museus. Basta alterar a situação, o personagem ou o contexto para que a referência seja compreendida. A figura de Munch tornou-se, assim, uma espécie de vocabulário visual compartilhado.

O Grito — Edvard Munch

Nesse processo, O Grito deixou de representar apenas a angústia existencial presente na obra de Munch. Sua imagem passou a ser utilizada para comunicar uma ideia de desespero de maneira rápida e universal, inclusive em publicidade, quadrinhos, cinema e na internet, inclusive em emojis!

5. Campbell’s Soup Cans — Andy Warhol

Se existe um artista cuja produção já nasceu em diálogo direto com a cultura de massa, é Andy Warhol. Em 1962, ele apresentou na Ferus Gallery, em Los Angeles, as 32 pinturas de Campbell’s Soup Cans, cada uma representando uma variedade diferente de sopa. As pinturas reproduziam deliberadamente a aparência uniforme das embalagens comerciais. Warhol transformou um produto encontrado no supermercado em assunto de arte e colocou em discussão justamente a relação entre consumo, reprodução e imagem. Décadas depois, a obra continua seguindo uma trajetória curiosamente coerente com essa proposta.

A imagem de Campbell’s Soup aparece hoje em produtos, roupas e campanhas, dentro de um amplo programa de licenciamento ligado ao legado do artista. A Andy Warhol Foundation mantém os direitos sobre suas obras e desenvolve parcerias comerciais com marcas de moda, alimentação e outros setores.

Campbell’s Soup Cans — Andy Warhol

É um caso particularmente interessante porque a reprodução comercial não aconteceu apenas depois da obra se tornar famosa. A própria lógica da produção em massa fazia parte do assunto de Warhol. A imagem da lata, portanto, continua circulando justamente no território entre arte, publicidade, consumo e cultura popular que o artista explorou.

6. Tarsila do Amaral — da arte modernista ao licenciamento

Imagens como Abaporu, A Cuca e Antropofagia ultrapassaram o circuito dos museus e se tornaram parte do imaginário visual brasileiro. Suas formas e personagens aparecem em produtos, materiais educativos, exposições imersivas e diferentes projetos culturais, fazendo com que a obra de Tarsila alcance públicos que nem sempre têm contato direto com a arte modernista.

Essa circulação também envolve uma estrutura de gestão do legado da artista. A Tarsila do Amaral S.A. atua na administração de direitos relacionados à obra e à imagem da pintora, autorizando licenciamentos e parcerias.

Tarsila do Amaral

O caso de Tarsila mostra como o licenciamento pode funcionar como uma ferramenta de difusão da arte e, ao mesmo tempo, de gestão de um patrimônio artístico. Ao levar imagens originalmente criadas no contexto do modernismo brasileiro para outros produtos e linguagens, esse modelo contribui para manter a obra da artista em circulação e ampliar seu alcance cultural.

7. Comedian — Maurizio Cattelan

Em 2019, uma banana presa a uma parede com fita adesiva se tornou uma das imagens mais comentadas do mundo da arte. Comedian, do italiano Maurizio Cattelan, foi apresentada na Art Basel Miami Beach e rapidamente deixou o espaço da feira para circular em jornais, redes sociais, memes e debates sobre o que pode ser considerado uma obra de arte.

A peça era literalmente uma banana presa à parede com fita adesiva. Mas, no caso de Cattelan, o objeto físico não era o único elemento da obra. O trabalho foi produzido em edição limitada e acompanhado por um certificado de autenticidade, diagramas e instruções para sua instalação. A banana poderia ser substituída, mantendo-se a obra de acordo com as especificações estabelecidas pelo artista.

Duas edições foram vendidas na Art Basel por US$ 120 mil cada, enquanto a terceira acabou sendo destinada à coleção do Guggenheim. A repercussão aumentou ainda mais quando o artista David Datuna retirou uma das bananas da parede e a comeu diante do público, transformando o episódio em sua própria performance, Hungry Artist. A galeria simplesmente substituiu a fruta.

A história poderia ter terminado ali, como uma das muitas controvérsias do mercado de arte contemporânea. Mas Comedian continuou circulando. Em 2024, uma das edições foi leiloada pela Sotheby’s por US$ 5,2 milhões, chegando a US$ 6,2 milhões com taxas. Pouco depois, o comprador, Justin Sun, comeu a banana durante um evento e voltou a colocar a obra no centro da cultura pop.

Comedian — Maurizio Cattelan

É justamente essa capacidade de provocar reação e circular fora do espaço expositivo que torna Comedian um exemplo interessante para esta seleção. A banana virou fotografia, manchete, meme e assunto de discussão muito antes de muita gente conhecer outras obras de Cattelan. Nesse caso, a obra não precisou ser reproduzida em milhares de produtos para escapar do circuito artístico: a própria história em torno dela se transformou em fenômeno cultural.

8. A Criação de Adão — Michelangelo

Mesmo quem não sabe identificar Michelangelo provavelmente já viu duas mãos quase se tocando. O detalhe central de A Criação de Adão, pintado no teto da Capela Sistina, tornou-se uma das imagens mais reproduzidas da arte ocidental. A cena representa o momento em que Deus dá vida a Adão, com os dedos das duas figuras separados por um pequeno espaço. O próprio Vaticano continua utilizando essa imagem como referência visual e teológica para falar da obra.

A Criação de Adão — Michelangelo

Fora da Capela Sistina, porém, as duas mãos ganharam uma vida independente. Elas aparecem em capas de livros, campanhas, camisetas, tatuagens, memes, ilustrações e inúmeras releituras.

É um exemplo de como um detalhe pode se tornar mais reconhecível do que a composição inteira. Para muita gente, basta mostrar as duas mãos para que a referência a Michelangelo seja imediatamente compreendida.

9. Flower Thrower — Banksy

Em 2003, Banksy criou uma de suas imagens mais conhecidas: um manifestante de costas, com o rosto coberto, aparentemente prestes a lançar um objeto. Em vez de uma pedra ou um coquetel molotov, ele segura um buquê de flores. Conhecida como Love is in the Air ou Flower Thrower, a imagem tornou-se uma das representações mais reconhecíveis da linguagem de Banksy e passou a aparecer em inúmeros produtos e reproduções.

Mas aqui existe uma questão diferente das anteriores: quem pode usar uma imagem de um artista que mantém sua identidade em segredo?

A anonimidade de Banksy não significa que suas obras estejam livres de direitos autorais. Pelo contrário, o artista já entrou em disputas relacionadas ao uso comercial de suas imagens. Em 2022, por exemplo, a marca GUESS utilizou o Flower Thrower em uma coleção e em uma vitrine de sua loja em Londres, em uma ação associada à empresa Brandalised. O uso não havia sido autorizado por Banksy, segundo o processo judicial posteriormente analisado pela Justiça britânica.

O caso ajuda a entender uma contradição da própria circulação da obra de Banksy: suas imagens são imediatamente reconhecidas e reproduzidas pela cultura popular, mas isso não significa que qualquer reprodução comercial esteja autorizada.

10. A Noite Estrelada — Vincent van Gogh

A história de A Noite Estrelada também passa pela forma como o legado de Van Gogh foi preservado e divulgado depois de sua morte. Nesse processo, sua cunhada Johanna van Gogh-Bonger teve um papel fundamental: após a morte de Theo, em 1891, ela ficou responsável pelas obras e cartas de Vincent e trabalhou para ampliar a circulação de sua produção.

Neste podcast explicamos toda essa história: Lições de Jo Van Gogh sobre como construir a fama de um artista

A Noite Estrelada — Vincent van Gogh

Jo organizou exposições, realizou vendas estratégicas e ajudou a divulgar a correspondência de Van Gogh, contribuindo para a construção de sua reputação entre o público e o mercado de arte. Seu trabalho foi essencial para que a produção do artista não permanecesse restrita ao acervo familiar.

Hoje, A Noite Estrelada é uma das imagens mais reconhecidas da história da arte e aparece em produtos, roupas, objetos e inúmeras reproduções. Sua trajetória mostra como a preservação e a gestão de um legado podem influenciar profundamente a permanência de um artista no imaginário cultural.

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Thais de Albuquerque

Thais de Albuquerque é Relações Públicas, artista visual e criadora de conteúdo. Atua há mais de 15 anos em marketing e criação de identidade visual para empresas, projetos e instituições. Em seu Instagram, desenvolve conteúdos autorais ligados a curiosidades sobre o mundo das artes.

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