ArPa 2026: uma personalidade cada vez mais definida
Por Érica Varella | Consultoria e Produção de Arte
Sempre que visito uma feira de arte, meu percurso costuma ser um pouco diferente do da maioria das pessoas.
Claro que as obras são o principal motivo para estar ali. Mas meu olhar também se detém nos detalhes: a montagem dos estandes, a escolha das cores, a iluminação, os acabamentos e a relação entre as obras e o espaço. Talvez seja um vício profissional. Como produtora e consultora de arte, gosto de entender não apenas o que está sendo apresentado, mas como aquilo está sendo apresentado.
Por isso, uma das coisas que mais aprecio na ArPa é justamente seu tamanho.
Por ser uma feira mais enxuta, ela permite algo que vem se tornando raro em grandes eventos: a possibilidade de realmente ver tudo. Sem correria. Sem a sensação constante de que há um corredor inteiro ainda por percorrer. É possível voltar aos estandes, rever uma obra, conversar com galeristas, encontrar artistas e, muitas vezes, mudar completamente a percepção sobre um trabalho.
Foi exatamente o que aconteceu comigo nesta edição.
Retornei a alguns estandes mais de uma vez. Não porque fossem necessariamente os mais chamativos, mas porque algo diferente surgia a cada visita.
Obras em Destaque
A Almeida & Dale foi um desses casos. A aproximação entre Alex Červený e Joseca Yanomami me chamou atenção. Apesar de partirem de referências muito diferentes, havia pontos de encontro que apareciam aos poucos para quem dedicava mais tempo ao estande.

Entre os projetos que mais me marcaram, o da Pinakotheke certamente ocupa um lugar especial.
Antes mesmo de me aproximar das obras de Farnese de Andrade, uma das primeiras coisas que chamou minha atenção foi o azul das paredes. Pode parecer um detalhe pequeno, mas não era. O tom valorizava as obras e tornava o espaço especialmente agradável de percorrer, sem competir com os trabalhos. Como alguém que trabalha com exposições, sei o quanto escolhas aparentemente simples podem transformar a experiência do visitante.
Conversei com Max Perlingeiro e ficou evidente o orgulho que sentia pelo resultado. E com razão.
Quando me aproximei das obras de Farnese, senti um impacto difícil de explicar. As caixas, os objetos encontrados, os fragmentos de memória, a religiosidade e a vulnerabilidade humana em seu trabalho criavam uma atmosfera quase hipnótica. Entre todas as obras, a que mais gostei foi Natureza Morta.

Na Galeria 18, uma conversa com a artista Karen de Picciotto transformou completamente minha leitura das obras.
Ela utiliza tinta esmalte e ventiladores para espalhar a tinta sobre objetos, permitindo que o próprio material participe da construção da obra. A pintura dos objetos e das telas acontece simultaneamente. Karen contou que a tinta pode secar externamente enquanto permanece líquida internamente por muito tempo.
Foi interessante perceber que aquilo que eu observava como resultado era, na verdade, apenas uma etapa de um processo ainda em curso.

Essa ideia do tempo também apareceu no estande da Fortes D’Aloia & Gabriel, com a produção de Rodrigo Matheus.
Muitas vezes vemos obras em catálogos, redes sociais ou matérias de imprensa e acreditamos já conhecê-las. Mas algumas simplesmente não cabem em uma fotografia.
Foi o caso de Antes do Presente.
Ver de perto a maneira como Rodrigo Matheus trabalhou espículas de aço e cabelo sintético foi muito diferente do que eu imaginava. A delicadeza dos detalhes, o contraste entre a rigidez do metal e a leveza dos fios, e a forma como a obra ocupava o espaço revelavam uma riqueza que só se torna perceptível diante dela.

As obras abstratas de André Griffo, apresentadas pela Nara Roesler, também chamaram muito a minha atenção pela maneira como transformam espaços e paisagens em imagens abertas à interpretação. Em vez de apresentar cenas povoadas por personagens ou narrativas evidentes, o artista cria grandes cenários vazios, nos quais manchas de cor, pinceladas e texturas assumem protagonismo. Mesmo sem elementos reconhecíveis, suas pinturas carregam referências à história, à arquitetura e à memória, permitindo que cada um construa suas próprias leituras.

Na Lume, minha escolhida foi uma fotografia de Julio Bittencourt da série sobre o edifício Prestes Maia. De longe, parece apenas uma fachada. Mas, à medida que nos aproximamos, surgem dezenas de histórias acontecendo simultaneamente. Quanto mais tempo eu observava, mais personagens e situações apareciam. Os tons escuros reforçam a dureza da arquitetura e fazem com que cada janela iluminada ganhe ainda mais presença, como pequenas cenas humanas recortadas pela escuridão do edifício.

Na Matias Brotas, a produção de Artur Arnold também me fez permanecer mais tempo diante das obras. À primeira vista, as pinturas parecem quase abstratas. Aos poucos, começam a surgir indícios de uma multidão: corpos, deslocamentos e presenças que aparecem e desaparecem entre camadas espessas de matéria. A talagarça aparente, os acúmulos de argamassa pigmentada e as pinceladas amplas fazem com que a textura tenha tanta importância quanto a própria imagem.
Em seu trabalho, Artur Arnold cria cenas em que as figuras se dissolvem no conjunto, sem contornos claramente definidos. O resultado são pinturas que sugerem encontros, deslocamentos e a experiência de estar entre muitas pessoas, sem que nenhuma delas assuma o protagonismo.

Naturalmente, nem todos os projetos me impactaram da mesma forma.
E talvez essa seja uma das maiores qualidades da ArPa.
A feira não parece interessada em produzir consensos. Em vez disso, cria espaço para percursos individuais. Alguns trabalhos muito comentados ao longo da semana não foram necessariamente os que mais me mobilizaram. Outros, mais discretos, continuaram retornando à memória dias depois da visita.
As obras de Farnese de Andrade, Rodrigo Matheus, Alex Červený e André Griffo foram minhas escolhas. Não porque fossem os mais espetaculares da feira, mas porque prenderam mais a minha atenção.
Talvez seja justamente aí que esteja a força da ArPa.
Cinco anos depois de sua criação, a feira parece ter encontrado uma personalidade própria. Em vez de tentar acompanhar todas as tendências do mercado ou competir pela escala, segue apostando na qualidade dos projetos, na experiência de visita e na possibilidade de olhar com calma.
Talvez seja exatamente isso que a torne tão necessária.

