As mulheres no Art Battle Brasil

Você sabe o que é Art Battle?

Para os todos os curiosos de plantão explico que,  Art Battle, em português Batalha Artística, é  um evento internacional que tem como base  uma competição de pintura ao vivo.

Buscando entender melhor como originou este evento, descobri que Chris Pemberton e Simon Plashkes, dois canadenses, que valem muito a pena serem pesquisados (#ficaadica), foram os fundadores originários deste projeto, e que  o conduziram por cinco edições no Canadá.

O primeiro evento aconteceu em 2000 no Great Hall em Toronto, com uma participação mínima de 70 pessoas, porém em sua 8º edição já contavam com número próximo a 300 participantes. Cabe salientar que, a Batalha Artística tem suas raízes nas ruas, em duelos de   graffiti no Brooklyn e Manhattan, mas este é um assunto para uma outra matéria, prometo destinar uma matéria sobre este assunto, mas por hora vamos focar na trajetória do Art Battle no mundo…

Com o tempo este evento foi expandindo mais até atingir 50 cidades em todo o mundo, entre elas estão, Nova York, Varsóvia, Amsterdã, Madri, Paris, Tóquio, Rio de Janeiro, Montreal, Los Angeles , Vancouver e São Paulo.

Estruturalmente o Art Battle é um evento que combina música, bebidas e pintura competitiva ao vivo com o objetivo de promover a arte, permitindo que o público veja como ela é feita, e acima disso, existe o intuito de  revigorar e expor o processo artístico a um público mais amplo.

 

                     Art Battle disputa Rio de Janeiro – créditos Clarissa Piveta

 

As regras do campeonato são simples:  haverá três rodadas. Em cada rodada, quatro artistas serão selecionados aleatoriamente sorteando nomes em um chapéu. Esses artistas receberão uma tela e a mesma quantidade e cores de tinta acrílica. Eles terão 20 minutos para fazer uma obra de arte à medida que a música toca, o fluxo de bebidas exala no ar  e a multidão observa suas técnicas e debate os méritos de suas criações.

No final de cada rodada, o público vota em um favorito, e uma vez que o vencedor é declarado, as pinturas são vendidas em um leilão  No final da noite, se as pinturas não encontrarem uma oferta mínima, elas são destruídas, para o prazer da platéia. Curioso, não?

Em contato com a produção do Art Battle Brasil Oficial, conversamos com Leiah Kimura, que  nos informou que a empresa que organiza o evento aqui no Brasil não é a mesma do Canadá, ,mas que mantém a mesma proposta e estrutura do evento original.

Gentilmente Leiah Kimura ainda nos explicou de que forma o evento é conduzido aqui no Brasil:

Uma experiência diferente e interativa para o público e uma grande oportunidade para novos e relevantes artistas plásticos do cenário brasileiro. Esta é uma das formas de apresentar o Art Battle Brasil, versão nacional do maior circuito de live painting competitivo do mundo.
São 2 rounds de 8 artistas que competem contra o tempo de 20 minutos para produzir uma obra na frente do público que vota e escolhe os dois artistas com o qual mais se identificou. Os 4 artistas batalham novamente contra o tempo em uma emocionante final. O ganhador da noite leva para casa um troféu da edição, a possibilidade de pintar na grande final do ano e uma experiência incrível compartilhada com outros artistas.”

 

Apresentado todo o processo que estrutura o Art Battle e de  como o campeonato é conduzido aqui no Brasil, o ArteRef foi buscar entender como esta batalha  artística serve de palco para a exposição de trabalhos conduzidos por mulheres. Fomos   conversar com 3 campeãs do Art Battle aqui no Brasil, a fim de conhecer melhor o histórico de cada uma delas e entender este desafio sob a ótica feminina .

MILENNA SARAIVA

 

                                                           Milenna Saraiva – créditos @aestercarolina

Nascida na cidade de São Paulo Milenna Saraiva vem representando as mulheres no Art Battle com  muito louvor!

Formada em Artes Plásticas pelo Santa Monica College, no Estado da Califórnia, no ano de 2004, assim que encerra sua graduação Milenna Saraiva recebe o convite de honra para fazer parte do programa de especialização em pintura The Mentor Program, e diante deste novo cenário tem a  oportunidade de estudar com renomados artistas e professores como Linda Lopes, Nathan Otta, Mark Trujillo, Ron Davis e Sharon Kagan, e ao retornar ao Brasil, em 2012,  pós-gradua-se em Pintura Contemporânea na FAAP (Fundação Armando Alvarez Penteado).

Atualmente é representada pela The Peach Gallery em Toronto, pela Casa Galeria em São Paulo e pela Galerie Carré des Artists na França. Milenna tem buscado exibir seus trabalhos em diversas mostras coletivas e individuais, em galerias e museus pelos Estados Unidos, Canadá e Brasil. Entre elas estão: The Los Angeles Municipal Art Gallery, o Katsen Museum em Washington DC, o The Bergamont Station em Santa Monica, a The Peach Gallery em Toronto e a Casa Galeria em São Paulo. E  desde 2013 escreve  uma coluna mensal sobre arte chamada Arte Observada, para a Revista Circuito.

Bom, com este currículo de peso conseguimos entender minimamente  porquê Milenna Saraiva atingiu o pódio nacional como Bi Campeã do Art Battle Brasil.

Concedendo gentilmente uma entrevista ao Arteref, Milenna Saraiva nos conta um pouco mais sobre sua trajetória profissional e como vem sendo sua experiência no Art Battle Brasil.

Segue a entrevista:

Arteref: Milenna, queremos saber um pouco mais sobre seu desenvolvimento profissional e acadêmico. Como fluiu este processo de construção pessoal e profissional?

MILENNA SARAIVA: Nos mais de 10 anos trabalhando como artista profissional, minha técnica evoluiu do tradicional para o meu estilo atual, muito mais solto e expressivo. Apesar de ter a experimentação como parte fundamental de meu processo artístico, minha paixão sempre se encontrou perto de uma tela. Escolhi como principal forma de expressão a pintura. Em meu mais recente conjunto de obras exploro conceitos relacionados à construção e destruição da Identidade — um processo que tenta reconsiderar as convenções da pintura figurativa através de uma contínua busca à abstração. Meu objetivo não é capturar a aparência externa de uma pessoa, mas sim criar um portal para uma viagem interna de exploração própria. Para isso ela conto principalmente com um método fluido de pintar, usando principalmente a memória e a imaginação.”

Arteref: Nos conte quais foram suas grandes inspirações que te estimularam a ingressar no mundo das Artes.

MILENNA SARAIVA: Não sei bem dizer o que me fez escolher ser artista. Na verdade não acho que escolhemos…a arte nos escolhe. Sempre soube que seria artista plástica. Desde pequena desenho, pinto e crio sem parar. “

Arteref: Certo, agora nos conte sobre sua referências artísticas no Brasil e no mundo.

MILENNA SARAIVA:No Brasil minhas principais referências vêm do Movimento Modernista. Nem tanto pela estética mas pelos objetivos de romper com os padrões antigos. Os artistas modernos buscaram constantemente novas formas de expressão e, para isto, utilizam recursos como cores vivas, figuras deformadas, cubos e cenas sem lógica. entre eles estão Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Di Cavalcanti e  Victor Brecheret. No mundo, sempre admirei artistas e o movimento artístico britânico. Isso desde mestres como Francis Bacon e Lucian Freud quanto novos artistas de lá. A arte que vêm de lá é cheia de movimento e liberdade, algo que busco sempre incluir mais em minhas obras. “

Arteref: Como conheceu o Art Battle, e como encontrou no campeonato? A experiência foi positiva em aspectos gerais?

MILENNA SARAIVA: O Art Battle me encontrou no Facebook em 2015. Eles se apresentaram através da plataforma e me convidaram para participar do evento. Eu na hora disse “não obrigada” (risos). Esta resposta veio porque eu nunca tinha pintado ao vivo para uma grande platéia e principalmente nunca em 20 minutos. Mas eles insistiram e acabaram me convencendo. Me apaixonei pelo campeonato logo em minha primeira participação. Acho que a adrenalina de pintar ao vivo me viciou. Se não me engano, na minha primeira vez não venci por alguns votos.  Isso me motivou a voltar e pintar novamente. O resto é história. Já ganhei várias etapas e sou atualmente bi campeã nacional (2016 e 2017). Então acredito que a experiência foi bem positiva. O Art battle é um evento único e muito importante para o Brasil e para o mundo. Ele se tornou uma plataforma para a arte contemporânea e emergente. Ele traz a arte para as pessoas. “

 

                     Milenna Saraiva – créditos @aestercarolina

 

Arteref:Dentro do Art Battle você sentiu alguma rejeição ou preconceito em razão do seu gênero?

MILENNA SARAIVA: Não senti nenhum preconceito. O que observei é que o número de artistas mulheres na competição é bem menor que o de homens. Mas isso já vem de muito tempo. A participação das mulheres nas artes sofreu a poda do machismo desde seus primórdios. O que vemos hoje é, ainda, um reflexo disso.

                                                   Milenna Saraiva – créditos @aestercarolina

Arteref: Agora sobre a batalha real que a vida nos dá todos os dias para nos desenvolvermos profissionalmente. Como sente o atual cenário artístico para as mulheres em São Paulo?  Há maiores possibilidades e aberturas?

MILENNA SARAIVA: As grandes cidades, como São Paulo, sempre vão ser lugares mais abertos e progressistas. O problema é fora delas. Eu acho que SP é uma ótima cidade para artistas mulheres e homens.

Arteref: Como mulher e artista, de que maneira você projeta deixar seu legado e inspiração para quem está agora se inserindo no mundo artístico?

MILENNA SARAIVA: Eu espero que através da minha obra vejam que, independente de gênero, o importante mesmo é trabalhar muito e praticar muito a sua arte. Estudar muito para sempre estar evoluindo. A sociedade nada mais é do que um molde genérico. O importante é o que temos dentro de nós. A força para sermos quem quisermos e como quisermos ser está dentro de nós, não fora.

 

                                                            Milenna Saraiva – créditos @aestercarolina

 

Arteref: Nos deixe suas considerações finais

MILENNA SARAIVA: Todo preconceito vem do medo. O machismo, o racismo e o homofobismo sempre vão existir pela falta de informação e pelo medo do incomum. Mas vivemos em um momento muito interessante onde estes pré conceitos estão sendo questionados e derrubados. A participação das mulheres no mundo das artes (e fora dele) é crescente. Eu acredito no lado bom da humanidade e acredito que a igualdade de gênero será uma realidade um dia. “

Descobrimos que Milenna não está sozinha nesta batalha artística; existem mais duas jovens mulheres que completam este time.  Estamos falando de Juliana Nersessian e Carolina Lopes Barbosa que no Art Battle disputam de forma isolada, mas na vida trabalham em conjunto num projeto lindo chamado “ Lanó ”, que se traduz como um encontro fluido das inspirações das duas artistas e que é executado através de quatro mãos, como elas mesmas definem.

 

                                                           Lopes Barbosa e Juliana Nersessian – créditos @aestercarolina

 

Suas influências  e inspirações circundam por Egon Schiele, Gustav Klimt, Toulouse Lautrec, Harry Clark, Gabriel Moreno, Agnes Cecile, Vania Zouravliov, Renan Santos, Ryan Woodward, Glen Keane, Claire Keane e Bobby Chiu, Paula Bonet, Sara Golish e Lauren Brevnet. influenciam muito, como Gustav Klimt, Toulouse Lautrec e Sergio Toppi.

Despertando nossa curiosidade, o Arteref buscou saber como foi a experiência de cada uma delas no Art Battle Brasil. Confiram:

CAROLINA LOPES BARBOSA

 

Carolina Lopes Barbosa @aestercarolina

 

Eu descobri o Art Battle pelo Facebook logo que ele lançou aqui em SP. Fui com um amigo que se inscreveu e participou. Achei muito divertido e resolvi me inscrever também, mas demorei um pouco para criar coragem pois a ideia de pintar em tão pouco tempo me deixava bem nervosa! Fui participar pela primeira vez só em julho de 2016, minha primeira batalha e a primeira vez que ganhei no evento. Depois disso fiquei apaixonada e participo sempre que posso. É uma experiência muito legal para conhecer outros artistas e também se desafiar, sair da zona de conforto sabe?!”

Carolina Lopes Barbosa @aestercarolina

A maior parte dos artista que participavam do evento, principalmente no começo eram homens, e não por alguma decisão da organização, e sim porque os inscritos eram na maioria homens mesmo. Ainda é mais comum ver mais homens no meio artístico do que mulheres, e o que sempre achei legal é que os organizadores sempre tiveram esse interesse em ter cada vez mais mulheres no palco, e foram atrás disso. Nunca me senti prejudicada por ser mulher no Art Battle, inclusive acho que o público gosta muito de ver mulheres pintando, por não ser tão normal, então sinto uma receptividade muito grande. Hoje, a medida que o evento cresce, vejo mais mulheres se inscrevendo e participando. Acho que estamos cada vez sendo mais representadas e consequentemente nos sentindo mais confortáveis para assumir o papel de artistas. E isso não só no Art Battle.”

 

 

JULIANA NERSESSIAN

 

Juliana Nersessian – créditos Clarissa Pivetta

 

“Conheci o Art Battle através de um amigo que já participava. Fui algumas vezes assistir o evento e nunca me imaginei participando. Até que uma vez, resolvi me inscrever para a seleção e acabei passando. Desde então, já participei algumas vezes, e é uma experiência muito positiva, uma forma de nos aproximar do público que gosta do nosso trabalho, alcançar um público novo, ter contato com os outros participantes e seus trabalhos, e até se conhecer melhor enquanto artista.

Sempre trabalho em dupla com a Carolina, mas devido às regras do evento isso não é possível. É sempre um pouco estranho estar lá pintando sozinha, mas no fim acabamos nos acostumando. “

 

Juliana Nersessian – créditos Clarissa Pivetta

“Nunca senti que fui vítima de algum preconceito em razão de gênero no evento, pelo menos nunca houve uma situação em que vi ou ouvi algo que me diminuísse. Acho que muitas vezes as pessoas podem achar muito diferente e legal ver mulheres fazendo um trabalho de arte em uma competição, em cima de um palco para todo mundo ver, isso pode ser um espanto que é fruto de um preconceito enfrentado por mulheres há um tempo atrás, que fez com que nesta área não houvesse tantas mulheres. Mas quando vejo este espanto nas pessoas não encaro como preconceito e sim como alguém percebendo que as coisas estão diferentes do que ela estava acostumada a ver.”

 

Juliana Nersessian – créditos Clarissa Pivetta

 

“ Acho que hoje em dia estamos vendo bastante abertura para as mulheres no meio da arte. Cada vez mais vemos mostras só de artistas mulheres. É importante que a mulher deixe de ser apenas um tema para obras de artes criadas por homens e tenha seu espaço e visibilidade enquanto criadora também. Isso é algo a ser conquistado aos poucos e acho que tem acontecido.

Gostaram?

Esta é a penúltima matéria da série que homenageia a representatividade feminina no mundo das artes aqui no ArteRef. E antes de mudar de página, não deixem de compartilhar esta matéria com seus amigos e aproveitem para nos seguir nas redes sociais!

 

FONTES

http://viewthevibe.com

.http://artbattle.com

https://www.lano.art.br/

FOTOS

Todos os créditos das fotos cedidas por Milenna Saraiva são de @estercarolina.

Todos os créditos das fotos cedidas por Juliana Nersessian são de Clarissa Pivetta.

Todas os créditos das fotos cedidas por Carolina Lopes Barbosa  são de @estercarolina.

Foto da dupla Juliana e Carolina crédito de  @estercarolina.

 

 

 

Paula34 Posts

Amante das belezas da vida, Paula sempre está por dentro do que está acontecendo no cenário cultural na cidade de São Paulo. Bacharel em Ciências e Humanidades e Técnica em Gestão Pública com foco em políticas culturais, Paula vem colecionando uma bagagem de conhecimentos nas áreas de Gestão Cultural e Jornalismo Cultural. Hoje Trabalha no programa de incentivo cultural Pro-MAC da Prefeitura de São Paulo

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