Arte brasileira

Aos 140 anos de Tarsila do Amaral, o Brasil celebra sua continuada modernidade

Tarsila do Amaral nasceu em 1º de setembro de 1886. Neste ano, ela completaria 140 anos, e este está sendo, muito provavelmente, o ano em que seu nome mais ecoou com força desde a grande retrospectiva do MASP, em 2019. Talvez 2026 seja ano em que mais se falou sobre Tarsila no Brasil.

Não é coincidência. A projeção de Tarsila em 2026 foi construída intencionalmente. Foram anos de trabalho de gestão, curadoria e posicionamento do legado que convergiram para que este fosse o ano em que Tarsila estivesse representada em mais lugares do que em qualquer outro momento recente.

Quando diferentes iniciativas convergem no mesmo ano em torno de uma artista, com exposições tradicionais, uma exposição imersiva inédita, um musical de grande porte, pesquisas acadêmicas, novos projetos de acesso digital, algo está acontecendo que vai além da efeméride. O resultado é que, pela primeira vez em anos, Tarsila está chegando simultaneamente a públicos muito diferentes, em linguagens muito diferentes. E a pergunta que fica, enquanto acompanho tudo isso de dentro, é: o que fazemos com esse momento?

Começo pelo que está nos palcos.

Tarsila, a Brasileira, musical protagonizado e produzido por Claudia Raia, estreou em janeiro de 2024 no Teatro Santander, em São Paulo, e ficou em cartaz até maio daquele ano. Só nessa primeira temporada, mais de 140 mil pessoas assistiram ao espetáculo, número que, por si só, já diz algo sobre o que acontece quando Tarsila chega a um público que não costuma frequentar museus. A peça, com texto e letras de Anna Toledo e José Possi Neto, direção musical de Guilherme Terra, e Jarbas Homem de Mello no papel de Oswald de Andrade, não é uma biografia ilustrada. É uma leitura da vida de Tarsila. Conta a história de uma mulher que precisou travar suas próprias batalhas para que sua voz fosse ouvida. Quem conhece a trajetória dela reconhece cada camada. Quem não conhece, sai querendo saber mais.

No segundo semestre, a turnê percorre o Brasil: Rio de Janeiro nos dias 1 e 2 de agosto; Belo Horizonte de 20 a 23 de agosto; Recife de 1 a 4 de outubro; Porto Alegre de 15 a 18 de outubro; Curitiba de 29 de outubro a 1 de novembro. São Paulo e Salvador com datas a confirmar. É uma das produções teatrais mais ambiciosas do ano, levando Tarsila a cidades e públicos que talvez nunca tivessem tido motivo para se aproximar do modernismo brasileiro.

Cena do musical Tarsila, a Brasileira, com Claudia Raia no papel de Tarsila do Amaral. Foto: Divulgação / Raia Produções.

Nos espaços expositivos, o movimento é igualmente intenso.
No dia 27 de junho, o Palácio Boa Vista, abre a exposição “Tarsila do Amaral e a Volta ao Clássico”, reunindo 16 obras do acervo do governo do Estado de São Paulo. Após integrarem a exposição em Brasília. É uma alegria ver essas obras juntas novamente em Campos do Jordão.

Ainda no primeiro semestre deste ano, a exposição ‘Transbordar o Mundo: os olhares de Tarsila do Amaral, realizada no Tribunal de Contas da União, em Brasília, reuniu obras originais e uma sala imersiva, inédita na história da artista, que contou com curadoria de Juliana Miraldi e minha. Mais de 50 mil pessoas visitaram a mostra, com entrada gratuita e catálogos distribuídos sem custo. Quando uma instituição trata uma exposição como serviço público, e não como evento, o impacto é diferente. Fica para sempre.

Em agosto, esse percurso segue com O Brasil de Tarsila, exposição imersiva que inaugura no Nubank Arte Lab, no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. Construída a partir de pesquisa aprofundada sobre o vocabulário visual de Tarsila, sem inteligência artificial, com uma equipe de artistas e designers comprometida com a fidelidade à obra, a exposição é um convite para que qualquer pessoa entre no universo dela de uma forma que nenhuma reprodução em livro ou tela de celular consegue oferecer.

Tarsila quis ser a pintora do seu país. Essa frase, que ela mesma usou, carrega um projeto estético e político que ainda hoje é radical: a ideia de que a arte brasileira poderia olhar para dentro, para o que era nosso, sem pedir licença para nenhuma tradição europeia.

Depois de 140 anos, o Brasil está respondendo a esse projeto com exposições, musicais, pesquisas e iniciativas de acesso que chegam a cidades que ela nunca visitou, a públicos que ela nunca imaginou alcançar. Não porque o mercado descobriu que Tarsila vende, embora venda, mas porque sua obra continua fazendo o que sempre fez: mostrar o Brasil para os brasileiros.

Esse é o tipo de celebração que ela merecia. “Fico muito feliz de ser a pessoa que está gerindo o seu legado e podendo entregar tudo o que você merecia, tia bisa”.

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Paola do Amaral

Paola do Amaral Montenegro é gestora cultural, curadora, pesquisadora e especialista em branding cultural. Sobrinha-bisneta de Tarsila do Amaral, atua na gestão de seu legado na Tarsila do Amaral S/A, coordenando projetos de catalogação, licenciamento e difusão de sua obra. Pós-graduada em Museologia e membro do ICOM, desenvolve iniciativas voltadas à preservação do patrimônio artístico, à gestão de propriedade intelectual e à valorização de legados culturais. Também produz conteúdo sobre arte, memória e patrimônio, contribuindo para a ampliação do acesso e do interesse público pela arte brasileira.

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