Tarsila do Amaral. Terra, 1943 - óleo sobre tela. 60 x 80 cm. Coleção Particular. © Tarsila do Amaral S/A
Tarsila do Amaral é conhecida pelas cores caipiras. O “azul puríssimo, rosa violáceo, amarelo vivo, verde cantante” que ela mesma descreveu como a paleta da sua infância na fazenda. Essa paleta virou sinônimo do seu nome, e com razão: ela criou uma forma única de ver o Brasil.
Mas há um conjunto de obras de Tarsila que poucos conhecem, e que revelam uma pintora diferente da que aprendemos a reconhecer. São obras dos anos 1940, de paleta mais contida, mais introspectiva, que a historiografia costuma tratar como um período menor.
Para entender essas obras, é preciso voltar a duas telas anteriores.
A primeira é o Abaporu, de 1928. Todo mundo conhece: aquela figura de perna enorme, braço apoiado no chão, diante de um cacto solitário.
A segunda é Composição (Figura Só), de 1930, pintada em um dos anos mais difíceis da vida de Tarsila, quando a crise econômica e o fim do casamento com Oswald de Andrade aconteceram ao mesmo tempo. Ela pintou uma única obra naquele ano. Uma figura cujo cabelo se transforma numa fita longa e ondulada que percorre a tela inteira.
Em Terra, de 1943, o cabelo da Composição (Figura Só) voltou. Está lá, percorrendo a tela, mas agora confundido com o solo, mais sutil. A figura também voltou, mas diferente: agora é um corpo humano de proporções distorcidas, praticamente unificado com a Terra. A paleta é outra, a estética é outra, mas os elementos são os mesmos. Será que a ideia é a mesma?
Em Primavera (duas figuras), de 1946, é o Abaporu que volta. Há duas figuras que se fundem: uma tem a perna na mesma posição inconfundível, o braço na mesma proporção descomunal. O cabelo da Composição (Figura Só) também está lá. Como se Tarsila voltasse, anos depois, às suas próprias criações.
As imagens permaneceram, mas a paleta mudou e isso tem contexto. A crise de 1929 havia devastado a fortuna da família e Tarsila passou os anos seguintes trabalhando para se manter com o próprio dinheiro. Parte significativa da sua produção dos anos 1940 foi de retratos, uma forma de pintura com mercado mais garantido. O contexto econômico deixou marcas no que ela produzia: as cores caipiras, alegres, foram cedendo espaço para uma pintura mais contida, mais alinhada ao que o mercado de arte brasileiro queria comprar naquele momento.
Por que Tarsila do Amaral é tão importante para a arte?
O que me fascina nesse conjunto de obras é exatamente isso: as pinturas dão pistas do que estava acontecendo na vida de Tarsila. Como qualquer pessoa, ela foi mudando. Algumas coisas foram ficando para trás. Outras continuaram ali, enterradas, e reapareciam nos momentos em que ela colocava tudo nas telas.
Apresentar essas obras é um convite para conhecer uma Tarsila além do Abaporu, além das cores caipiras e do glamour de Paris. Uma pintora que lutou contra muitos preconceitos e que teve uma vida que ainda não foi contada o suficiente.
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