"A jovem Susi Korihana thëri em um igarapé" (1972–1974), por Claudia Andujar. Fonte: Instituto Moreira Salles (IMS)
Claudia Andujar é um dos nomes mais emblemáticos da fotografia contemporânea brasileira. Sua trajetória é marcada não apenas por uma produção visual esteticamente potente, mas também por um compromisso ético e político com os povos indígenas, especialmente os Yanomami. Este artigo convida você a conhecer como sua arte se tornou ferramenta essencial de ativismo e resistência, unindo estética e ética em defesa dos direitos humanos e ambientais.
Desde os anos 1970, Claudia Andujar direcionou seu olhar para a Amazônia e os Yanomami, uma das maiores etnias indígenas da América do Sul. Fugindo do Holocausto na Europa, a artista suíço-brasileira encontrou no Brasil não apenas um novo lar, mas também uma causa vital: documentar e proteger os povos originários ameaçados por invasões e desmatamentos.
Sua série fotográfica mais famosa, “Marcados”, apresenta retratos dos Yanomami com números pintados em seus corpos — uma estratégia inicialmente desenvolvida para facilitar o acesso à saúde, mas que também ecoa a memória do extermínio vivenciado pela própria artista durante a Segunda Guerra Mundial. Outra obra icônica é a série “A luta Yanomami”, que registra os desafios diários da comunidade em meio à destruição ambiental e às violações de seus direitos.
O trabalho de Claudia Andujar levanta discussões essenciais sobre os limites e responsabilidades da fotografia documental. Como representar o outro sem exotizar? Como transformar imagens em instrumentos de mudança real? Inspirando-se em debates internacionais sobre fotografia e ética — como os promovidos por plataformas como Smarthistory — Andujar adotou um método colaborativo, envolvendo os próprios Yanomami em decisões sobre como seriam fotografados e para que fins as imagens seriam utilizadas.
Essa postura não só fortaleceu a luta indígena, mas também estabeleceu novos paradigmas para a fotografia engajada. Suas imagens não são meros registros; são manifestações políticas que colocam em questão a desigualdade social, o etnocídio e a crise ambiental.
Para quem deseja conhecer de perto o trabalho da fotógrafa, algumas instituições abrigam acervos significativos de suas obras. O Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro e em São Paulo, possui uma vasta coleção dedicada a Andujar, incluindo fotos, documentos e materiais audiovisuais. A série completa de “Marcados”, por exemplo, faz parte desse acervo. O Museu de Arte de São Paulo (MASP) também já sediou grandes exposições retrospectivas da artista, consolidando sua importância no cenário da arte contemporânea brasileira e mundial.
Em abril de 2025, o Instituto Inhotim reinaugurou a galeria que leva seu nome, agora intitulada Galeria Claudia Andujar | Maxita Yano (“casa de terra”, em Yanomami). A nova proposta amplia o diálogo entre a fotografia histórica de Andujar e a arte indígena contemporânea, reunindo obras de 22 artistas indígenas da América do Sul, além de novas imagens inéditas da fotógrafa. Com curadoria de Beatriz Lemos e Júlia Rebouças, o espaço reafirma seu papel como território de resistência e memória, promovendo uma experiência imersiva com arte visual, audiovisual e documentação histórica.
A luta dos Yanomami permanece urgente, especialmente diante dos atuais desafios ambientais e políticos no Brasil. Por isso, revisitar a obra de Claudia Andujar é mais do que um exercício estético: é um ato de consciência crítica. Ao unir arte e ativismo, sua fotografia nos convida a refletir sobre nosso papel na preservação da diversidade cultural e ambiental.
A fotografia de Claudia Andujar nos ensina que a arte pode — e deve — ser uma ferramenta de resistência. Em tempos de crise climática e ataques aos direitos indígenas, sua obra permanece não só atual, mas essencial. Para jornalistas, ambientalistas e fotógrafos, sua trajetória é uma inspiração poderosa sobre o potencial transformador da imagem.
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