O que a tecnologia pode e o que ela não pode fazer sozinha
Existe uma pergunta que me acompanha desde 2023 no trabalho com o legado de Tarsila do Amaral: quem tem o direito de ver uma obra de arte?
A resposta honesta, se observarmos como o sistema funciona na prática, é: quem tem acesso. E acesso, no mundo da arte, raramente é uma questão apenas de vontade.
Organizar uma exposição com obras originais é caro. Muito caro. Envolve seguro especializado, transporte com condições controladas, montagem técnica, comunicação, captação de patrocínio. E isso antes de qualquer decisão curatorial. O resultado prático é que obras fundamentais da história da arte brasileira ficam anos, às vezes décadas, fora do alcance do público, não por falta de interesse, mas por falta de condições para viabilizar esse encontro.
O problema é estrutural. E por isso mesmo exige respostas que também sejam estruturais.
A tecnologia, quando usada com rigor curatorial, é uma dessas respostas.
Em 2026, a exposição Transbordar o Mundo: os olhares de Tarsila do Amaral, realizada no Tribunal de Contas da União, em Brasília, foi um marco por mais de um motivo. Pela primeira vez, obras originais de Tarsila foram reunidas em uma mostra que também contava com uma sala imersiva, essa igualmente inédita na história da artista. As duas experiências coexistiam no mesmo espaço: o encontro com a tela física, com sua textura e escala reais, e o mergulho em um ambiente construído a partir do universo visual dela.
O que ficou claro ali é que uma experiência não concorre com a outra. A sala imersiva, que fiz curadoria em conjunto com Juliana Miraldi, não tentava reproduzir o que a obra original já faz, criava-se uma relação diferente com ela. Uma entrada para quem talvez nunca tivesse tido motivo para se sentir parte desse circuito.
Obras em Destaque
Exposição “Mundo de Tarsila” no Nubank Arte Lab
Em agosto deste ano, damos um passo adiante. O Mundo de Tarsila inaugura no Nubank Arte Lab, no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. A escolha do endereço não é acidental: o Conjunto Nacional é um dos pontos de maior circulação da cidade, frequentado por pessoas que talvez nunca tenham tido motivo para entrar em um museu.
A exposição foi construída a partir de pesquisa aprofundada sobre a trajetória e o vocabulário visual de Tarsila, com uma equipe de artistas que trabalhou para que cada elemento fosse fiel ao universo dela. Sem inteligência artificial gerando imagens. Sem atalhos. Com o cuidado que o nome exige.

Existe uma distinção importante que vale fazer aqui.
Há um modelo de exposição imersiva que se tornou comum nos últimos anos: tecnicamente sofisticado, visualmente impactante, e na maior parte das vezes curatorialmente esvaziado. O artista vira cenário, a obra vira atmosfera, e o visitante sai com uma experiência estética intensa sem necessariamente ter criado nenhuma relação real com quem a produziu.
Esse modelo não é o que nos interessa. Em O Mundo de Tarsila, a pergunta que orientou cada decisão criativa foi outra: como fazer com que qualquer pessoa que entre nesse espaço sinta que o mundo de Tarsila também lhe pertence? Leveza e rigor não são opostos: o rigor está justamente a serviço da leveza, para que a experiência seja verdadeira, não decorativa.
Tarsila pintou operários, mulheres negras, figuras populares. Depois de anos viajando pelo mundo, voltou com um olhar capaz de ver o Brasil com uma clareza que seus contemporâneos ainda não tinham. Quis ser, como ela mesma disse, a pintora do seu país.
Há algo de paradoxal no fato de que sua obra circule principalmente por espaços que muita gente não sente como seus. Museus e instituições que, apesar de públicos, carregam uma linguagem e uma dinâmica que comunica, silenciosamente, que alguns visitantes são mais esperados que outros.
A exposição imersiva não resolve esse paradoxo de forma definitiva. Ela não muda as condições econômicas que tornam a arte inacessível, não redistribui os recursos do setor, não substitui o encontro com a obra original. Mas ela pode ser uma ponte: um convite para que qualquer pessoa atravesse e encontre, do outro lado, uma pintora que pintou exatamente para ela.
É isso que me move nesse trabalho. A convicção de que o legado de Tarsila não pertence apenas a quem já tem as ferramentas para acessá-lo. E que cabe a quem cuida desse legado encontrar formas de honrar essa ideia: com tecnologia, com pesquisa, com responsabilidade.
O Conjunto Nacional, em agosto, vai ser um bom lugar para continuar essa conversa.
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