Por que é tão difícil aceitar um novo suporte?
Existe um preconceito no mundo da arte com exposições imersivas. Ele está na sobrancelha levantada, no nariz torcido, no comentário dos “críticos de arte” na rede social, na forma como o circuito acadêmico e curatorial tende a colocar esse tipo de exposição numa prateleira separada a das experiências de entretenimento, longe da chamada “arte de verdade”.
Conheço esse preconceito de perto. E entendo (em partes) de onde ele vem.
Nos últimos anos, o formato imersivo se popularizou de uma forma que, em muitos casos, justifica a desconfiança. O nome de um artista consagrado emprestado a uma experiência que pouco tem a ver com o que ele pensava ou produzia, sem pesquisa, sem rigor curatorial, sem compromisso com o legado. Nesses casos, o preconceito não é preconceito, é leitura correta.
O problema começa quando o suporte vira veredito. Quando ouvir a palavra “imersiva” já é suficiente para formar uma opinião, antes de entrar, antes de ver, antes de qualquer avaliação de conteúdo.
Depois da inauguração da exposição, da qual sou curadora, “O Brasil de Tarsila”, no Nubank Arte Lab, ouvi de alguém uma frase que ficou comigo: “adorei a exposição, mas senti falta das obras originais”. É um comentário honesto, e provavelmente representa o que muita gente pensa. Mas revela também uma confusão sobre o que cada experiência propõe.
Obras em Destaque
Neste momento, o Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão, abriga uma exposição com 16 obras originais de Tarsila do Amaral, incluindo Operários. Quem quiser estar diante dessas telas, com sua escala real, sua textura, sua presença física, tem onde ir. São experiências diferentes e as duas merecem ser vividas.
No Nubank Arte Lab, a proposta é outra. Juliana Miraldi e eu passamos um ano inteiro só pesquisando para que cada sala de O Brasil de Tarsila tivesse conexão real com o contexto das obras, com os momentos da vida de Tarsila, com o que ela estava passando quando pintou os quadros. O resultado é uma forma completamente nova de entrar no universo dela, que nenhuma tela emoldurada consegue oferecer.
São propostas diferentes. Suportes diferentes. Funções diferentes. O preconceito começa quando se usa a ausência das obras originais como argumento contra a exposição imersiva, como se uma precisasse ser melhor que a outra para justificar existir.
Uma exposição imersiva pode ser superficial. Também pode ser o suporte mais adequado para contar certas histórias, para criar certas relações entre o público e uma obra que de outra forma permaneceria distante. A diferença não está no formato. Está no que se faz com ele.
Uma exposição tradicional também pode ser incompreensível. Mas estar diante dos quadros originais confere uma aura de pertencimento, de capital simbólico, que dispensa o entendimento. Se todo mundo saiu dizendo que amou, o discurso se repete, porque fazer parte desse circuito tem valor próprio, independente do que foi de fato sentido ou compreendido.
O circuito acadêmico e curatorial sabe avaliar uma exposição tradicional. Tem ferramentas para isso, critérios estabelecidos, uma história longa de debate sobre o que qualifica ou desqualifica uma mostra. Com o formato imersivo, essas ferramentas ainda estão sendo construídas, e o que preenche esse vácuo, por enquanto, é o preconceito.
O suporte não é o problema.
Tarsila passou a vida inteira sendo avaliada antes de ser vista. Uma mulher, paulistana, filha de fazendeiros, privilegiada, que foi à Europa e voltou querendo pintar o Brasil. O circuito da época tinha suas próprias sobrancelhas levantadas.
Mas ela pintou assim mesmo.
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