Arte

Uma descrição de “Campo de Trigo com Corvos”

Por Erika Pessanha - março 30, 2017
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Vincent para quem não vê

Uma descrição de “Campo de Trigo com Corvos”

O azul é uma sensação de sopro no rosto, um assobio no pé do ouvido, então o céu de Vincent é como um ranger de grandes portas que se abrem pro vento entrar. Parece haver olhos nesse céu, e eu posso fechar os meus que sinto no peito os redemoinhos da dor que ele imprimiu nessa noite.

Há rasgos nesse ranger do céu, pequenas navalhadas deixam vazar dele a escuridão, a cor negra dos corvos, é o sonho de quem nada vê, de quem não tem mais forças pra pisar o chão, de quem as esperanças se desmancharam sem forma no esquecimento, os corvos são essa ferida ou a própria alma de Vincent partindo, dependendo de como olhar para o quadro, pode parecer que vem pra nós pedindo socorro e partem de terror em revoada.

Caminhos que parecem pernas em descanso, a moldura verde ao redor desses caminhos parece marcar um corpo estendido, fazendo do campo um colo de mãe mais do que um solo que encerra as vidas.

No chão, o trigo se move como o pulsar do coração ou como a lembrança do ninar de uma mãe, é o vento, que permeia toda a composição sendo a alma desse corpo atormentado que a obra representa. Cor mais quente do que a terra quando nos dá o abraço final, toda a natureza tem a força fugidia dos homens.

Contrastes se assemelham a choques, trombadas, e os contrastes dele sugerem desespero e consolo, morte e vida. não há uma força com mais valor que a outra, não se sabe onde é o começo ou o fim e isso faz com que os opostos tenham vida e igual importância.

Se o quadro tivesse gosto, não teria uma pitada sequer de açúcar, é um gosto amargo, queimado, quase regurgitado, dá a impressão de que se passarmos as mãos a teremos arranhadas por lixas, cortadas em pequenos furos por navalhas afiadas.

Você pode ignorar os “Corvos nos Campos de Trigo”, você pode trancar o seu consciente pra não sentir o pedaço da dor do Vincent, mas não há retorno, ele treinou por toda uma vida pra fazer que seu inconsciente abrigue um pedaço oculto de todos nós.

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