A arte abstrata cria composições de formas e cores que se desobrigam de corresponder a objetos reconhecíveis no mundo sensível.
Mais: a abstração é como aquela nuvem no céu que pode parecer coisas diferentes para diferentes pessoas e que se transforma à medida em que lhe damos nossa contemplação. Tenho cá para mim que o artista abstracionista tenta dominar a natureza, fechando-a em formas puras, geométricas e estilizadas, produzindo um feito tranquilizante.
Há grande prazer na contemplação da imagem abstrata: dela emana claridade, racionalidade, atemporalidade, delimitação e simplicidade. Somos transportados por ela, elevados a uma espécie de absoluto, como em experiência espiritual. Quando nos acostumamos a contemplá-la sentimos satisfação pela sensação de mistério e pelas possibilidades de interpretação que ela oferece.
Adalgiza brinca de harmonizar cores em pleno domínio da ocupação de grandes espaços enquanto Matiolli simplifica organizando em beleza o caos do mundo real. Com cores inusitadas, Ariane classifica os objetos fazendo-nos interpretá-los diversos a cada olhar, já Ciça explode tintas em fluidez colorida que nos faz embalados ou lisérgicos. Cria seres quase abstratos, a artista Flávia, nascidos de mente fértil, poderosas mãos e fornos quentes. Gisele abstrai elegantes cores e formas nas telas enquanto brinca de criar as ‘nanas’, quase-pessoas, que também transforma em suporte de cores e formas. Marcolla amplia pequenos objetos de forma dramática a ponto de roubar-lhes a identidade e entregar-nos elementos misteriosos. São artistas dramaticamente abstracionistas. Ou quase, já que nos instigam a imaginar seus mundos irreais se transformando?
‘A arte abstrata é a mais difícil de todas, pois para se entregar a ela é preciso ser bom desenhador, ter grande sensibilidade para a composição e para as cores e – mais importante – ser um poeta autêntico’, Wassily Kandinsky, artista russo, pioneiro na arte abstrata.
Ligia Testa, curadora e produtora artística, setembro de 2021.
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