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Juliana Galbetti Tensiona a Violência Bélica em Veneza

Por Paulo Varella - outubro 27, 2026
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A produção contemporânea brasileira finca raízes no solo histórico de Veneza com uma potência tectônica. Selecionada entre mais de 3 mil inscrições globais por edição, a artista catarinense radicada em São Paulo, Juliana Galbetti, desponta como uma das principais finalistas da 21ª edição do Arte Laguna Prize. Em consonância com a celebração de 20 anos da premiação, concebida pela MoCA APS (Modern and Contemporary Art), a instalação monumental “Era do Ruído” (Age of Noise) ocupará o histórico e monumental complexo do Arsenale Nord, de 6 a 29 de novembro de 2026, dividindo as atenções globais com as semanas de encerramento da icônica Bienal de Veneza.

Sob a chancela crítica de um júri de alta erudição internacional — que inclui o curador brasileiro Hélio Menezes (co-curador da histórica 35ª Bienal de São Paulo, Coreografias do Impossível), a celebrada teórica Yuko Hasegawa, e os curadores Sarah Crowe, Wang Chunchen, Gianluigi Ricuperati e Linzi Stauvers —, o projeto ganha fôlego institucional ao ser abraçado pela curadoria-geral de Xiaoyu Weng e Jemima Kulumba, duas vozes decisivas que tensionam novos discursos de gênero, ecologia e geopolítica na cena global.

A Saturação do Agora: Dispositivos de Poder e Indexação Biopolítica

A poética de Juliana Galbetti, cuja trajetória nas artes visuais iniciou-se em 2018 após sólida formação em Moda pela Faculdade Santa Marcelina, ancora-se justamente na intersecção entre a matéria, o tempo e os lapsos da percepção humana. Em “Era do Ruído”, projeto que frutifica de uma pesquisa sistemática de cinco anos e que expande a proposta inicialmente apresentada na 7ª Bienal do Sertão (Diamantina, MG, 2025), a artista convoca o espectador a uma experiência performática-espacial radical.

Trata-se de uma instalação site-responsive de 16 metros quadrados que opera através de um paradoxo visual sedutor e perturbador. Estruturada por vitrines de chão horizontais, com chassis metálicos e tampos espessos de vidro temperado, a obra convida o público a caminhar sobre ela. Abaixo do peso dos corpos itinerantes, revela-se a catalogação obsessiva de mais de 300 quilos de resíduos bélicos reais: estojos deflagrados, cápsulas de munição, projéteis severamente deformados pelo impacto, fragmentos plásticos de cartuchos e restos cerâmicos de pratos utilizados como alvos móveis.

Ao emular os rigorosos critérios taxonômicos e classificatórios dos acervos museológicos e das escavações arqueológicas convencionais — onde a matéria é rigorosamente limpa, inventariada e organizada em clusters comparativos —, Galbetti desloca a cronologia da violência. Não estamos diante de fragmentos exumados de uma civilização extinta ou de um passado colonial sepultado; o que se esmaga sob as solas dos sapatos contemporâneos são os restos materiais de uma prática em pleno funcionamento, um fetiche armamentista e uma pulsão destrutiva que define o zeitgeist biopolítico atual.

Estética do Atrito e Conexão Epistêmica

O trabalho estabelece um diálogo interdisciplinar profícuo com as teorias da arqueologia simétrica e do lixo material, tendo contado com a interlocução teórica do arqueólogo Danilo Ribeiro Zardo. A proposta levanta um questionamento crítico crucial: se os objetos são capazes de narrar a anatomia política da sociedade que os engendra, o que a saturação, a escala e a reiteração desses projéteis dizem sobre nós?

A artista trabalha no limiar do estranhamento estético. Há, num primeiro olhar, um apelo geométrico e minimalista quase ornamental: o brilho polido dos metais residuais (latão, chumbo, bronze, cobre), a ordem milimétrica, o convite à aproximação. Contudo, essa ordem não apaga o trauma indexado ao objeto; ela o amplifica, tornando visíveis as fissuras do chumbo e as deformações brutais do disparo. Trata-se de uma arqueologia do futuro exercida no presente — um testemunho de que a paz, longe de ser um estado natural dado, permanece como uma ficção a ser urgentemente erigida, enquanto continuamos a fabricar, metodicamente, os vestígios do nosso próprio colapso futuro.


Agenda e Protocolos Institucionais

  • Vernissage e Premiação: Sexta-feira, 6 de novembro de 2026, às 17h, conduzida pelo mestre de cerimônias Harry Baldissera.
  • Visitação Pública: 6 a 29 de novembro de 2026, das 10h às 18h.
  • Atividades Paralelas: Visitas guiadas agendadas pela MoCA APS e acesso à mostra colateral “New Horizons” na Tesa 98 do complexo veneziano.
  • Endereço: Arsenale Nord – Sestiere Castello, 6611, Veneza, Itália.
  • Ingresso: Acesso público e gratuito.
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