Movimentos

Futurismo | Aversão ao passado, exaltação da guerra e tecnologia

Ganhando vida após o lançamento do Manifesto Futurista, o movimento chegou a pedir a destruição de museus, bibliotecas e do movimento feminista.

Por Joy de Paula - outubro 9, 2019
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O Futurismo foi um movimento artístico e literário que surgiu no início do século XX, com a publicação do Manifesto Futurista, pelo italiano Filippo Marinetti, nos jornais Gazzetta dell’Emiliano, de Milão, e no Le Figaró, de Paris, em 1909.

Ele teve a tarefa histórica de preencher a lacuna romântica e inserir a arte moderna italiana numa situação cultural europeia. Segundo Giulio Argan, em seu livro Arte Moderna, o Futurismo italiano é o primeiro movimento que se pode chamar de vanguarda.

Entende-se, com esse termo,  um movimento que investe um interesse ideológico na arte, preparando e anunciando deliberadamente uma subversão radical da cultura e até dos costumes sociais, negando em bloco todo o passado e substituindo a pesquisa metódica por uma ousada experimentação na ordem estilística e técnica.

Além das perspectivas artísticas, o futurismo também carregava uma tensão política incorporada ao movimento que, na verdade, era uma das formas de arte mais politizadas do século XX. Embora o movimento tenha criado alguma arquitetura, a maioria de seus artistas trabalharam em mídias tradicionais, como pintura, escultura, design gráfico, design de interiores, cinema, teatro, música, cerâmica ou design industrial, e seu estilo eclético foi muito inspirado pelo pós-impressionismo.

As obras futuristas baseavam-se fortemente na velocidade e no desenvolvimento tecnológico do final do século XX. Os primeiros futuristas europeus também exaltavam a guerra. O movimento desenvolveu-se em todas as artes e influenciou diversos artistas que depois fundaram outros movimentos modernistas.

Alguns pintores que aderiram ao movimento futurista foram Umberto Boccioni, Carlo Carrà, Giacomo Balla, Gino Severini e Luigi Russolo.


A origem do Manifesto do Movimento de Arte Futurista

A primeira página do jornal francês Le Figaro publicou o “Manifesto Futurista” em 1909 por Filippo Tommaso Marinetti. Com o seu lançamento, o futurismo ganhou vida. Marinetti era anteriormente membro da Abbaye de Cretail, a comunidade fundada por vários artistas para publicar obras, mas foi fechada por seus membros no início de 1908.

O manifesto de Marinetti estabeleceu um tom bastante impetuoso onde atacou abertamente a tradição cultural e atacou as noções pré-concebidas da arte. Ele até pediu a destruição de museus, bibliotecas e do movimento feminista. Doentes da confiança da Itália em sua herança clássica, os futuristas proclamaram seu desejo ardente pelo abandono do passado e pela adoção do futuro.

Lo splendore geometrico e meccanico e la sensibilità numerica
Lo splendore geometrico e meccanico e la sensibilità numerica | manifesto publicado em 1914 por Filippo Tommaso Marinetti.

Inúmeros manifestos, folhetos, periódicos de arte e poesia foram publicados no período de 1909 a 1944. Sua agenda provocativa se espalhou pelas cidades em todo o mundo, na tentativa de despertar a nova estética da vida moderna. É através desse método empreendedor que os futuristas influenciaram as pessoas com a promoção em massa de suas ideias. Além dos manifestos, os seguidores costumavam publicar seus próprios livros e administravam revistas de arte e literatura, revistas e jornais.

O objetivo desses seguidores era conquistar o cenário internacional e abordar as pessoas através de poesia, política, linguagem, entretenimento e arte. O movimento inicialmente se centrou em Milão, mas se espalhou rapidamente para Turim e Nápoles. Logo, o que começou como um chamado para os italianos romperem a obsessão paralisante pelas glórias do passado, rapidamente progrediu para um empreendimento internacional.


Desenvolvimento do movimento artístico

Este manifesto fundador não continha um programa artístico positivo, com isso, mais tarde aconteceu a tentativa de realizar o Manifesto Técnico subsequente da Pintura Futurista. Eles se comprometeram com o ‘dinamismo universal’, o que significava que os objetos na realidade não estavam separados um do outro ou de seu ambiente.

Alguns dos artistas futuristas eram tão fervorosos com a ideologia que a obsessão deles com a tecnologia da era moderna estava se tornando evidente em toda parte. Umberto Boccioni, Carlo Carrà, Luigi Russolo, Gino Severini e Giacomo Balla foram os pintores que assinaram seu primeiro manifesto em 1910. Mas foi somente até o ano seguinte que Marinetti e os futuristas visitariam o Salon d’Automne em Paris e testemunharam o cubismo pessoalmente pela primeira vez.

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Luigi Russolo, Carlo Carrà, Filippo Marinetti, Umberto Boccioni e Gino Severini.

Essa experiência deixou um impacto imediato que pode ser visto na Materia de Boccioni de 1912, por exemplo, mas os futuristas alegaram que seu trabalho era completamente original. Étienne-Jules Marey, cientista e fotógrafo do século XIX, é considerado um dos precursores do cinema. Suas experiências inovadoras com a fotografia em lapso de tempo estudaram a mecânica do movimento animal e humano.

Fascinados por essa ideia de “dinâmica”, os futuristas pretendiam representar os ritmos e movimentos de um objeto em suas imagens, poemas e manifestos. Eles glorificaram a ideia de combinar o humano com a máquina, com muitos de seus trabalhos representando uma amálgama dos dois conceitos.

O dinamismo parecia ser um conceito recorrente nos primeiros desenvolvimentos do movimento, mas mais tarde, em 1913, a natureza unificada dele começou a desmoronar. Os membros do movimento começaram a desenvolver suas próprias posições pessoais e, com o advento da guerra, o centro dos acontecimentos muda de Milão para Roma, e mesmo que o movimento permanecesse ativo na década de 1920, a energia inicial se dissipou.


Características do Futurismo:

  • Desvalorização da tradição e do moralismo;
  • Valorização do desenvolvimento industrial e tecnológico;
  • Defesa de uma ligação entre as artes plásticas e o mundo moderno;
Futurismo
 Giacomo Balla | Dynamism of a Dog on a Leash, 1912.
Image property of the Albright-Knox Art Gallery, Buffalo, NY.
  • Propaganda como principal forma de comunicação;
  • Uso de onomatopeias (palavras com sonoridade que imitam ruídos, vozes, sons de objetos) nas poesias;
  • Poesias com uso de frases fragmentadas para passar a ideia de velocidade;
  • Pinturas com uso de cores vivas e contrastes. Sobreposição de imagens, traços e pequenas deformações para passar a ideia de movimento e dinamismo.

Análise de obras do Futurismo

Funeral do Anarquista Galli (1910 – 11)

Artista: Carlo Carrà

Futurismo - Funeral do Anarquista Galli
Carlo Carrà | O funeral do anarquista Galli, 1911.

Esta pintura comemora o funeral de Galli, um anarquista morto durante a greve. Centenas, incluindo mulheres e crianças, participaram de sua procissão fúnebre, liderada por uma corte de anarquistas. A pintura captura o momento em que a polícia montada a cavalo atacou a procissão. Carrà estava no funeral e em sua autobiografia posterior escreveu:

“Eu me encontrei de má vontade no centro, diante de mim, vi o caixão, coberto de cravos vermelhos, balançando perigosamente nos ombros dos carregadores; vi cavalos enlouquecerem, paus e lanças se chocando, parecia-me que o cadáver poderia ter caído no chão a qualquer momento e os cavalos o pisariam. Profundamente atingido, assim que cheguei em casa fiz um desenho do que tinha visto”.

O caixão de Galli, envolto em um pano vermelho, é mostrado no centro da tela, erguido por anarquistas, retratado em preto. Eles avançam energicamente em direção a um muro da cavalaria policial à esquerda. Raios de luz emanam do caixão, iluminando a escuridão, fundindo a massa da humanidade e indicando Galli como o foco da peça, referenciando seu papel na inflamação da violência atual. O terço superior da pintura é dominado por fortes linhas diagonais com mastros de bandeira, estandartes, lanças e guindastes, sugerindo o aparato de guerra e cerco.


Dançarina de Pigalle (1912)

Artista: Gino Severini.

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Gino Severini | Dançarina de Pigalle, 1912.

A dançarina, representada no meio da pintura, é composta por uma interseção dinâmica de um turbilhão de linhas e tecidos. Quatro feixes de iluminação do palco focalizam-na, destacando-a como o centro da imagem, enquanto, por outro lado, seus rápidos movimentos rotatórios irradiam em círculos concêntricos para as bordas do plano pictórico.

Cada uma dessas camadas circulares contém imagens fragmentárias de músicos, instrumentos, espectadores e formas que evocam notas musicais, capturando uma essência do espaço em que ela se apresenta.

Severini costumava incorporar elementos 3D em seu trabalho, criando telas que eram um híbrido entre pintura e escultura. Nesta imagem, assume a forma de lantejoulas coladas à pintura, que captam e focalizam a luz e o uso de gesso para construir a superfície da obra em determinadas áreas. De certa forma, essa técnica torna a imagem mais tangível, proporcionando uma sensação de forma e textura, mas também cria experiências contrastantes para o espectador quando a tela é vista de diferentes ângulos e perspectivas.


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Fontes:

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