História

Maria Martins e Marcel Duchamp: a arte na paixão de um relacionamento

Por José Henrique Fabre Rolim - outubro 1, 2026
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A arte do século XX se destaca por espelhar uma infinidade de expressões criativas em revoluções estéticas e culturais que transformaram o mundo propondo perspectivas inovadoras. Muitas histórias de encontros e paixões surgiram no decorrer dos anos, mas uma merece um olhar especial, o amor que surgiu entre Maria Martins (1894-1973), escultora e gravurista com o poeta, pintor e escultor francês, Marcel Duchamp (1887-1968). Um relacionamento que se estendeu por 8 anos (de1943 a 1951), tendo como resultado o surgimento de muitas obras, um argumento extremamente envolvente proporcionado pelo livro “Impossível”, de Francis M. Naumann Ed. Pinakotheke). 

Maria Martins e Marcel Duchamp
Maria Martins e Marcel Duchamp

O percurso da artista Maria Martins (1894-1973) ultrapassa a linha surrealista, sua obra rompe conceitos, inova e se envolve numa obra arrojada e essencialmente poética. A complexidade de suas incursões plásticas denota profundidade, alicerçada numa cultura densamente humanista envolta em reflexões filosóficas oportunas. 

Tendo uma vida social bem dinâmica, casou-se pela primeira vez em 1915 com o jurista e historiador Octávio Tarquínio de Sousa, mas em 1924 se separa e parte para Paris com suas duas filhas. Na Cidade Luz se casa, em 1926, pela segunda vez, com o diplomata Carlos Martins Pereira e Sousa (1884-1965) que se tornará embaixador do Brasil em Washington, no agitado ano de 1939. Maria montou ateliê na própria Embaixada, desenvolvendo sua obra com extrema tenacidade. Transitava por altas esferas, alcançando prestígio internacional pela sua excepcional escultura, apreciada por vários surrealistas e frequentadores do circuito diplomático. 

Maria Martins e Marcel Duchamp
Maria Martins em seu ateliê, em Paris, 1950, cercada das esculturas O Impossível

Em 1942, Maria Martins monta um estúdio na Park Avenue, no número 471, em Nova York, faz amizade com Mary Callery, escultora e colecionadora, que lhe introduz no cenário artístico, conhece grandes personalidades como o arquiteto Philip Johnson e Mies Van der Rohe, além de André Breton e Rufino Tamayo. No fluxo das aproximações, frequentou o badalado apartamento de Peggy Guggenheim e conheceu Max Ernst, Marc Chagall, Yves Tanguy, Piet Mondrian e Fernand Léger. 

A aventura amorosa com o artista francês, surgiu em Nova York, em 1943, no vernissage da exposição “Maria: New Sculptures”, na Valentine Gallery, artista já consagrada no meio cultural da cidade, sentiu forte atração por Duchamp que se destacava no movimento surrealista, tendo se estabelecido nos Estados Unidos, em virtude do conflito mundial. 

Maria Martins e Marcel Duchamp
Maria Martins

Essa exposição foi extremamente importante para a artista por ter tido o primeiro contato amoroso com Duchamp e ter sido introduzida no campo surrealista, ocasião em que sua obra “St.Francis” é comprada pelo Metropolitan Museum of Art e a peça “Yara” é adquirida pela Philadelphia Museum of Art. 

A atração entre ambos floresceu com intensidade, se frequentavam normalmente apesar de ela ser casada com o embaixador do Brasil nos Estados Unidos, Carlos Martins. O diplomata sabia do caso, mas aceitava a situação, não queria contrariar a esposa. Na intimidade do relacionamento extraconjugal a arte ganhava novas dimensões, inspiração e paixão influenciando a produção de ambos. 

Em 1947, realiza uma individual na Julien Levy Gallery, em Nova York, tendo no catálogo texto de apresentação de André Breton. Participou da famosa exposição “Le Surrealisme” (Exposition Internationale du Surrealisme), no verão de 1947, na Galerie Maegth, em Paris, que foi antológica, ocasião em que Breton dedicou o evento aos grandes seres invisíveis ou envoltos à vida mítica. A montagem foi conduzida por Marcel Duchamp e Frederic Keller (1800-1965). Martins apresentou na mostra obras que nutriam espiritualmente os visitantes, promovendo o lado estético e harmonioso das peças com o intuito de afastar os temores que o tema poderia ensejar: foram expostas duas esculturas em bronze: ”The Road: The Shadow: Too Long: Too Narrow” (O Caminho: A Sombra: Longos Demais: Estreitos Demais) (1946) e “O Impossível” (1945). 

Maria Martins e Marcel Duchamp
O Impossível , de Maria Martins

Retornando ao Brasil, em 1950, realiza suas primeiras individuais no país, no MAM de São Paulo e na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) no Rio de Janeiro, mas recebeu críticas devastadoras. No ano seguinte, participa da I Bienal de São Paulo e sucessivamente da segunda, mas na terceira recebe o Prêmio de Escultura Nacional com “A soma de nossos dias”. 

Transformações marcantes surgiram nessa época com figuras humanas metamorfoseadas em plantas e árvores enaltecendo personagens místicos de uma tradição bem brasileira como Cobra Grande, Yara, Yemanjá, Boto e Boiuna. Resgatando os mitos amazônicos com formas que primam pela maestria nos resultados plásticos. 

Maria Martins e Marcel Duchamp
Cobra Grande, de Maria Martins

O livro encanta pela fluidez do relato de uma paixão que permaneceu indelével na obra e na alma da Maria Martins. A relação com o tempo tornar-se-ia impossível, mas os frutos resplandeceram nas obras de ambos, como no caso da peça “Paysage Fautif”, na qual Duchamp utilizou líquido seminal para realçar uma atração sexual, orgânica e vital. As esculturas de Maria também germinam um erotismo contundente, a relação estimulou um fluxo criativo poético e vibrante do poder enigmático da arte. 

A leitura do livro é agradabilíssima pela elegância da narrativa abrangendo segredos que levam o leitor para o glamour dos anos 40 e 50, uma nostálgica visão. A arte tem o poder de romper barreiras e valorizar o sentimento humano na complexidade da sua existência. 

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Jornalista, curador, pesquisador, artista plástico e crítico de arte, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Unisantos (Universidade Católica de Santos), atuou por 15 anos no jornal A Tribuna de Santos na área das visuais, atualmente é presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), colunista do DCI com matérias publicadas em diversos catálogos de arte e publicações como Módulo, Arte Vetrina (Turim-Itália), Arte em São Paulo, Cadernos de Crítica, Nuevas de España, Revista da APCA e Dasartes.

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