O que é ser uma mulher radical? Exposição pioneira chega ao Brasil

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O que é ser uma mulher radical? Exposição pioneira produzida nos Estados Unidos chega ao Brasil

 

A Pinacoteca do Estado de São Paulo recebe a partir do dia 18 de agosto a exposição Radical Women: Latin American Art, 1960-85. A mostra foi idealizada pelo Hammer Museum, Los Angeles, e pensada pelas curadoras convidadas Cecilia Fajardo-Hill e Andrea Giunta, além de Marcela Guerrero, umas das minhas supervisoras agora aqui no Whitney Museum, como membro curatorial. A exposição fez parte da iniciativa chamada Pacific Standard Time: LA/LA, uma grandiosa exploração da arte da América Latina e da arte latina (arte latina é o termo usado para se referir à artistas nascidos ou criados nos Estados Unidos de herança familiar vinda da América Latina) em diálogo com Los Angeles. Liderada pelo Getty, a mostra foi um esforço coletivo das instituições de arte do sul da Califórnia, onde ocorreu entre setembro de 2017 e janeiro de 2018, apresentando uma série de exposições tematicamente conectadas. A mostra também passou por Nova York e foi exibida no Brooklyn Museum entre abril e julho.

 

Radical Women apresenta 260 obras feitas por 123 artistas de 15 países diferentes, o que inclui mulheres artistas da América do Sul, América Central e Caribe e dos Estados Unidos, latinas e chicanas. Inclui também uma série de mídias, como escultura, vídeo, pintura e fotografia. O recorte cronológico, de 1960 a 1985, engloba justamente um período política e socialmente conturbado nesses países: Ditaduras militares, luta pelos direitos civis, início do movimento feminista. Temas como direitos humanos, violência de gênero, opressão, distúrbios civis, imigração e ditadura estão bastante presentes nos trabalhos.

 

A exposição abre inclusive com uma linha do tempo informativa sobre 25 anos de vida política e social de eventos e acontecimentos nos 15 países que estão ligados a questão da mulher. O evento marcante que abre a linha do tempo da mostra é o momento que as mulheres ganharam direito ao voto em cada país; no Brasil isso se deu em 1932, mas no México, por exemplo, somente em 1953. Apesar de as diferenças culturais entre os países serem grandes, todas as artistas selecionadas para a exposição construíram trabalhos que representam de alguma forma resistência e ação política.  A curadoria argumenta que nem todos os países do continente americano foram incluídos porque não encontraram artistas que se encaixavam dentro da temática da exposição. No Brooklyn Museum a exposição foi dividida em 10 grupos temáticos: Resistência e medo, Mapeando o corpo, O erótico, O poder das palavras, O corpo na paisagem, Performando o corpo, Autorretrato, Feminismo, e Lugares sociais.

 

A sessão O erótico apresentou trabalhos que lutam contra noções do erótico tradicionalmente dominadas pela fantasia sexual masculina. As artistas tratam do erótico com um misto de senso de humor, ar de brincadeira e olhar crítico diante das visões estereotipadas da sexualidade feminina. A artista colombiana Feliza Bursztyn expõe através de sua obra, Cama, como a sexualidade é tratada de maneira pudica no seu país. A obra é uma máquina que se move coberta por um lençol de cetim vermelho, simulando uma união sexual escondida embaixo do pano.  

Feliza Bursztyn (Colombiana, 1933-1982), Cama, 1974

 

As obras apresentadas em Lugares sociais, por sua vez, examinaram os espaços sociais que as populações marginalizadas construíram para suas comunidades.  Algumas artistas ultrapassam a questão da mulher e abordam tópicos ligados às comunidades indígenas, às pessoas transexuais, entre outros assuntos. A obra Edita (la del plumero), da artista panamenha Sandra Eleta, aborda os clichês relacionados às empregadas domésticas latinas.O olhar e a pose da mulher da fotografia é diferente daquilo que se espera de uma empregada doméstica. Em vez de uma pose subalterna, a emprega doméstica da fotografia ludibria e cativa o espectador ao sentar-se numa cadeira segurando um espanador como se fosse uma rainha sentada num trono.

Sandra Eleta (Panamá, 1942), Edita (la del plumero), 1977

O feminismo tem força aqui nos Estados Unidos desde da década de 1970 e conquistou, e ainda conquista, diversos direitos para as mulheres dentro dos espaços sociais, políticos e profissionais. Na América Latina a questão é mais recente e uma exposição como essa se faz, portanto, ainda mais relevante para um país como Brasil. Muitas das críticas e questões apresentadas pelas artistas da mostra continuam atuais dentro do atual cenário brasileiro. A exposição tem o potencial de informar, questionar, gerar debates e ajudar a promover a consciência sobre a questão de gênero em um país que apresenta a quinta maior taxa de feminicídios e onde se mais mata transexuais no mundo.

Fiquei muito feliz ao saber que a exposição iria para São Paulo, pois além claro do maior número de artistas selecionadas serem brasileiras, muitas das artistas em exposição são ainda pouco conhecidas pelo público brasileiro. Grandes surveys como este são o primeiro passo para que depois artistas menos reconhecidas possam ganhar suas próprias retrospectivas e assim estimular novas pesquisas, publicações, e aquisições para coleções permanentes dos museus brasileiros. A exposição é imperdível e o tema mais pertinente do que nunca.

 

Listo abaixo as outras seções e os trabalhos que mais me chamaram atenção:

A seção Autorretrato trouxe trabalhos de artistas que usaram do autorretrato como uma forma de expressão. As obras questionam noções de beleza e identidade feminina e social. O vídeo da artista peruana Victoria Santa Cruz Me gritaron negra é uma performance que aborda a questão do negro na América do Sul, um assunto que é constantemente negado e desvalorizado pelas culturas dominantes.

Victoria Santa Cruz (Peruana, 1922- 2014), Me gritaron negra, 1978

A seção Resistência e medo tratou da relação entre o corpo e a violência como experiência central. As mulheres eram particularmente vulneráveis durante as ditaduras militares e como expressão de sua resistência política criaram trabalhos apolíticos que tomavam partido contra os métodos estatais de promover o medo. Destacamos o trabalho da brasileira Carmela Gross, cujo obra, um saco corpo bege que parece um colchão, foi feita para protestar contra a violência do estado no Brasil durante a ditatura militar.   . O título Presunto confere significado à obra: Em português presunto é uma gíria para defunto.

Carmela Gross (Brasileira, 1946), Presunto, 1968

Mapeando o corpo trouxe obras experimentais que abordam de forma radical como o corpo feminino é representado, desafiando a biologia e as condições culturais da época. Os trabalhos propõem a emancipação do corpo ao repudiar qualquer forma predeterminada de papel social da mulher. A obra da artista Ana Mendieta,  nascida cubana mas que viveu nos Estados Unidos, documenta uma performance na qual ela mesma corta a barba do seu amigo e a cola na sua própria face.

A seção Feminismo agrupou trabalhos de artistas que se definiram como feministas.

Influenciado por um sentimento anti-imperialista, o feminismo foi visto na América Latina no período como uma ideologia burguesa e estrangeira, e poucas artistas abordaram o assunto abertamente. O México foi o único país a ter um movimento feminista organizado nessa época.

 

O corpo na paisagem apresentou trabalhos que exploram a questão psicológica e intima da experiência da natureza, usando corpo, performance e situações efêmeras para falar sobre a vitalidade e a fragilidade da terra. Epidermic Scapes da artista brasileira Vera Chaves Barcellos, , um grande painel ao nível do solo, é composto por 30 fotografias em preto-e-branco que mostram partes do corpo em close-up . As imagens se assemelham a vistas aéreas de regiões áridas.

Vera Chaves Barcellos (Brasileira, 1938), Epidermic Scapes

Performando o corpo reuniu trabalhos de artistas que usaram seus corpos como material de expressão, para assim explorar temas como tempo, estética, subjetividade e relação com o público.

Um exemplo é a artista chilena-americana Sylvia Palacios Whitman que realizava performances executadas em geral por participantes destreinados que incorporavam adereços encontrados e fabricados, que eram descartados após.

 

Sylvia Palacios Whitman (Chilena-Americana, 1941), Passing Through, 1977 ( Foto da Capa)

O poder das palavras reuniu artistas que criaram formas indiretas de direcionar críticas à difícil realidade política que estavam vivendo. A argentina Marie Orensanz teve que adicionar a letra “e” ao seu nome, quando um dono de galeria ao visitar seu estúdio afirmou que o fato de ela ser mulher era prejudicial ao seu trabalho. Este incidente mudou sua percepção sobre a questão de gênero no mundo das artes.

Marie-Orensanz-Limitada-Limited-1978.-Courtesy-of-Alejandra-von-Hartz-Gallery.

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