Anita Malfatti, uma visionária modernista

Na história da arte brasileira, certos artistas se posicionam como expressão marcante pelo percurso realizado, moldando novas perspectivas interpretativas da realidade humana nas suas entranhas. Refletindo a complexidade da concepção estética de uma época, o artista se empenha na busca de novas linguagens e suportes que lhe possibilitam a concretização de devaneios inimagináveis.

Perceber a sutileza dos laços harmoniosos que evidenciam a magistral combinação existente nas pinceladas de poetas da cor como Anita Malfatti é um privilégio para observadores sensíveis.

O Museu de Arte Moderna – MAM apresenta na Grande Sala uma extraordinária exposição de Anita Malfatti com 70 obras da precursora do modernismo no Brasil. Há 100 anos atrás acontecia a histórica mostra de telas expressionistas realizada em São Paulo, na rua Libero Badaró, 111, em 12 de dezembro de 1917, que desencadeou críticas ferrenhas de Monteiro Lobato, mas mesmo assim Anita se posicionou como uma revolucionária numa época em que predominava uma visão provinciana por parte da sociedade frente a qualquer manifestação artística mais avançada.

A mostra de 1917 representou uma abertura extraordinária para a formação de uma visão inovadora no panorama artístico dos anos iniciais do século XX, com obras de extrema importância como “O Farol” e o famoso “O Homem Amarelo”.

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O Farol, 1915 | O Homem Amarelo, 1917

Tendo um espírito vanguardista com apoio de Menotti del Picchia e Mário de Andrade entre outros expoentes do modernismo, Anita representou um ícone de renovação num momento em que o academismo imperava com toda a sua postura intimidadora. Ela foi o início de uma revolução que se solidificaria futuramente com novas propostas artísticas que abrangiam outras áreas culturais, uma mentalidade moderna, vinculada à criatividade e ao fluxo alucinante do período seguinte à Belle Époque, depois dos anos loucos assim conhecidos que se desfizeram com a I Guerra Mundial (1914-1918).

Mario de Andrade I, 1922

A carreira de Anita foi pontuada de fatos marcantes, o início de seu percurso artístico foi num estágio na Alemanha (1909-1914) onde estudou na Academia Real de Berlim tendo contato com Lovis Corinth, um estudioso da cor, posteriormente passou um período nos Estados Unidos, frequentou o Art Student League, entre outras incursões, culminando com a famosa exposição de 1917, na Paulicéia. Na sequência surge a Semana de 22, em que participou ao lado de artistas como Di Cavalcanti e tantos outros, logo após se entrosa com o Grupo dos Cinco (1918 a 1923) formado por Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia e Tarsila do Amaral que chegava da Europa. Em 1923, parte para Paris com uma bolsa de estudos, encontrando amigos, como Di Cavalcanti, e Brecheret. Viaja pela Itália e encontra outros amigos da Semana de 22, Zina Aita e Yan de Almeida Prado. Expôs em importantes salões de arte parisienses como o Salão de Outono e o Salão dos Independentes, e retorna a São Paulo em 1928, com uma visão bem atualizada das artes.

Mulher do Pará, 1927
Mulher do Pará, 1927

Nos anos 30, sua pintura se atenua, integra a Comissão Organizadora do Salão Revolucionário, onde expõe. Participa da Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM) do 1º Salão de Belas Artes, da 1º Exposição da Família Artística Paulista ao lado de Bonadei, Volpi, Graciano, além de vários outros salões, e publica o artigo “1917” na “Revista Anual do Salão de Maio” (RASM). Em 1940, sua obra “Época de Colonização” é recusada no Salão Oficial de Belas Artes do Rio de Janeiro, rompendo a amizade com Mário de Andrade, por achar que ele tinha recusado a tela.

Viaja por Minas Gerais, conhece as cidades históricas Ouro Preto, Mariana e Congonhas. Em 1945 com a morte de Mário de Andrade, fica tremendamente abalada, pois havia um vínculo de admiração muito forte, indestrutível.

Uma Estudante, 1916

Em 1949, Anita realiza sua primeira retrospectiva no MASP, ocasião em que doou a tela “Uma Estudante” para o acervo da instituição, participou na sequência da 1º Bienal de São Paulo, em 1951, e do 1º Salão Paulista de Arte Moderna. Em 1955, Pietro Maria Bardi organiza uma mostra individual de Anita no MASP denominada “Tomei a liberdade de pintar a meu modo”. Em 1962 participa das comemorações dos 40 anos da Semana de 22 na Petite Galerie e no ano seguinte faz individual na Casa do Artista Plástico e ganha uma sala especial na 7º Bienal de São Paulo.

Morre em 1964, deixando um obra marcante principalmente nos anos heróicos do modernismo.

A importância da obra de Anita é fundamental para se compreender o modernismo no Brasil com todas as suas implicações, sua atitude combativa frente às adversidades, de uma lutadora consciente das suas potencialidades, acrescentou expressividade a um movimento que revolucionou a cultura nacional.

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José Henrique Fabre Rolim23 Posts

Jornalista, curador, pesquisador, artista plástico e crítico de arte, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Unisantos (Universidade Católica de Santos), atuou por 15 anos no jornal A Tribuna de Santos na área das visuais, atualmente é presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), colunista do DCI com matérias publicadas em diversos catálogos de arte e publicações como Módulo, Arte Vetrina (Turim-Itália), Arte em São Paulo, Cadernos de Crítica, Nuevas de España, Revista da APCA e Dasartes.

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