Matisse, revolucionário mestre da cor e da forma
Na história da arte muitos artistas e movimentos são estudados e analisados pela sua importância no decorrer dos séculos, a potencialidade criativa é essencial para o desenvolvimento do patrimônio cultural da humanidade. A arte proporciona revoluções intimistas e coletivas, captando a magia e o mistério do ser humano em dimensões inimagináveis, rompendo barreiras e ampliando os horizontes.
Recentemente o Centro Pompidou em Paris reuniu mais de 300 obras de Matisse da sua última fase de 1941 até sua morte, em 1954, aos 84 anos, que podem ser apreciadas no Grand Palais até 26 de julho. “Matisse 1941-1954″ é uma preciosa mostra cobrindo o período mais produtivo de sua carreira, considerado o auge de sua obra pela intensa liberdade de se integrar ao arrojo das formas e das cores, apesar de sua delicada condição física, afirmava: “gosto da dificuldade”.
Fazendo uma incursão por períodos efervescentes, o percurso de Henri Matisse (1869-1954) atrai a atenção dos historiadores por rivalizar com outros destacados artistas do século XX como Picasso. Sua obra se reveste de grande importância pelas cores e formas, forjou algo poético e lúdico que impressiona pela jovialidade dos resultados. Interessante observar que antes de enveredar pela carreira artística, estudou Direito, trabalhou como auxiliar de advogado em Saint Quentin. A pintura começou em 1890, copiando cromos, estudou em seguida na Academia Julian, depois com Gustave Moreau se aproximando de Albert Marquet. Efetuou cópias no Louvre, viajou pela Bretanha em três períodos diversos. Teve mais interesse por Van Gogh, mas menos por Gauguin, as vivencias artísticas iam moldando as suas preferencias como os anseios criativos. Foi em 1898 que descobre a luz do sul da França, uma atmosfera inigualável, a sua paleta se clareia e começa a desenvolver tons numa intensidade máxima. A partir de 1900, se envolve com a escultura, que significará nos momentos de relaxamento uma substituição momentânea da pintura.

Fama conquistada
Participa do Primeiro Salão dos Independentes e do Salão de Outono, mas foi em 1905 que se torna principal estrela do fauvismo, sua pintura espelha uma emoção de forma franca, transparente, se preocupa em resgatar os azuis belíssimos com vermelhos e amarelos com a mesma intensidade, capta a sensualidade humana, afirma a autonomia da tela pela cor.
A notoriedade adquirida no Salão de 1905 se deveu ao comentário do crítico Louis de Vauxcelles que ao se defrontar com as telas de Matisse, André Derain. Maurice Vlaminck e Albert Marquet expostas estrategicamente, definiu o conjunto como “Gaiola das Feras” (“La Cage aux Fauves”), pela utilização de cores intensas de forma radical chocando o público e a crítica especializada, uma sociedade acostumada com uma pintura mais comportada, não estava preparada para uma selvageria cromática. Matisse foi o grande destaque do evento, se torna o pintor mais importante da Escola de Paris desde a Primeira Guerra Mundial. Em 1906, ele expõe “La Joie de Vivre” (A Felicidade de Viver) que choca pela simplicidade das formas, a audacidade das cores e o uso de uma mitologia laica. Após encontrar Picasso na casa de Gertrude Stein, eles consolidaram uma rivalidade amigável com profundo respeito mútuo. Guillaume Apollinaire, um dos mais atuantes críticos e escritores do começo do século XX, chegou a elogiar num artigo, a pintura do mestre francês em ascensão pela sua notável suavidade.
Obras em Destaque

Em 1908, Matisse pública na “La Grande Revue” suas Notas de um Pintor: Ele sonha numa arte do equilíbrio, da pureza, da tranquilidade qualquer coisa de análogo a uma boa poltrona, mas afirma também a forma lampejante da pintura que deve captar da realidade uma interpretação mais durável não se limitando nas aparências das coisas. Seu trabalho se torna amplamente discutido e ele tem o apoio dos Stein, de Chtchoukine e de Morozov, porém, seus colecionadores franceses são raros. Chtchoukine encomenda para seu apartamento em Moscou, duas grandes composições “A Dança” e “A Música” que lhe permite de simplificar as figuras em vastos planos coloridos: desenho e cor se unindo dinamicamente.
Viajou por alguns países como Espanha, Rússia, Marrocos confirmando seu gosto não só pelo exótico, mas pelas variantes de um decorativo enriquecedor como cerâmicas, ícones e tecidos, elementos que serão integrados em suas telas numa linha sutil com cores audaciosas.
Em 1913, seu “Nu Azul” (Nu Bleu) pintada sete anos antes, faz ainda escândalo no Armory Show pelas suas deformações e seu cromatismo pouco realista. Ele esculpe “La Serpentine” e as suas primeiras versões do “Dorso” (Dos), desenhando intensamente, explora alguns aspectos do Cubismo (Tête Blanche e Rose, 1914). Durante os primeiros anos da Guerra, ele realiza telas maiores como “Le Rideau Jaune”, 1914-1915 (A Cortina Amarela) onde é concebida por uma junção de planos coloridos, uma pura alusão poética.
Entre 1919 e 1920, Matisse inicia seu primeiro período em Nice, intensamente elogiado pela crítica, se sente envolvido por uma energia inovadora concebendo o décor e os costumes para “Le Chant du Rossignol” (O Canto do Rouxinol) de Stravinsky. A luz mediterrânea o lança em permanente desafio, os temas das odaliscas, das mulheres em interiores, vistas de uma janela são trabalhadas através de telas, desenhos, litografias que interagem com o impacto das cores. A proliferação de elementos decorativos, a construção de um espaço de representação sempre mais complexo entre arcadas abertas, espelhos e quadros denotam um envolvimento inovador. A forma feminina, ela mesma incansavelmente repetida não é somente um elemento entrando em composição com os outros. Matisse dizia: “Antes de tudo, eu não crio uma mulher, eu faço um quadro”.
Paralelamente, Matisse elabora várias cabeças esculpidas (Henriette II,1927 e III,1929), onde a organização dos volumes se faz cada vez mais livre. Em 1930, Matisse passa três meses em Tahiti, desenha muito, mas pinta somente uma pequena tela, período no qual acumulou sensações benéficas que lhe serão essenciais no futuro.

Em 1939, a declaração de guerra provocou o regresso de Matisse para a Costa Azul (Cote d’Azur) em Nice depois em Vence, mas em 1941, é submetido a uma grave operação intestinal ao qual se sente beneficiado por ter conquistado uma segunda vida. Após os imprevistos se lança ao novo com tenacidade no trabalho, tanto que sua notoriedade cresce espantosamente. Teve um encontro prazeroso com seu velho amigo Pierre Bonnard que o estimulou a produzir desenhos com motivos aparentemente modestos como flores e folhagens.
Guaches recortados
A partir de 1943, Matisse, executa guaches recortados para o álbum Jazz e descobre “a solução do extremo conflito do desenho e da cor”. Pouco a pouco seus papéis habilmente pintados com guache são recortados, “ele desenha com a tesoura”. O apartamento de Matisse invadido de formas fluidas, antes de serem fixadas, reflete o dinamismo da sua criatividade.

Capela em Vence
Em 1947, se encarrega de decorar uma capela em Vence, trabalho que se prolonga por quatro anos se esforçando em alcançar um acabamento sintético apreciado pelos frequentadores. Concebe todos os elementos (objetos de culto e mantos litúrgicos assim como o caminho da cruz e os vitrais) e é livre em solucionar efeitos os mais sutis sobre a redução do desenho à soberania da linha, da função da luz na evolução espiritual, o acesso a mais extrema simplicidade, que faz dos anônimos as faces da Virgem ou do São Domingos. Dizia Matisse: “Quando entro na Capela, sinto que sou eu todo inteiro que estou lá”. Esta experiência única na história da decoração religiosa ameniza a utilização de formas e cores menos densas: os últimos guaches recortados assumem uma efervescência decorativa equilibrando exuberância e serenidade alcançando uma harmonia que repercutiu em alguns artistas abstratos. Matisse sempre admirou Kandinsky mais foi reticente em consideração à abstração de Sam Francis passando por Frank Stella, mas a arte do mestre francês sempre intrigou os expoentes da arte americana.

Matisse sempre achou ultrapassado incluir o seu nome como mestre do fauvismo, utilizava largas superfícies de papéis coloridos sobre desenhos habilmente elípticos criando obras que redefiniram a linguagem artística.
Doação
Recentemente, a família de Matisse doou ao Museu de Arte Moderna de Paris, 61 obras, entre pinturas, desenhos, litografias, gravuras e uma escultura que retratam a filha do artista francês, Marguerite. As obras pertenciam a Barbara Dauphin Duthuit, companheira de Claude Matisse, neto de Matisse, que faleceu em 2011, em Nova York. Em 2013. Duthuit havia doado ao Centro Pompidou “Marguerite com um Gato Preto” um dos mais conhecidos retratos feitos por Matisse de sua filha.
Infelizmente, Marguerite contraiu difteria com menos de dez anos e necessitou passar por traqueostomia. Durante algum tempo usou blusas de gola alta para disfarçar a cicatriz, como vários retratos mostram. Aos 26 anos, fez uma cirurgia para repará-la. A saúde apesar de frágil não a impediu de integrar-se na resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial.
Foi torturada pela Gestapo e ameaçada de deportação para um campo de concentração nazista. Começou a pintar a participou de exposições coletivas durante a guerra, mas abandonou a pintura para cuidar de seu pai até a morte dele, aos 84 anos, em novembro de 1954. Ela catalogava a obra de Matisse quando faleceu em Paris, em 1982, aos 87 anos.

