Jean Marc NATTIER[1] (1685-1766) DETALHE: Madame Bergeret de Frouville como Diana, 1756. Óleo sobre tela, 136.5x105.1. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/437183 Acesso em: 22 jun. 2020.
Ao longo da História da Arte as Artes visuais procuraram inspiração nos textos mitológicos.
Entre os temas mitológicos, alguns deles relacionam-se à deusa Ártemis, chamada de Diana pelos romanos.
Os poetas e os mais diferentes artistas modernos, a partir do final do Renascimento, no século XVI, apoiados em textos da Antiguidade greco-romana, representam em pinturas, esculturas e gravuras, a jovem Ártemis alta e bela, com os cabelos presos ornados com uma tiara em forma de crescente, cercada por ninfas, correndo pelos bosques, às vezes munida de arco e flecha, descansando das caçadas ou banhando-se.
Canta, musa, a Ártemis, irmã do que fere de longe,
a virgem arqueira que foi nutrida junto com Apolo.
Ela dá de beber a seus cavalos em Meles[2],
Junto ao junco espesso, e depois lança seu carro de ouro velozmente
Através de Esmirna até chegar a Claro, rica em vinhas, onde Apolo, o
Arqueiro do arco de prata
senta-se esperando a Arqueira lançadora de flechas.
Deste modo, eu te saúdo, neste canto, juntamente com todas as deusas.
(HINOS HOMÉRICOS 9, 1-7, 2010, p. 202)
Dá-me todas as montanhas; uma cidade, atribui-ma,
A que desejares, pois raramente Ártemis desce até uma urbe;
Eu habitarei as montanhas e aproximar-me-ei das cidades dos homens
Somente quando as mulheres, atormentadas pelas agudas dores,
Invocarem-me como auxiliar […]
(HINOS DE CALÍMACO: A Ártemis, 18-22, 2012, p. 239)
Na gravura, Diana em seu carro, a deusa comanda o carro de ouro puxado por dois cães, frente a lua brilhante. Abaixo das nuvens encontra-se a silhueta de uma grande cidade moderna, uma entre as trinta que Zeus lhe outorgou, nas ilhas do mediterrâneo, junto a bosques sagrados e altares lhe dedicados. A obra de 1541, foi produzida anos depois da morte do artista MARCANTONIO Raimondi (ca.1480-1534), conhecido como um dos primeiros artistas italianos renascentistas a trabalhar em gravuras com temas mitológicos e religiosos.
Na pintura abaixo, o artista francês François LE MOYNE (1688-1737) representa a história de Diana e Calisto.
Le Moyne foi incluído como membro da Académie Royale de Peinture et de Sculpture[3] no início do século XVIII. Durante o período em que visitou a Itália em contato com a obra de RUBENS[4], Le Moyne se dedicou às cenas de gênero e à decoração dos ambientes internos. Na França, em 1736 foi nomeado pintor oficial de Luís XV, quando efetuou diversos trabalhos em Versailles. Mas foram as obras com cenas idílicas e figuras clássicas de WATTEAU[5], o grande artista do estilo Rococó que influenciaram as suas últimas pinturas, junto à Academia. François BOUCHER[6], reconhecido no mesmo movimento estético, foi um de seus alunos.
A pintura no estilo Rococó, Diana e Calisto, apresenta-se dividida em dois grupos: à direita se encontra Ártemis, em posição mais alta, cercada por outras três ninfas, duas delas com os pés na água. À esquerda Calisto ajoelhada, esconde seu rosto, quando uma das ninfas, saindo da água, lhe puxa a túnica. Ao fundo, entre as árvores, duas pequenas figuras, que podem ser duas outras ninfas, ou representam o momento, anterior, do encontro entre Zeus e Calisto.
Filha de Licaón, rei da Arcádia, segundo Apolodoro (III, 8, 2, p. 180), Calisto é uma das ninfas, companheira de caça de Ártemis, porta a mesma roupa que ela, e como amiga, sua única promessa é permanecer virgem como a deusa.
Um dia, quando o sol quase já se posiciona no horizonte, passeando sozinha, Calisto entra no bosque próximo à casa do pai, na Arcádia, terra muito amada por Zeus. No interior da mata, na penumbra das árvores frondosas, a bela ninfa, retira a aljava e o arco flexível de suas costas e deita-se sobre a relva que cobre o chão, pousando a cabeça sobre a próprio estojo de setas. Zeus que passa ali no momento, enamora-se imediatamente da donzela. Para não assustar a virgem, ardiloso, assume a feição e a maneira de se vestir de Ártemis, segundo alguns, e de Apolo segundo outros. (APOLODORO, III, 8, 2, p. 180)
Alegre com a chegada da amiga, que a abraça e a beija, Calisto se prepara para contar sobre suas caçadas. Mas, logo se surpreende com os beijos nada castos que se sucedem.
Ela debate-se. Mas que donzela poderia vencer um homem,
ou quem poderia vencer a Júpiter? Vitorioso, Júpiter
eleva-se ao céu. Ela odeia a sombra e a floresta cúmplice.
Ao partir daí, quase se esquecia de levar a aljava
e as setas e o arco que tinha pendurado.
e as setas e o arco que tinha pendurado.
(OVÍDIO, II, 436-440, 2017, p. 131)
Envergonhada, ao se unir ao grupo de ninfas, Calisto mal suspende o olhar. Percebe, no entanto, com o passar dos dias que de nada desconfiam, inclusive Ártemis vive-lhe chamando para aproximar-se e banhar-se ao seu lado. Os meses correm, e um dia de verão, acompanhada das ninfas, a deusa encontra no interior do bosque uma fonte de água cristalina, perfeita para se refrescar. Todas correm a retirar as roupas e os apetrechos de caça.
Apenas uma busca razões de demora. Enquanto hesita, é-lhe
retirada a túnica e, uma vez retirada, deixa nu o corpo e o crime.
Ao querer, aturdida, tapar com as mãos o ventre, diz-lhe Cíntia,
a deusa: “Sai daqui, não manches a sagrada fonte.”
E ordenou-lhe que se afastasse do seu séquito.
(OVÍDIO, II, 461-465, 2017, p. 133)
Mais ao fundo da grande e escura mata, Calisto se refugia da implacável Ártemis e se esconde da fúria da esposa de Zeus, que espera por sua vingança. Basta o filho do adultério, Árcade[7], nascer e chorar, e sem mais demora, Hera transforma Calisto em uma negra ursa. Imensas patas com garras envolvem seu belo e delicado corpo. No lugar da boca beijada por Zeus encontra-se um longo focinho. A voz melodiosa da ninfa agora apresenta um som rouco e apavorante. Contra ela são disparadas ligeiras flechas. Há quem diga que Ártemis disparou suas flechas contra o animal, por não haver guardado sua virgindade. (APOLODORO, III, 8, 2, p. 180)
APOLODORO. Biblioteca Mitológica. Tradução Julia García Moreno. Madrid: Alianza Editorial, 2016. 340p.
CASSIRER, E. Linguagem e Mito. Tradução J. Guinsburg, 4ª edição. São Paulo: Perspectiva, 2013. 128p.
COMMELIN, P. M. Mitologia grega e romana. Tradução Eduardo Brandão. 4ª edição. São Paulo: Wmf Martins Fontes, 2011. 440p.
HESÍODO. Teogonia. Organização e tradução Christian Werner. São Paulo: Hedra, 2013. 103p.
HINOS DE CALÍMACO. In WERNER, Erika. Os hinos de Calímaco: Poesia e Poética. São Paulo: Humanitas, 2012. 464p. p. 223-268.
HINOS HOMÉRICOS. Tradução, notas e estudo de Edvanda Bonavina da Rosa et al. São Paulo: UNESP, 2010. 575p.
HOMERO. Ilíada. Tradução e introdução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. 536p.
JANSON H. W. História da Arte. Tradução J.A. Ferreira de Almeida; Maria Manuela Rocheta Santos. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 823 p.
LOS ANGELES COUNTY MUSEUM OF ART, Los Angeles, EUA. Disponível em https://collections.lacma.org/node/170993 Acesso em 22 jun. 2020.
LOS ANGELES COUNTY MUSEUM OF ART, Los Angeles, EUA. Disponível em Disponível em https://collections.lacma.org/node/198957 Acesso em 22 jun. 2020.
MARTINI, F. R. Sans. Virgem Ártemis: protetora e implacável. Revista Interdisciplinar. Art&Sensorium, Curitiba, v.5, n.2, p. 073 – 092 Jul. – Dez. 2018. Disponível em: http://periodicos.unespar.edu.br/index.php/sensorium/article/view/2340/1673 Acesso em 22 jun. 2020.
OVÍDIO. Metamorfoses. Tradução Domingos Lucas Dias. São Paulo: Editora 34, 2017. 909 p.
THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/437183 Acesso em: 22 jun. 2020.
[1] Pintor preferido das filhas de Luís XV, Jean-Marc NATTIER (1685-1766) representou-as em diferentes ocasiões, ambientadas, principalmente, em cenários mitológicos.
[2] O rio Meles encontra-se próximo à Ismirna, na Ásia Menor.
[3] A Académie Royale de Peinture et de Sculpture foi fundada em 1648 por Luís XIV. Fazia parte do currículo a instrução prática e teórica, baseado num sistema de normas que eram extremamente rígidas e os temas, por ordem de valor, em tabela própria, partiam da história greco-romana e terminavam na natureza morta.
[4] Na obra Barroca do artista flamengo, Peter Paul RUBENS (1577-1640), as alegorias, os episódios bíblicos, as cenas mitológicas, os eventos históricos, os retratos e as paisagens se destacam vivas e atuais, nas telas gigantescas. Famoso, no seu estúdio na Antuérpia, foram treinados inúmeros artistas. Mais de Rubens em: https://arteref.com/artigos-academicos/peter-paul-rubens/
[5] Belas damas e enamorados graciosos circulam em saraus musicais e alegres piqueniques nas obras de Jean Antoine WATTEAU (1684-1721). Mais de Watteau em: https://arteref.com/artigos-academicos/o-rococo-na-franca/
[6] Ainda muito jovem, François BOUCHER (1703 -1770) frequentou a oficina do artista François LE MOYNE (1688-1737) entrando em contato com os últimos suspiros do Barroco e as novidades de uma arte mais delicada e alegre. Logo depois Boucher trabalhou ao lado de Watteau, reproduzindo algumas de suas pinturas em gravuras. Mais de Boucher em: https://arteref.com/artigos-academicos/o-rococo-na-franca/
[7] Em Apolodoro, após a morte de Calisto, Árcade é salvo por Zeus, confiando-o a Maia. Em Ovídio, Zeus salva os dois de um conflito fazendo deles constelações vizinhas, Ursa Maior e seu guardião Arcturo.
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