Artigos Acadêmicos

Naturezas-mortas no século de ouro holandês


O período grandioso e produtivo da arte holandesa, conhecido por Século de Ouro dos Países Baixos ocorreu por volta de 1584 a 1702, no qual a região se tornou uma das mais ricas do mundo, com o florescimento do comércio, da ciência e principalmente, da cultura, que patrocinada por ricos comerciantes passou por extremo desenvolvimento, produzindo grandes nomes de artistas no período.

Independente da arte italiana produzida nos países católicos, a arte do século de ouro retrata a vida simples e objetiva do povo holandês, com formas, cores e lugares familiares […] em que cada espectador pode confirmar por si mesmo, o que dá a essa pintura a qualidade especial de verdade […] (HAUSER, 2003, p. 453)

Inicialmente integrada às cenas de gênero1, a natureza-morta2 se apresentava, geralmente com um simbolismo disfarçado, que iam dos motivos de frutas como o sangue de Cristo, a casca de uma noz, como a madeira da cruz, e assim por diante.

Com a independência dos temas, a natureza-morta considerada como acessório, ganha significado e importância. A fartura de alimentos e bebida, jarras com flores, cestas de frutas, taças de cristal e pratos de prata finamente decorados, remetem ao ambiente doméstico e mostram, ao povo neerlandês e ao mundo, a abundância do século nos Países Baixos.

Instrumentos musicais, restos de comida, livros, pequenos insetos, frutas descascadas, copo tombado, velas apagadas e caveiras3 lembram que a vaidade é efêmera.

Os arranjos de flores, de acordo com Janson (1992) certamente remontam às origens simbólicas, mas a introdução de borboletas, caracóis, ou até mesmo a escolha de determinadas flores poderia estar limitada a encantar os olhos. Nesse caso, os arranjos florais indicariam, simplesmente, a vitalidade barroca no jogo de sombra e luz de suas pétalas e folhas.

Além disso, os quadros de natureza-morta revelariam os interesses culturais e econômicos da sociedade onde viviam os artistas. De acordo com Schneider (1999) as naturezas-mortas com peixes eram quase sempre praticadas em Haia onde existia um abundante mercado; a abastada Haarlem era uma cidade particularmente sensível ao requintado gosto das pinturas com ‘pequeno almoço’ e Utrecht preferia as naturezas-mortas com flores.

Embora a natureza-morta tenha sido estabelecida como gênero de pintura, a Académie Royale de Peinture et de Sculpture de Paris4, criada em meados do século XVII, atribuiu às representações inanimadas a categoria mais baixa na escala de valor de uma pintura.

Essa classificação não impediu, no entanto, que muitos artistas se dedicassem ao gênero, que sempre foi empregado, desde a época greco-romana, passando por períodos de total obscuridade. Executada por volta de 1597, A Cesta com frutos5, de Caravaggio, é um exemplo de quanto os artistas barrocos se dedicaram ao gênero, tão difícil de pintar quanto um quadro com figuras e tão belo quanto qualquer outra obra-prima.

Entre os artistas, que deram prioridade à pintura de naturezas-mortas durante o Século de Ouro na Holanda, encontram-se: Willem Claesz. HEDA (ca.1593/94-ca.1680/82), Pieter CLAESZ (ca. 1596/97-1660), Willem KALF (1619-1693), Jan Davidsz. DE HEEM (1606-1684), Balthasar van der AST (1593/94-1657), Otto Marseus van SCHRIECK (1619/20-1678) Abraham van BEYEREN (1620/21–1690) e Abraham MIGNON6 (1640-1679)


Pieter CLAESZ (ca. 1596/97-1660)

Pieter Claesz nasceu, provavelmente em Berchem, próximo da Antuérpia. Após se casar em 1617 mudou-se para Haarlem e ali viveu até morrer. Por isso, também é conhecido por Pieter Claesz van Haarlem.

A obra de Claesz apresenta uma paleta limitada de tons cinza e marrons em que os objetos e texturas são cuidadosamente trabalhados, evitando as composições lotadas.

A maioria dos quadros pintados representam o tema transitório – Vanitas – e as mesas postas com os mais simples objetos aos mais luxuosos e importados, castanhas e condimentos, cestas de frutas e tortas, porcelanas e cristais.

Dentro do conceito de naturalismo do estilo Barroco, Claesz estudou obsessivamente a qualidade material dos objetos para reproduzi-los com total meticulosidade, prevendo os efeitos de luz e sombra e o impacto emocional, levando o observador para dentro do ambiente, ao abrir a composição no espaço pictural.

Pieter CLAESZ (ca. 1596/97-1600) Vanitas natureza-morta com o Espinario7, 1628. Óleo sobre painel, 71.5×80.5. Rijksmuseum, Amsterdam, Holanda.

O quadro apresenta espalhados sobre a mesa, coberta por um tecido pesado e escuro, os materiais de um pintor: a escultura em gesso do Espinario, um crânio e diversos ossos, um relógio, livros, uma lâmpada de óleo, uma paleta de pintor com tinta, pincéis e pano de limpeza, um copo de cristal e o tento8 apoiado nela.

Sobre o chão estão espalhados instrumentos musicais, um livro aberto com um desenho de observação, uma pena, um capacete e uma armadura. À direita uma cadeira muito comum na época.

Comum nas pinturas holandesas, a escrita, o aprendizado, o domínio das artes, os reflexos no vidro, o tabaco, o crânio, são símbolos da atividade humana, em última análise: tudo é vaidade, pois tudo passa, a vida é mera ilusão.


Jan Davidsz. DE HEEM (1606-1684)

Jan Davidsz. de Heem trabalhou em Leiden e Utrecht, onde aprendeu a pintar naturezas-mortas com Balthasar van der AST9 (1593/94-1657)

A maioria de suas obras apresentam arranjos de frutas, livros, instrumentos musicais, pratos de metal, copos de vinho e crânios, classificados genericamente por Vanitas. Após visitar a Antuérpia, de Heem voltou a Utrecht fortemente influenciado pelas pinturas de flores e frutas, dedicando-se somente a elas. Um de seus alunos foi Abraham MIGNON (1640-1679), que também se dedicou às naturezas-mortas com flores e frutas.

Jan Davidsz. DE HEEM (1606-1684) Natureza-morta com flores em um vaso de vidro, ca. 1650-1683. Óleo sobre metal, 54.5×36.5. Rijksmuseum, Amsterdam, Holanda.

Natureza-morta com flores em um vaso de vidro sobre uma base de pedra. O arranjo floral apresenta: rosas nos tons branco e rosa, cravo vermelho mesclado de branco, galhos de trigo, tulipas matizadas, um galho de ervilha-doce, Anthriscus cerefolium, madressilva vermelha, Centáurea vermelha, rosa Gelderse, Anêmonas, borboleta Vanessa atalanta, lagartas, besouros, formigas e outros insetos, aranha e um caracol de jardim.


Willem CLAESZ.HEDA (ca.1593/94-ca.1680/82)

Nascido em Haarlem, Willem Claesz. Heda passou toda sua vida na terra natal: Haarlem. Uma de suas primeiras obras conhecidas é Vanitas10, em que representa uma bacia em cobre brilhante com frutas, um copo de cristal, um crânio, cachimbos, tabaco, prato e faca, todos elementos que compõem o tema, símbolos austeros da brevidade da vida.

A partir de partir de 1631, Claesz passou a fazer parte da Guilda de Saint Luke11 de Haarlem e lá permaneceu por anos ensinando.

Suas composições mostram uma paleta monocromática de cinzas e marrons terrosos e a aplicação virtuosa na representação das texturas, brilho, reflexo e opacidade dos objetos dispostos em exibição.

As obras de Claesz apresentam quase sempre os mesmos objetos dispostos de maneiras diferentes, em formatos verticais e horizontais. Na última fase foram incorporados objetos luxuosos, vidros venezianos e porcelanas orientais.

Willem Claesz. HEDA (ca.1593/94-ca.1680/82) Natureza-morta com caneca dourada de cerveja, 1634. 44.5×62. Rijksmuseum, Amsterdam, Holanda.

Natureza-morta com uma taça tombada sobre a mesa, um copo de vidro, uma caneca dourada com tampa aberta, um prato de estanho com uma faca pousada e um limão, em parte, descascado. Castanhas quebradas estão espalhadas sobre os dois lados da mesa.

O destaque dessa pintura é a capacidade do artista representar as diversas texturas dos objetos, sejam a prata, o cobre dourado, a transparência do vidro e o brilho do estanho. Sem dúvida, para o artista além dos objetos esteticamente distribuídos, a finalidade era associar o prazer visual à ilusão dos brilhos, transparências, reflexos e sabores.


Referências

GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: LTC, 2000. 714 p.

HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. Tradução Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 1032 p.

JANSON H. W. História da Arte. Tradução J.A. Ferreira de Almeida; Maria Manuela Rocheta Santos. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 823 p.

MUSEI CAPITOLINI, Roma, Itália. Disponível em: http://www.museicapitolini.org/es/percorsi/percorsi_per_sale/appartamento_dei_conservatori/sala_dei_trionfi/spinario Acesso em: 16 nov. 2019.

MUSEUM BREDIUS, Den Haag, Holanda. Disponível em: https://en.museumbredius.nl/product/heda-willem-claesz-vanitas/ Acesso em: 10 nov. 2019.

RIJKSMUSEUM, Amsterdam, Holanda. Disponível em: http://hdl.handle.net/10934/RM0001.COLLECT.8144 Acesso em: 07 nov. 2019.

RIJKSMUSEUM, Amsterdam, Holanda. Disponível em: http://hdl.handle.net/10934/RM0001.COLLECT.6677 Acesso em: 07 nov. 2019.

RIJKSMUSEUM, Amsterdam, Holanda. Disponível em: http://hdl.handle.net/10934/RM0001.COLLECT.10661 Acesso em 07 nov. 2019.

RIJKSMUSEUM, Amsterdam, Holanda. Disponível em: http://hdl.handle.net/10934/RM0001.COLLECT.8635 Acesso em 07 nov. 2019.

SCHNEIDER, Norbert. Naturezas-mortas. Tradução Adelaide C. Rodrigues; Teresa Carvalho. Lisboa: Taschen, 1999. 216 p.


1 De modo geral, cenas de caça e cenas de cozinha apresentavam composições em que a natureza-morta aparecia com um simbolismo disfarçado.

2 No século XVII na Holanda, para a devida classificação das pinturas eram usados termos como: bancket (banquete), ontbijt (pequeno almoço), fruytagie (com frutos) e para a vida em suspensão ou objetos inanimados foi adotado o termo stilleven, o qualdeu origem à denominação inglesa de still life. Na França, no século XVIII, foi adotada a expressão: nature morte.

3 Crânios e caveiras fazem parte da iconografia do Renascimento nos séculos XVI e XVII, associados às pinturas de gênero e natureza-morta, principalmente na Alemanha e Países Baixos. Na História da Arte o emprego de caveiras recebe o nome em latim de Vanitas, interpretada como brevidade da vaidade. Frutas apodrecidas, fumaça, relógios, flores colhidas e instrumentos musicais, presentes nas naturezas-mortas, algumas vezes, são considerados Vanitas, mas falta consenso na interpretação.

4 A Académie Royale de Peinture et de Sculpture de Paris foi fundada em Paris em 1648 por Luís XIV ainda muito jovem, e foi dirigida pelo pintor oficial da corte, Charles LE BRUN (1619-1690). Fazia parte do currículo a instrução prática e teórica, baseado num sistema de regras e no racionalismo. As normas eram extremamente rígidas e os temas, por ordem de valor, em tabela própria, partiam da história greco-romana e terminavam na natureza-morta.

5 Michelangelo Merisi da CARAVAGGIO (1571-1610) Cesta de frutas, ca. 1597-1600. Óleo sobre tela, 54,5×67,5. Veneranda Biblioteca Ambrosiana, Milão, Itália. Executada com grande realismo, a pintura mostra uma cesta de vime repleta de frutas e folhas e pode ser interpretada, além do simples naturalismo, como a passagem inexorável do tempo nas folhas secas e nos frutos frescos colocados ao lado daqueles que são comidos por vermes.

6 Nascido na Alemanha, Abraham MIGNON (1640-1679) viveu em Utrecht, onde se juntou à Guilda de Saint Luke em 1669. Sua obra recebeu influência do artista Jan Davidsz. DE HEEM (1606-1684) com quem trabalhou por anos e abrange buquês de flores, guirlandas e naturezas-mortas com frutas, florestas, caça e pesca.

7 Escultura helenística de um jovem com as pernas cruzadas removendo um espinho do pé. Uma das cópias se encontra no acervo do Musei Capitolini, Roma, Itália: Escultura em bronze, século I a.C., 73 cm de altura.

8 Vara em madeira de cerca de um metro de comprimento com a ponta coberta com material suave. Utilizada principalmente para pintar com tinta a óleo. É conhecida em português como Tento e em inglês como Mahl-stick.

9 Pouco se conhece sobre a origem de Balthasar van der AST (1593/94-1657). Sabe-se que em 1619 ele se juntou a Guilda de Saint Luke de Utrecht e treinou alguns alunos, entre eles Jan Davidsz. DE HEEM (1606-1684). Em 1632 ele se mudou para Delft se juntando a Guilda de Saint Luke da cidade. Sua obra apresenta uma pintura precisa de arranjos de flores e frutas, permeados por insetos.

10 Willem CLAESZ. Heda (ca.1593/94-ca.1680/82) Vanitas, 1628. 45,5×69,5. Museum Bredius, Den Haag, Holanda. Disponível em: https://en.museumbredius.nl/product/heda-willem-claesz-vanitas/ Acesso em: 10 out. 2019.

11 A Guilda de Saint Luke representava diferentes atividades e o governo regulava o comércio, investindo no mestre, que se responsabilizava pelos aprendizes e pela venda das pinturas e gravuras ali produzidas. A guilda também protegia os membros contra as importações, controlando o mercado de arte, forjando conexões com autoridades cívicas e outras guildas.

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Fatima Sans Martini

Mestre em Artes Visuais com Abordagens Teóricas, Históricas e Culturais pela UNESP. Pós-graduação em História da Arte pela FAAP-SP. Formada em Artes Plásticas. Experiência profissional: Projetista em Design de Interiores. Experiência acadêmica: nas disciplinas de Projetos, Desenho, História do Mobiliário e História da Arte nos cursos de Arquitetura e Design de Interiores. Professor das disciplinas de Estética e História da Arte Mundial e Brasileira no Curso de Artes da Unimes, Universidade Metropolitana de Santos, SP

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