Daniel Feingold e José Pedro Croft na Galeria Raquel Arnaud

0
424

A Galeria Raquel Arnaud apresenta uma exposição de pinturas de Daniel Feingold, comemorando os 25 anos do artista em seu elenco. Em diferentes suportes, escalas e materiais, o pintor carioca apresenta um conjunto de obras que estabelece narrativas construtivistas entre o espaço e seus desdobramentos, planos cromáticos e suas dobraduras, revelando um jogo pictórico fundamental à compreensão da poética do artista.

No térreo, Feingold exibe uma seleção com cerca de sete obras da série “Estrutura”. São pinturas em grande formato realizadas com esmalte sintético sobre terbrin. O esmalte sintético, tinta de matéria espessa e de resolução direta e rápida, é utilizada pelo artista desde o início da década de 90, quando ganhou uma bolsa de estudos do governo brasileiro para fazer o mestrado no Pratt Institute, em Nova York.

Curiosamente, foi numa exposição na Galeria Raquel Arnaud, em 1998, a primeira vez que Feingold apresentou seus trabalhos com esse material.

O uso do esmalte sintético se opunha à pintura diáfana produzida até então. A ambição pela estética da pureza, segundo o artista, deu lugar à busca por uma unidade pictórica que parte do que o crítico Luiz Camillo Osório chamou de “acaso controlado”.

Daniel Feingold não usa pincel. Seu método consiste em escorrer o esmalte sintético do topo das telas através de uma lata com um bico na parte superior. É o gesto de sua mão que vai determinar a quantidade de tinta despejada para tentar conduzir aquilo que é incerto. A pintura ocorre nesse processo original, onde a geometria ao mesmo tempo organiza e confunde o olhar, criando um jogo óptico no qual não se consegue distinguir figura, fundo ou mesmo os limites das linhas criadas pelo escorrimento.

 

Segundo Paulo Sergio Duarte, que assina o texto da exposição, “Há toda uma paciência e uma espera. Há um tempo contido em cada linha de cor que se derrama sobre a superfície. Quando o vemos, parece congelado, mas não está; essa queda de cada linha, em direção ao limite do quadro, nos transmite um lento sentir que nos penetra e nos ensina a não aderir aos sôfregos apelos do cotidiano”, afirma o crítico.

 

Já no piso superior estão trabalhos em pequena escala, a maioria produzida em 2018. São cerca de 12 obras da série “Pinturinhas”, realizadas em bastão a óleo sobre tela e mais 12 desenhos em bastão a óleo sobre papel. Segundo o artista, essas obras são uma espécie de reação subjetiva ao comportamento sempre objetivo do esmalte industrial. Uma necessidade de criar situações estéticas mais afetivas com uma matéria clássica, a tinta à óleo, que se opõe completamente ao caráter industrial do esmalte sintético. Se nas “Pinturinhas” o que interessa é a liberdade pictórica e cromática, a convulsão e permissão ao erro no gesto realizado com o bastão, nos desenhos o que se vê é uma continua exploração acerca das formas. São obras de organização mais contida, concretas, que revelam como a formação de arquiteto permite pensar a arte de uma forma não desconectada da arquitetura e do design.

Daniel Feingold

Daniel Feingold (Rio de Janeiro, 1954), vive e trabalha no Rio de Janeiro. Formou-se em Arquitetura e Urbanismo nas Faculdades Integradas Silva e Souza, em 1983. Fez diversos cursos, entre eles o de História da Arte com o crítico Ronaldo Brito, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (1988-1992), o de Teoria da Arte e Pintura na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro (1989-1990), e o “Núcleo de Aprofundamento”, programa de um ano no estúdio de pintura dessa mesma Escola (1991). Em 1993 ganhou uma bolsa de estudos do governo brasileiro para fazer o mestrado no Pratt Institute, em Nova York. Desde 1991 realizou várias exposições individuais, como “Projeto Macunaíma”, no Instituto Brasileiro de Arte Contemporânea (Ibac) do Rio de Janeiro (1992), “Espaço Empenado”, no Paço Imperial (Rio de Janeiro, 2002), “Pintura”, no Centro Universitário Maria Antonia (São Paulo, 2003), e na Galeria Raquel Arnaud, em 1996, 1999, 2002 e 2006. Em 2011, expôs individualmente no Atelier Sidnei Tendler, em Bruxelas, na Bélgica. Também participou de exposições coletivas, como “Aprofundamento”, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (Rio de Janeiro, 1991); 15º Salão Carioca e 17º Salão Nacional de Artes Plásticas (Rio de Janeiro, 1991), tendo obtido em ambas o 1º prêmio; “Crossing Lines – Art in General”, em Nova York; “O Beijo”, no Paço Imperial (Rio de Janeiro, 1998); “Gestural Drawings”, na Neuhoff Gallery (Nova York, 2000), e 5ª Bienal do Mercosul (Porto Alegre, 2005). Em 2007 integrou a mostra coletiva do “Minus Space” (New York based website & gallery, do qual é membro desde 2003), em Sydney, na Austrália. Em 2010 participou de coletiva no Centro de Arte Maria Teresa Vieira, Rio de Janeiro. A Galeria Raquel Arnaud representa Feingold desde 1993.

 

José Pedro Crof: Um corpo impermanente

Convidado por Daniel Feingold, o artista plástico português José Pedro Croft (Porto, 1957), um dos maiores expoentes da arte europeia, expõe na galeria Raquel Arnaud, desenhos, gravuras e duas esculturas inéditas projetadas para a exposição.

A exposição ”Um corpo impermanente”, em parceria com a galeria carioca Mul.ti.plo Espaço Arte, é, na verdade, constituída de trabalhos de arte que como corpos se medem com a nossa própria escala e usam a arquitetura como mediação.

O espaço da galeria interessa particularmente a Croft, pelas particularidades que traz.

Nesse mergulho, os trabalhos bidimensionais (gravuras e desenhos) tentam fixar uma forma, delimitá-la, trabalho inglório, pois ainda não é, ou que já não é – comenta o artista.  Afinal são corpos em construção, compostos por planos e linhas. Vetores que se complementam, e se anulam simultaneamente.

A partir da mesma estrutura que se repete e altera,  num caminho que se pretende estreito, para  daí ampliar possibilidades do espectador.

Há também duas obras tridimensionais. Uma escultura que é como uma coluna, cruzamento de dois planos transparentes, ergue-se de forma obliqua a partir do chão, quase tocando o teto da galeria. Elementos em vidro, delimitam o espaço “interior” desta cruz, jogos de falsas simetrias, de obstrução com transparências e reflexos.

Esse corpo impermanente, frágil e maior, contido provisoriamente pela arquitetura.

Uma escultura, esta de canto repete uma cruz, que se agarra à arquitetura como uma prótese. O vazio e  os espelhos  rebatem e multiplicam a estrutura. Ao mesmo tempo são ativadas  e deslocadas porções de espaço. Pela altura em que a obra está instalada, o nosso corpo fica diretamente envolvido.

O crítico Luiz Camillo Osório olhando suas obras recentes, vê a presença de um pensamento arquitetônico às avessas, em que a gravidade é enfrentada em nome da leveza e de uma espécie curiosa de fabulação material: no qual os materiais usados parecem contrariar sua vocação original e assumem sempre uma perversão espacial, apostando nos vazios e nos espelhamentos, nos fazendo ver possibilidades do material e do espaço a sua volta, que de inicio pareciam-lhes vedadas, completa o professor.

 

 

Sobre o artista:

 

José Pedro Croft (Porto, 1957) vive e trabalha em Lisboa. Estudou pintura na ESBAL (Escola Superior de Belas Artes de Lisboa) e escultura com João Cutileiro. A sua obra transita sem hierarquias entre escultura, desenho e gravura.

Realizou diversas exposições individuais e coletivas, desde 1980. Está representado nas seguintes coleções: Centro de Artes Visuales Fundación Helga de Alvear (Espanha), Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian (Portugal), Fundação EDP (Portugal), Fundação Luso-Americana (Portugal), Fundação de Serralves (Portugal), Secretaria de Estado da Cultura (Portugal), Fundació La Caixa (Espanha), Caixa Geral de Depósitos (Portugal), Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía (Espanha), Museu Berardo (Portugal), Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (Brasil), Pinacoteca do Estado de São Paulo (Brasil), Caja Madrid (Espanha), Banco de Espanha (Espanha), Banco Central Europeu, Sammlung Albertina (Áustria), Centre Georges Pompidou (França).

No Brasil realizou ainda individuais no MAM – RJ (2006), Pinacoteca SP (2009), Paço Imperial RJ (2015), Capela do Morumbi, SP (2015).

Jose Pedro Croft representou ao Portugal na Bienal de Veneza 2017, com curadoria de João Pinharanda.

 

 

Galeria Raquel Arnaud

Exposições:  Estruturas e Pinturinhas de Daniel Feingold e Um Corpo Impermanente, de José Pedro Croft

Abertura: 08 de novembro, às 19h

Visitação: de 09 de novembro a 26 de janeiro de 2019

De segunda a sexta, das 10h às 19h, sábado, das 12h às 16h.

Rua Fidalga, 125 – Vila Madalena – Fone: 11. 3083-6322

Imagens: https://bit.ly/2DbPlhN

Artigo anteriorCarmen, a grande pequena notável
Próximo artigoVeja quem esteve na abertura de Impressão Vegetal na galeria Bolsa de Arte
Estudou cinema na NTFS( UK), Administração de Empresas na FGV e Química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil desde então. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo e pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil: Um local para unir pessoas com um mesmo interesse, a arte contemporânea. Faz o contato e organiza encontros com os curadores, artistas e colecionadores que representam o conteúdo do qual falamos no Arte Ref

Comente:

Please enter your comment!
Please enter your name here