Filosofia

25 contos de sabedoria para você ler para toda a família

Por Paulo Varella - fevereiro 10, 2024
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Separamos 25 contos de sabedoria divertidos e perfeitos para você ler sozinho ou para os seus filhos na hora de dormir. Eles pertencem ao filósofo oriental Nasrudin.


Quem foi Nasrudin?

É considerado um filósofo e sábio populista, lembrado por suas histórias engraçadas e anedotas. Acredita-se que tenha nascido no século XIII em Akshehir, na atual Turquia.

Originário do folclore da Turquia, o personagem Nasrudin é um mulá (que em árabe significa “mestre”). É um herói curioso: parece ingênuo, mas é mais esperto do que todos nós. Alguns de seus contos são dignos de um verdadeiro sábio oriental, com enigmas lógicos e soluções mirabolantes. Outros são casos de simpática malandragem, de confusões que só se resolvem com muita esperteza.


Nasrudin-em-cima-de-um-burro

1) O Anúncio

Certa vez, Nasrudin estava na praça do mercado conversando com as pessoas e em determinado momento ele anunciou:

– Amigos deste lugar! Querem conhecimento sem dificuldade, verdade sem falsidade, realização sem esforço e, progresso sem sacrifício?

– Logo, havia uma multidão em sua volta gritando:

– Queremos, queremos!

Então, Nasrudin disse:

– Eu também.

Podem confiar em mim, contarei a vocês tudo a respeito… caso algum dia eu descubra algo assim.


2) Nasrudin foi processado

Nasrudin ia pela cidade dizendo que:
— os sábios desta cidade, colocados juntos, não sabem nada.
Um dia, um grupo deles levou Nasrudin ao tribunal e exigiu que ele voltasse atrás em sua declaração ou senão enfrentaria um castigo. 
— Está bem — disse Nasrudin.
Então, ele apresentou a cada um deles um pedaço de papel e lápis. Depois comentou:
— Agora, cada um de vocês deve escrever uma resposta à seguinte pergunta: O que é merda?
Todos eles escreveram uma resposta e entregaram-nas ao juiz, que as leu em voz alta.
O cientista escreveu que merda é uma composição de água e alimentos desperdiçados.
O filósofo escreveu que é uma manifestação de um ser vivente relacionada aos ciclos e mudanças dos temas predominantes do universo.
O médico escreveu que é a matéria que deve ser passada através do corpo como parte da regularidade dos intestinos e da boa saúde.
O líder religioso escreveu que é um símbolo de nossos pecados passando através do nosso corpo.
A vidente escreveu que é material que pode ser usado para dizer nosso futuro.
Depois de ouvir essas respostas, Nasrudin comentou com o Juiz:
— O Senhor vê o que quero dizer? — e concluiu — todos esses sábios colocados juntos não sabem merda nenhuma.


3) O hospitaleiro Nasrudin

Certo dia, Nasrudin estava de gozação com pessoas de um grupo sobre como era a sua tremenda hospitalidade. Uma das pessoas, ansiosa por fazer com que Nasrudin provasse aquilo que falou sobre si mesmo, perguntou:
 Bem! Você levará todos nós para a sua casa e nos brindará com uma refeição, certo?
Nasrudin concordou e conduziu o grupo no sentido de sua casa. Ao chegar lá, ele disse para eles:
 Esperem aqui fora para que eu possa fazer com que minha esposa saiba o que está acontecendo.
Ele entrou e falou com ela. Ela então respondeu, dizendo:
Nós não temos comida nenhuma. Você deve mandá-los embora!
Tenho certeza de que não posso fazer isso! 
ele respondeu fazendo um grande alarme 
minha reputação sobre a hospitariedade está aqui em jogo!
 Bem, sua esposa disse, esconda-se lá em cima, e se eles começarem a chamar por você, eu lhes direi que você não está aqui.
Então, Nasrudin fez o que ela disse e deixou seus convidados esperando do lado de fora.
Depois que algum tempo se passou, eles ficaram muito impacientes e começaram a bater na porta e chamando pelo seu anfitrião.
 Nasrudin! Nasrudin! eles gritavam.
A esposa de Nasrudin abriu a porta e disse para eles:
 Nasrudin não está aqui.
 Isso não faz nenhum sentido! um deles respondeu.
 Afinal de contas, nós vimos ele entrar. Estamos esperando aqui, nesta porta, este tempo todo.
Nasrudin, assistindo a tudo do andar de cima, não conseguiu se conter e, debruçando-se na janela, gritou:
 Eu poderia ter saído pela porta de trás, não poderia?


4) Nasrudin morre

Nasrudin era muito velho e estava deitado em sua cama, prestes a morrer a qualquer momento.
Ele disse para sua mulher: – Porque você está vestida de preto e olhando tão triste? Vá vestir sua melhor roupa, arrume o seu cabelo e sorria!
– Nasrudin, – ela respondeu chorando – como pode você me pedir para fazer uma coisa dessa? 
– Sim, – Nasrudin disse – existe uma razão pela qual eu fiz o meu pedido. O Anjo da Morte estará aqui em breve. Se ele ver você toda vestida e bela, talvez ele me deixará e em vez disso levará você.
E depois de dar um pequeno sorriso, Nasrudin morreu.


Nasrudin-montado-num-burro-de-costas

5) Meu pé doi

Cerejas estavam sendo vendidas muito baratas no mercado da vila.
Como Nasrudin era conhecido por ser um bom negociador, um amigo seu pediu-lhe para comprar cerejas pagando ainda menos do que o preço do mercado, que já era baixo.
Nasrudin pegou o dinheiro e foi para o mercado. Ele regateou com o comerciante para mais de quinze minutos e foi capaz de comprar as cerejas a um preço ridiculamente baixo.
Ele então voltou para a casa do amigo e foi perguntado como negociação tinha acontecido
Ótimo, respondeu Nasrudin, eu realmente dei o comerciante um espetáculo. Eu lhe lisonjeei. Eu implorei para ele. Dei-lhe todos os tipos de raciocínios baseados na oferta e procura e o valor comparativo das mercadorias. Apelei para as suas emoções. Fiz um trabalho de mestre. E, acredite ou não, eu o convenci a me vender trinta quilos de cerejas pelo dinheiro que você me deu.
Uau, o amigo respondeu 
 isso é incrível.
Eu sei, disse Nasrudin, e fiz como você me pediu. Então, agora você concorda que também tenho direito a alguma recompensa pelo meu trabalho?
É claro, respondeu o amigo.
Ok, disse Nasrudin, desde que eu fiz todo o trabalho, você concorda que eu deveria ficar com todas as cerejas?


6) O negociante experto

Cerejas estavam sendo vendidas muito baratas no mercado da vila.
Como Nasrudin era conhecido por ser um bom negociador, um amigo seu pediu-lhe para comprar cerejas pagando ainda menos do que o preço do mercado, que já era baixo.
Nasrudin pegou o dinheiro e foi para o mercado. Ele regateou com o comerciante para mais de quinze minutos e foi capaz de comprar as cerejas a um preço ridiculamente baixo.
Ele então voltou para a casa do amigo e foi perguntado como a negociação tinha acontecido.
Ótimo, respondeu Nasrudin, eu realmente dei o comerciante um espetáculo. Eu lhe lisonjeei. Eu implorei para ele. Dei-lhe todos os tipos de raciocínios baseados na oferta e procura e o valor comparativo das mercadorias. Apelei para as suas emoções. Fiz um trabalho de mestre. E, acredite ou não, eu o convenci a me vender trinta quilos de cerejas pelo dinheiro que você me deu.
Uau, o amigo respondeu, isso é incrível.
Eu sei, disse Nasrudin, e fiz como você me pediu. Então, agora você concorda que também tenho direito a alguma recompensa pelo meu trabalho?
 É claro, respondeu o amigo.
Ok, disse Nasrudin, desde que eu fiz todo o trabalho, você concorda que eu deveria ficar com todas as cerejas?


7) Um mestre diferente

Nasrudin estava sendo esperado em uma cidade. Praticamente toda a população estava reunida na praça para ver o Mulla falar.
Nasrudin olhou para aquelas pessoas e perguntou:
— Você sabem sobre o que vou falar hoje?
Todos responderam ao mesmo tempo:
— Não!
— Se vocês não sabem o que vim falar eu me retiro — e foi embora.
Tempos depois a população conseguiu que Nasrudin voltasse à cidade para falar.
Mas combinaram que se ele perguntasse novamente sa sabiam o que ele ia falar eles dirão que sim.
Quando Nasrudin perguntou eles disseram:
— Sim!
Nasrudin disse então:
— Se vocês já sabem eu não preciso falar nada! — e se retirou.
Conseguiram que ele voltasse lá mais uma vez para falar. Dessa vez combinaram que metade diria que sim e metade que não.
Nasrudin então disse:
— Muito bem. Então a metade que sabe conta para a metade que não sabe — e se retirou.


8) Fique em uma perna

Certa noite, um grupo de assaltantes invadiu a casa de Nasrudin e exigiu dinheiro dele.
— Senhores, — disse Nasrudin — se eu pudesse daria a vocês 1 milhão de dólares mas, infelizmente, agora eu estou um pouco “quebrado” financeiramente e só tenho esta conta de vinte dólares no bolso.
Dizendo isso, Nasrudin tirou a conta do bolso e entregou-a para os ladrões.
Eles, no entanto, ficaram extremamente irritados e decidiram passar a noite na casa do Nasrudin e puni-lo. 
— Fique sobre um só pé pelo resto da noite! — eles exigiram.
Nasrudin fez como lhe foi dito. Os ladrões foram dormir enquanto um deles ficou de guarda. 
Depois de uma hora, o guarda disse a Nasrudin: 
— Escuta, eu vou deixar você mudar para a outra perna.
— Obrigado, — respondeu Nasrudin — você é uma pessoa muito melhor do que o resto do seu grupo.
Na verdade, quero lhe dizer que meu dinheiro está dentro dos meus sapatos no armário. Você pode ir lá e pegá-lo mas, — complementando com ênfase — não dê nada a eles!


9) Uma maçã pela resposta

Um homem, caminhando pelo centro da vila, começou a perguntar à respeito de questões variadas aos moradores locais mas, sendo eles incapazes de responder a maioria delas, indicaram alguém capaz de dar respostas à suas perguntas: Nasrudin.
— Você pode me ajudar respondendo algumas questões? — o homem perguntou a Nasrudin.
Nasrudin viu que o homem estava carregando um saco de maçãs e disse: 
— Eu vou responder, e a cada pergunta ganho uma maçã.
O homem concordou, fez as perguntas uma por uma e pagou uma maçã por vez, cada uma das quais Nasrudin comeu imediatamente enquanto respondia às perguntas. Finalmente, o homem ficou sem maçãs.
— Ok, eu estou indo agora. Mas antes disso, eu só quero saber uma coisa. — o homem disse.
— O quê? — perguntou Nasrudin.
— Como você comeu tantas maçãs? — perguntou o homem demonstrado muita curiosidade.
— Já que você não possui mais maçãs, — Nasrudin disse— eu não posso responder. 


10) O pedido de empréstimo

Nasrudin puxou conversa com um estranho.
A certa altura, ele perguntou:
– Como está seu negócio?
– Ótimo! – respondeu o outro.
– Então me empresta dez Rúpias? – perguntou Nasrudin.
– Não. Eu não conheço você o suficiente para lhe emprestar dinheiro.
– Isso é estranho – respondeu Nasrudin – onde eu morava, as pessoas não me emprestam dinheiro porque elas me conheciam, e agora que me mudei para aqui, as pessoas não me emprestam dinheiro porque elas não me conhecem!


11) A casa lotada

Certo dia, Nasrudin estava conversando com seu vizinho e ele comentou em tom de reclamação:
– Eu, minha esposa, meus três filhos e minha sogra, compartilhamos da mesma casa. Estou tendo problemas em acomodar todos em nosso pequeno espaço. Mulla Nasrudin, você que é um homem sábio, tem algum conselho para mim?
– Sim. Você tem galinhas em seu quintal? – respondeu Nasrudin.
– Eu tenho 10 galinhas – respondeu o homem.
– Então, coloque-as dentro de casa – disse Nasrudin.
– Mas Mulla! – o homem comentou – nossa casa já é muito apertada como ela é.
– Experimente – respondeu Nasrudin.
O homem, desesperado para encontrar uma solução para seus problemas de espaço, seguiu o conselho. No dia seguinte fez outra visita a Nasrudin.
– Mulla, as coisas agora estão ainda piores. Com as galinhas dentro de casa, nós estamos mais pressionados naquele pequeno espaço – ele disse.
– Agora, faça o seguinte: pegue o seu burro e leve-o para dentro de casa – disse Nasrudin.
O homem lamentou-se e se opôs, mas Nasrudin convenceu-o a fazê-lo.
No dia seguinte, o homem, parecendo agora mais angustiado do que nunca, veio a Nasrudin e disse:
– Agora, minha casa está mais lotada ainda! Quase não existe espaço para a minha família, as galinhas e o meu burro, se moverem.
– Bem, você tem outros animais em seu quintal? – perguntou Nasrudin.
– Sim, nós temos um bode – respondeu o homem.
– Muito bem. Leve o bode para sua casa também – disse Nasrudin.
Mais uma vez, o homem criou uma confusão e ele parecia tudo, menos estar ansioso para seguir o conselho de Nasrudin. Uma vez mais, este convenceu-o a colocar mais um animal dentro da casa.
No dia seguinte, o homem, agora cheio daquela situação, se aproximou de Nasrudin e disse:
– Agora minha família está muito chateada. Todos estão na minha garganta reclamando da falta de espaço. Seu plano está nos fazendo sentir miseráveis.
– Certo – respondeu Nasrudin – agora vamos colocar todos os animais do lado de fora.
Então, o homem seguiu o conselho. No dia seguinte, ele passou por Nasrudin e comentou:
– Mulla, seu plano funcionou como um encanto. Com todos os animais fora da casa, ela ficou tão espaçosa que nenhum de nós pode fazer nada a não ser ficar feliz e sem reclamar.


12) O jardim do vizinho

Certa vez Nasrudin viu algumas laranjas maduras no jardim do seu vizinho e resolveu roubar uma.
Ele pegou sua escada e a colocou apoiada no muro divisório entre os dois terrenos.
Ele subiu pela escada e estando no alto do muro, puxou a escada e coloco-a do outro lado. Assim que ele começou a descer, ele ouviu a voz do seu vizinho questionando:
– O que está fazendo aqui?
Calmamente, Nasrudin respondeu:
– Estou vendendo escadas!
O vizinho argumentou:
– Este local parece ser lugar para venda de escadas?
Nasrudin então disse:
– Você pensa que existe apenas um lugar para vender escadas?”


13) Servindo o manto

Certa vez, todos que viviam na mesma região de Nasrudin foram convidados para um banquete em uma aldeia próxima. Ao saber do convite, o Mullá foi até lá o mais rápido que pôde. Mas como estava com um manto esfarrapado, o mestre de cerimonias o colocou e um lugar ruim, longe da grande mesa onde estavam os convidados mais importantes.
Logo, Nasrudin percebeu que demoraria mais de uma hora para ser servido. Então resolveu ir até sua casa e se vestiu com um manto e um turbante magníficos. Ao entrar novamente na festa, foi saudado com tambores de boas vindas pelos arautos do Emir, seu anfitrião, e o camareiro real o conduziu a um lugar ao lado do próprio Emir.
Imediatamente a comida foi servida.
Nasrudin então pegou a comida com a mãos e começou a esfregá-la no manto e no turbante.
– Vossa eminência, – disse o Emir, – seus costumes à mesa são inteiramente novos para mim. Estou curioso.
E Nasrudin respondeu:
– O manto e o turbante me fizeram chegar aqui e me trouxeram a comida. Você não acha que eles merecem as suas partes? 


14) Quem sou eu?

Depois de uma longa viagem, Nasrudin deu de cara com a turbulenta multidão de Bagdá. Nunca havia visto um lugar tão grande e confundiam-lhe a cabeça todas aquelas pessoas amontoadas pelas ruas.
– Num lugar assim – refletia Nasrudin, – fico imaginando como é que as pessoas fazem para não se perderem de si mesmas, para saberem quem são” 


Então pensou: – devo recordar-me bem de mim, caso contrário poderia perder-me de mim mesmo. 
Mais que depressa procurou um alojamento para viajantes. Um sujeito brincalhão estava numa cama próxima daquela que Nasrudin ia ocupar. Nasrudin pensou em fazer a sesta, mas tinha um problema: como encontrar novamente a si mesmo ao acordar. Falou do problema ao vizinho. 
– Muito simples – disse o brincalhão – aqui tens um balão; basta amarrá-lo na sua perna e ir dormir; quando acordar, procure o homem com o balão e esse homem é você.

Nasrudin disse: – Excelente idéia!. 
Algumas horas depois Nasrudin acordou e procurou o balão e achou-o amarrado na perna do vizinho brincalhão. 
– É, esse aí sou eu – pensou. Então, apavorado começou a sacudir o sujeito:
– Acorda! Algo aconteceu do jeito que imaginei que aconteceria! Sua idéia não foi boa!

O homem acordou e perguntou qual era o problema.
Nasrudin apontou-lhe o balão: 
– Pelo balão, posso dizer que você sou eu. Mas se você sou eu, pelo amor de Deus, quem sou eu?


15) As fraquezas do rei

Certa vez, Nasrudin foi à Corte usando um magnífico turbante. A intenção do Mullá era despertar o desejo do rei e vender-lhe o turbante. E, de acordo com sua expectativa, o rei perguntou:
– Nasrudin, quando você pagou por esta maravilha? 
– Mil moedas de ouro, majestade.
O vizir percebeu a esperteza e cochichou ao rei:
– Ninguém, além de um idiota, pagaria tanto por um turbante.
O rei, influenciado pelo comentário, disse a Nasrudin:
– Por que você pagou tanto? Nunca ouvi falar que alguém tivesse dado essa quantia por um turbante.
– Paguei essa fortuna porque sabia que em todo o mundo só um rei compraria esse tipo de coisa.
Sensibilizado pelo elogio, o rei decidiu comprar o turbante pelas mil moedas de ouro.
Pouco depois, ao se encontrar só com o vizir, Nasrudin lhe disse:
– Você pode conhecer o valor de um turbante, mas sou eu quem conhece as fraquezas dos reis.


16) Sopa de lágrimas

 A mulher do mulla Nasrudin estava muito zangada com ele. Por isso lhe trouxe uma sopa fervendo, e não o avisou de que ele poderia queimar-se ao tomá-la.
Mas ela também estava com fome e, assim que a sopa foi servida, sorveu um gole. Lágrimas de dor verteram de ses olhos. Mas mesmo assim ela ainda esperava que o mulla se queimasse.
– Minha querida, que aconteceu? – Perguntou Nasrudin.
– Eu só estava pensando na minha pobre e velha mãe. Quando viva, ela gostava muito desta sopa. Por isso as lágrimas.
Nasrudin então tomou um gole escaldante da própria tigela.
Lágrimas lhe escorreram pelo rosto.
– Está chorando, Nasrudin? – perguntou a mulher.
– Estou! Estou chorando ao pensar que sua velha mãe está morta, pobrezinha! Mas que deixou alguém como você na terra dos vivos –justificou Nasrudin.


17) A verdade

Algumas pessoas que admiravam Nasrudin o cercaram e perguntaram:
– Dizem que as suas histórias estão cheias de verdades e com sentidos ocultos, Nasrudin. Estão mesmo?
– Claro que não! – respondeu Nasrudin.
– Por que não? Porque você diz isto com tanta convicção? – perguntaram.
– Simplesmente porque nunca falei a verdade em toda a minha vida, nem uma vez sequer; e tampouco serei capaz de fazê-lo, um dia – finalizou Nasrudin.


18) O caminho curto

Em uma magnífica manhã , o mulla Nasrudin caminhava de regresso a sua casa e em determinado momento perguntou aos seus botões:
– Por que não tomar um atalho através daquela formosa floresta que beira a esta estrada tão poeirenta?
Seguindo pela trilha no meio da mata, exclamou:
– Mais um dia se passou, um entre os outros dias, um dia de atividades produtivas e realizadas! Agora é só chegar em casa e descansar.
Um pouco mais adiante, em um trecho de mata fechada, o chão de repente sumiu debaixo de ses pés. Quando se deu conta, viu que estava no fundo de um fosso. Observou a situação e percebeu que não havia como sair dali sem ajuda. Mas quem passaria por ali e quando?
Mas, refletindo melhor, ele disse:
– Ainda bem que tomei este atalho. Se essa coisa aconteceu no meio de tamanha beleza, imagine que catástrofe poderia ter-me acontecido se eu tivesse seguido por aquela estrada esburacada, perigosa e trafegada por cavalos e carroças? 


19) Ninho vazio

Certa vez o mulla foi surpreendido investigando um ninho vazio.
— O que está fazendo, mulla? — o homem perguntou.
— Procurando ovos — Nasrudin deu uma resposta curta.
O homem deu um sorriso irônico e disse:
— Não há ovos num ninho do ano passado!
— Não tenha tanta certeza— tornou Nasrudin — se você fosse um passarinho e quisesse proteger seus ovos, construiria um ninho novo, à vista de todo mundo?


20) Por que não tentar

Um belo dia, alguns amigos viram Nasrudin, de joelhos, à beira de uma lagoa, adicionando um pouco de iogurte velho à água. Um dos homens perguntou:
— O que está tentando fazer, Nasrudin?
— Estou tentando fazer iogurte — respondeu.
— Mas você não pode fazer iogurte desse jeito! — disse um dos amigos.
— Sim, eu sei; mas imagine se isso der certo!


21) Pedindo dinheiro

Certo dia, Nasrudin estava precisando de dinheiro. Olhou em volta e viu um homem rico. Foi até o homem e disse:
— Poderia me arrumar algum dinheiro? Certamente se você é tão rico como parece, não lhe fará falta.
— Para que quer o dinheiro? — perguntou o rico.
— Para comprar um elefante — respondeu Nasrudin.
— Se você não tem dinheiro, nunca poderá sustentar um elefante — argumentou o homem.
Nasrudin olhou nos olhos do homem e disse:
— Eu pedi dinheiro, não pedi conselhos!


22) O rei falou comigo

O mulla voltara à aldeia depois de visitar a capital imperial. Os aldeões se reuniram à sua volta para ouvi-lo falar sobre as suas aventuras.
— Neste momento — disse Nasrudin — só desejo contar-lhes que o rei falou comigo.
Ouviu-se uma parada geral na respiração de todos devido à emoção. O rei dirigira realmente a palavra a um cidadão da aldeia! A notícia maravilhosa era mais do que suficiente para os aldeões, que se dispersaram a fim de divulgá-la.
Um homem, porém, que não se afetou como os outros pelo que Nasrudin havia dito, não se moveu dali. Ficando para trás, pediu ao mulla que repetisse, palavra por palavra, o que dissera o rei.
— O que ele disse, e o fez muito distintamente, para todos ouvirem, foi: — disse Nasrudin.
— Saia do meu caminho!


23) É melhor prevenir

Nasrudin entregou um cântaro a um menino, mandou-o buscar água num poço e deu-lhe um tapa no “pé-de-ouvido”.
— E preste atenção! Não me deixe cair a água! — gritou para o garoto.
Um homem que assistira a tudo perguntou-lhe:
— Como é que você bate em alguém que não fez nada de mal?
— Você, com certeza, — revidou Nasrudin — preferiria que eu batesse nele depois que ele tivesse quebrado o cântaro, quando o cântaro e a água estivessem ambos perdidos? Da minha maneira, o garoto se lembrará e assim se salvarão o cântaro e o seu conteúdo.


24) Montando no burro

Certo dia, alguns candidatos a discípulos procuraram o Mulla e pediram-lhe que lhes fizesse uma palestra.
— Muito bem, — disse ele — sigam-me até o salão, do outro lado da praça, onde existe espaço para eu falar a todos vocês.
Obedientes, eles se alinharam atrás de Nasrudin, que montou no burro às avessas, e começou a afastar-se.
A princípio, os jovens se sentiram confusos, depois se lembraram de que não deviam contestar o menor gesto do Mulla. Finalmente, reconheceram-se incapazes de suportar por mais tempo as zombarias dos transeuntes.
Percebendo-lhes o embaraço, o Mulla se deteve e olhou-os fixamente. O mais atrevido dentre os rapazes aproximou-se:
— Mulla, não compreendemos direito por que o senhor montou nesse burro às avessas.
— É muito simples — replicou o mulla — vejam bem, se vocês andassem à minha frente, seria uma desconsideração a mim. Por outro lado, e se eu lhes desse as costas, seria uma desconsideração a vocês. Esse é o único meio-termo possível.


25) A Linguagem do louco

Um místico deteve Nasrudin na rua e apontou para o céu, querendo dizer:
– Existe apenas uma verdade, que tudo cobre.
Dessa vez, Nasrudin vinha acompanhado de um erudito que andava procurando o fundamento lógico do sufismo. O homem disse para si mesmo: 
– Este homem está louco. Nasrudin deve tomar precauções e fazer alguma coisa contra ele.
Efetivamente, o Mulla revistou a mochila e dela tirou um pedaço de corda. 
O erudito pensou:
– Excelente! Poderemos agarrar o louco e amarrá-lo, caso ele se torne violento.
O “louco”, olhando a corda, riu e saiu andando.
– Muito bem feito, – disse o erudito – você nos salvou dele

Na verdade, meu gesto apenas significou, – disse Nasrudin:
– A humanidade comum tenta alcançar esse ‘céu’ por métodos tão inadequados quanto esta corda.
E acrescentou:– Parece que ele entendeu.


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Estudou cinema na NFTS (UK), administração na FGV e química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil nos anos seguintes. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo, pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil. Paulo dirigiu 3 galerias de arte e hoje se dedica a ajudar artistas, galeristas e colecionadores a melhorarem o acesso no mercado internacional.

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