Caravaggio, um pintor procurado por assassinato

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Caravaggio
Giuditta che taglia la testa a Oloferne (1598-1599)

Ocasionalmente você pode pensar que sua vida como artista é difícil, mas imagine por um momento se você tivesse que pintar para viver enquanto era procurado por assassinato?

Caravaggio fez exatamente isso.

Nascido em 1571 na Itália, Michelangelo Merisi da Caravaggio (lembrado apenas como Caravaggio, por conta da pequena cidade em que cresceu) era um pintor rebelde cuja obra influenciou grandemente o período barroco.

Cidade de Caravaggio (Lombardia)

Depois de um aprendizado de quatro anos em sua cidade natal, Caravaggio foi para Roma e começou a trabalhar como pintor.

Sua obra chamou a atenção da Igreja e do público em geral, embora nem sempre de uma boa maneira. A controvérsia girou em torno de seu uso de prostitutas para modelos em suas pinturas da Virgem Maria, bem como quando ele descreveu alguns dos discípulos como pessoas comuns da classe trabalhadora, em vez de nobres filósofos.

Mas Caravaggio estava interessado em pintar cenas realistas e pessoas e não em encobrir a verdade. Então suas pinturas eram ásperas e reais, tiradas diretamente de sua própria vida e arredores.

Caravaggio, A captura de Cristo
Caravaggio, A captura de Cristo

Entre os artistas mais jovens de Roma, seu estilo foi aceito e copiado e, finalmente, representado como símbolo do período barroco da pintura.

O trabalho comissionado que ele criou para várias igrejas, por outro lado, era muitas vezes devolvido a ele com um pedido de que fosse repintado de uma maneira menos pecaminosa.

Enquanto Caravaggio ganhava a vida pintando cenas religiosas para a Igreja, ele não levava a vida muito regrada. Ele era um homem de temperamento forte e pouca paciência, muitas vezes encontrado brigando em público e constantemente com problemas com a lei.

Considerado um farrista inconsequente, ele vivia com problemas com a polícia, sem dinheiro e buscava brigas nos pulgueiros da cidade. Em 1606, matou um jovem durante uma briga e foge de Roma, com a cabeça a prêmio. Passou por Nápoles, depois por Malta e pela Sicília, onde pintou telas de lirismo transfigurado, em temas como a ressurreição de Lázaro (Messina), na qual, sob o pavor de um imenso espaço vazio, um raio de luz rasante parece imobilizar o drama sagrado.

Em Malta (1608) envolveu-se em outra briga, e mais outra em Nápoles (1609), possivelmente um atentado premeditado contra a sua vida devido suas ações, por inimigos nunca identificados.

Caravaggio permaneceu foragido pelo resto de sua vida, pintando em várias cidades da Itália, mantendo-se um passo à frente da lei até sua morte em 1610.

Caravaggio era um artista de paixão, de temperamento quente e ocasionalmente de raiva. Mas em suas pinturas ele conseguiu canalizar essa paixão em obras de arte que eram tão dramáticas quanto sua própria vida e personalidade.

A morte de Caravaggio

Após uma carreira de pouco mais de uma década, Caravaggio morreu em circunstâncias desconhecidas, em julho de 1610, aos 38 anos. Seu corpo permaneceu em local desconhecido por séculos.

Em 16 de junho de 2010, uma equipe de cientistas e universitários italianos do “Comitê Caravaggio” anunciou a identificação dos restos mortais do pintor, graças a análises de DNA e de carbono-14, no pequeno cemitério da frazione de Porto Ercole, na comuna de Monte Argentario, na Toscana. A probabilidade de certeza desta descoberta, divulgada pelos pesquisadores, é de 85%.

Em estudo divulgado em setembro de 2018, identificou-se que a morte de Caravaggio foi provocada por uma infecção causada pela bactéria “Staphylococcus aureus”, contraída a menos de um mês de sua morte por ferimentos em decorrência de uma briga, na qual foi ferido por uma espada. Para chegar a esta conclusão, pesquisadores analisaram seus dentes molares, caninos e incisivos, ondem abundam os vasos sanguíneos – para determinar a causa real de sua morte.

Características da sua obra

Caravaggio tomava emprestada a imagem de pessoas comuns das ruas de Roma para retratar Maria e os apóstolos.

A sua inspiração estava entre comerciantes, prostitutas, marinheiros, todo o tipo de pessoas que não eram de nobre estirpe e que tivessem grande expressão, como as suas obras retratam.

Talvez tenha sido um dos primeiros artistas a saber conciliar a arte com o “ministério de Jesus”, que teria acontecido entre pescadores, camponeses e prostitutas.

O artista levou este princípio estético às últimas consequências, a ponto de ter sido acusado de usar o corpo de uma prostituta fisgada morta do rio Tibre para pintar A Morte da Virgem. Esta foi uma das duas mais importantes características das suas pinturas: retratar o aspecto mundano dos eventos bíblicos, usando o povo comum das ruas de Roma.

Flagelação de Cristo
Flagelação de Cristo

Em a Flagelação de Cristo[ compôs uma coreografia com contrastes de claro-escuro, onde Cristo se apresentava num movimento de total abandono, conseguindo uma composição de beleza carismática. Já em São João Batista, demonstra um jovem de olhar provocador – julgava-se que esse modelo era um dos seus amantes.

A outra característica marcante foi a dimensão e impacto realista que ele deu aos seus quadros, ao usar um fundo sempre raso, obscuro, muitas vezes totalmente negro, e agrupar a cena em primeiro plano com focos intenso de luz sobre os detalhes, geralmente os rostos. O uso de sombra e luz é marcante em seus quadros e atrai o observador para dentro da cena – como fica bem demonstrado em A ceia de Emaús. Os efeitos de iluminação que Caravaggio criou receberam um nome específico: tenebrismo.

Caravaggio_ David com a cabeça de Golias -Arteref
Caravaggio_ David com a cabeça de Golias (Vienna)

Na obra David com a cabeça de Golias, uma cabeça decapitada, onde ele mesmo é o Golias, um sanguinário grotesco, um monstro. Na decapitação de João Batista, o mal era representado por outra pessoa. Aqui, é Caravaggio quem personifica a maldade. Na espada de David foi escrito Humilitas Occedit Superbiam (“A Humildade Conquista o Mundo”). Uma batalha que tem sido travada dentro da cabeça de Caravaggio, entre os dois lados opostos do pintor retratado nessa fascinante obra.

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Estudou cinema na NTFS (UK), Administração na FGV e Química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil nos anos seguintes. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo e pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil. Paulo dirigiu 3 galerias de arte e hoje se dedica em ajudar artistas, galeristas e colecionadores a terem um aspecto mais profissional dentro do mercado de arte internacional.

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