O modelo de gestão americano é a solução para os museus no Brasil?

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Após a tragédia ocorrida no Museu Nacional do Rio de Janeiro no domingo retrasado, brotaram os especialistas de internet com suas opiniões sobre museus, sua gestão e sobre o caráter brasileiro.  Antes de mais nada, não podemos comparar maçãs com laranjas. Notícias equiparando a visitação de brasileiros ao Louvre com a do Museu Nacional têm como único propósito reforçar a ideia errônea de que o brasileiro não se interessa pela cultura do seu próprio país.

O Museu Nacional é um museu de história natural e antropologia; o Louvre é um museu de arte. Quem tem interesse em ver a Monalisa não necessariamente se interessa por fosseis ou coleções zoológicas. De fato, ambos os museus possuem em seus acervos múmias, cerâmicas e outros artefatos, mas a principal diferença é que cada museu usa desses objetos para propósitos distintos. Um museu de arte tem interesse pela expressão artística daquele objeto, enquanto o de história natural o vê como um registro da civilização que o produziu. Portanto, a missão dos museus é distinta, muda-se os visitantes, os tipos de pesquisa e quem se interessa em investir em cada instituição.

Segundo, atribuir a tragédia à administração da UFRJ e propor como solução a gestão privada baseada nos modelos americanos é um caminho fácil, mas equivocado e perigoso. Será que o modelo de gestão privada americano funcionaria no Brasil?  Para ser justo, vamos usar como exemplo o Museu Americano de História Natural (AMNH) em Nova York e compará-lo ao Museu Nacional (MN) do Rio de Janeiro. Os dois museus possuem missões parecidas e o mesmo tipo de acervo.

 

American Museum of Natural History

O Museu Americano de História Natural foi fundado em 1869 e tem como missão descobrir, interpretar e disseminar informação sobre as culturas humanas, o mundo natural e o universo através de um abrangente programa de pesquisa cientifica, educação e exposição. A coleção do museu abriga mais de 34 milhões de espécies e artefatos. Além de museu, o AMNH é uma instituição de pesquisa e conta com uma equipe de 225 pesquisadores científicos que trabalha em tempo integral. O AMNH possui 28 prédios interconectados, que já foram renovados ou restaurados, além de 45 salas de exposição permanente, que foram sendo construídas ao longo do século XX, fruto de expedições e doações. O museu possui também um planetário e uma biblioteca.  Quatro novas exposições temporárias são abertas por ano.  Somente 10% da coleção está exposta, o resto fica preservado em uma moderna instalação. A salvaguarda desse acervo conta com o suporte do National Endowment for the Humanities (NEH), uma agência federal do governo americano cuja função é apoiar a pesquisa, educação, preservação e programas públicos na área de humanas.

A aplicação da verba que vem do NEH é supervisionada por um conselho diretor. O conselho diretor dos museus americanos é responsável por aprovar a missão do museu, recrutar, dar suporte e avaliar o presidente e membros diretores. Além disso, os conselheiros orientam na gestão e também protegem a integridade financeira do museu. No caso do Museu Americano de História Natural, o conselho é formado por pessoas da sociedade civil, advogados, filantropos, empresários, diplomatas etc. Também fazem parte do conselho o prefeito de Nova York e outros membros da administração da cidade, como o chanceler do departamento de educação e o comissário da cultura. Em 2017 foi aprovada a construção do centro para ciência, educação e inovação Richard Gilder, projeto estimado em 383 milhões de dólares. O centro foi nomeado em homenagem a um dos membros do conselho diretor, em reconhecimento ao seu trabalho pelo museu e pela recente doação feita para o novo prédio. De acordo com o relatório anual de 2017 a receita do museu foi de 192 milhões e o custo para sua operação, de 175 milhões.[1] A diferença foi transferida para um plano de investimento a longo prazo. A maior parte dos gastos são com pesquisa científica, educação e exposição. Depois vêm os custos de operação, manutenção e salvaguarda. A maior parte da receita do museu vem de doações de visitantes e da bilheteria (28%); e depois de contribuição privada e projetos subsidiados (25%). O museu é também uma parceria público-privada, sendo que a cidade de NY contribui com 9% da receita com o propósito de ajudar com os custos ligados á segurança, manutenção, administração e energia.

American Museum of Natural History

Museu Nacional

O Museu Nacional foi fundado em 1818 por Dom Joao VI, transferido para a sede da Casa dos Pássaros, Paço de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, em 1892, e incorporado a UFRJ em 1946 para ser administrado. É um museu universitário que tem perfil acadêmico e científico. Suas exposições tinham como finalidade a produção e disseminação do conhecimento nas áreas de ciências naturais e antropológicas. A coleção contava com mais de 20 milhões de itens e foi formada ao longo de dois séculos. São vinculados ao museu 90 professores pesquisadores e 210 técnicos. O prédio histórico é tombado pelo IPHAN e não é possível modifica-lo e expandi-lo como aconteceu no caso do museu americano. Entretanto, o MN havia, no ano de 2000, elaborado um plano de reestruturação, pensando numa expansão predial e recuperação do prédio sede, o que incluía usar o prédio histórico somente para exposições e atendimento ao público. A ideia era ter outro lugar para pesquisa, ensino e administração e salvaguarda do acervo.[2] Quando completou 200 anos o projeto não havia saído do papel, somente 3.000 itens estavam expostos e não havia nenhuma exposição temporária. O serviço educativo também havia sido cortado por falta de verba. A verba anual para sua manutenção era estimada em 520 mil reais, entretanto, em 2018, o MN recebeu somente 54 mil.

Diante de todos esses dados o que podemos concluir? E o que poderia ser interessante adotar do modelo americano?

Uma proposta interessante, que já foi cogitada no passado, seria talvez transformar o museu numa instituição federal independente da UFRJ e assim tirar o ônus da universidade, que enfrenta enormes problemas com a falta de recursos. Mas a ideia não seria transforma-lo em associação privada sem fins lucrativos. O museu seria como uma instituição pública independente que poderia centralizar a verba e ter autonomia para se gerir. Uma outra ideia interessante é a de um conselho diretor composto por membros do governo e da sociedade civil, que orientariam na gestão, escolhendo e apoiando o presidente e os diretores, ajudando a fiscalizar as contas, garantindo que a verba estimada para sua manutenção seja repassada e usada de maneira correta. Entretanto, será que no Brasil existe uma cultura política de participação por parte de membros da sociedade civil e empresários com interesse em contribuir?

Uma outra questão equivocada é reafirmar o senso comum que o brasileiro não se interessa por cultura. Como dito anteriormente, a maior parte da receita do AMNH vem de doações de visitantes e da bilheteria. A cidade de Nova York recebe 61 milhões de visitantes por ano e possui 8,5 milhões de habitantes; enquanto o Museu Americano recebe anualmente 5 milhões de visitantes. A entrada custa $23, mas na bilheteria existe a possibilidade de se pagar o quanto quiser. Entretanto, exposições especiais têm custos adicionais. A visitação das escolas públicas de NY é gratuita. Existe a possibilidade de ser membro do museu, o que gera 3% da sua receita anual. O Rio de Janeiro, por outro lado, recebe anualmente 2 milhões de visitantes internacionais e 5 milhões de visitantes domésticos e tem uma população de 6,5 milhões de habitantes. A entrada do museu custava R$ 8 inteira, e R$ 4 a meia, mas era gratuita aos domingos e para os alunos das escolas públicas. Em 2017, o MN recebeu 192 mil pessoas. Assim sendo, se somarmos o total de visitantes e moradores das duas cidades e dividirmos pelo número de visitantes dos museus teríamos uma diferença entre público potencial e público efetivo de 6,5% para o ANHM em comparação a 1,5% do MN em 2017. Já não parece uma diferença tão gritante.

Museu Nacional

O Rio de Janeiro, em geral, não recebe turistas pelo seu potencial cultural, mas pelo interesse nas praias e na beleza natural da cidade, mas mesmo assim o CCBB Rio Janeiro e o Museu do Amanhã receberam em 2017 mais de um milhão de visitantes cada um.[3] Obviamente com uma melhor divulgação, uma programação moderna de exposições temporárias e um bom programa educativo poderia se atrair mais público para o Museu Nacional. Mas o governo do Rio de Janeiro teria que ter interesse em inserir o museu na publicidade da cidade.  E o mais importante de tudo: é necessário pensar em como um museu de história natural e antropológica pode ser relevante e interessante dentro da sociedade brasileira e assim mostrar para o público do porque é importante preserva-lo para que as pessoas se sinta atraídas a conhecer e frequentar o museu.

Outro fator que impede a importação do modelo americano é a realidade brasileira. Contar apenas com bilheteria e doação de visitantes como a maior parte da renda é impensável para a realidade de um país cuja renda média familiar é R$ 1.268 em comparação à americana, que é de $3.714 por mês.[4] Sendo assim, grande parte da verba tem que ser pública e deve ser usada para garantir a manutenção, salvaguarda do acervo e das instalações, o salário dos funcionários e as pesquisas científicas. No Brasil, pesquisa – em especial na área das Ciências Humanas – não é financiada pela iniciativa privada, uma realidade que não vai mudar do dia para a noite. O que poderia vir então da iniciativa privada seria o dinheiro para patrocinar o restauro que o museu propôs em 2000, e também o dinheiro para produzir exposições temporárias, os novos programas públicos e as novas tecnologias. No caso do Brasil, o dinheiro privado para a cultura vem através da Lei Rouanet: a lei de incentivo fiscal para pessoas jurídicas e físicas aplicarem uma parte do imposto de renda em ações culturais. O que também acontece no caso americano. Mas, será que existe um interesse dessas empresas de patrocinar esse tipo de cultura?

Adotar o modelo de gestão americano cegamente e privatizar o museu não é a solução. A questão é muito mais complexa e profunda e envolve diversas esferas, como repasse de recursos do governo, desvio de verbas, a realidade social do Brasil e o interesse da iniciativa privada em investir na cultura, que não sejam apenas shows e exposições midiáticas com forte apelo popular. O que menos devemos culpar é o interesse do brasileiro por cultura e os gestores do Museu Nacional.

American Museum of Natural History

[1] Relatório Anual de 2017. Disponível em: <https://www.amnh.org/about-the-museum/annual-report>.

[2] Plano de expansão predial e recuperação do paco de São Cristovão. Disponível em: <http://www.museunacional.ufrj.br/200_anos/projeto_atual.html>.

[3] https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2018/09/maioria-dos-museus-mais-visitados-no-brasil-tem-entrada-gratis.shtml

[4] http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2018-02/renda-familiar-capita-no-brasil-em-2017-era-de-r-1268-segundo-ibge.

https://work.chron.com/average-american-monthly-salary-8614.html

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