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Quanto tempo dura uma obra de arte?

Por Paulo Varella - junho 14, 2021
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Nesse podcast falo sobre a durabilidade de uma impressão fine art e como a conservação correta da obra é um fator fundamental para sua longevidade.


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Transcrição do podcast

Quem trabalha com fotografia entende o que é exposição ao tirar uma foto, e sabe que a exposição não é apenas uma função de tempo.

A exposição é o resultado da intensidade da luz e do tempo. 

Desta mesma forma, a exposição à luz se aplica às obras de arte de uma exibição.

Eu vou pegar o exemplo do quadro “Noite Estrelada” de Vincent Van Gogh que foi comprado pelo Museu de Arte Moderna (MOMA) em 1941. 

Esta pintura está em exibição há praticamente 80 anos! 

Vamos imaginar que ela vem sendo mostrada ao público 8 horas por dia, seis dias por semana e que fora deste período, as luzes do moma ficam apagadas.

Como eu já falei, o tempo por si só não determina exposição à luz acumulada pela pintura. 

A gente também precisa de uma estimativa do nível de iluminação para saber a exposição à luz que o quadro recebeu durante este longo período no museu.


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Vamos supor um nível de iluminação de 50 lux na pintura, um valor recomendado por conservadores de museus para a visualização de forma segura das obras de arte em exibição.

50 lux………..Mas o que é um lux? 

Lux é a incidência perpendicular de 1 lúmen sobre uma superfície com 1 metro quadrado (1 lx =1 lm/m2).

Para você ter ideia, uma vela a 1 metro de distância gera mais ou menos 1 lux.

Então vamos ao quadro que está no Moma.

Se a exposição diária à luz sobre o quadro é de 50 lux, em um ano fazendo as contas, nós teremos 124.800 lux-hora.

Desde que o MOMA comprou a obra de Van Gogh até hoje se passaram 80 anos.

Então, fazendo a soma da exposição total à luz desde a aquisição da pintura, nós temos 9.984.000 lux-hora, ou seja: 9,98 Megalux-hora!

Agora, o que aconteceria com “Noite Estrelada” se fosse exibido no saguão de um edifício moderno, com clarabóias e janelas cheias de vidros? 

Os níveis de luz nestas áreas internas podem facilmente atingir 2.000 lux ou mais em algumas algumas horas do dia. 

Neste caso, o quadro pode receber 40x maior de luz em comparação com nosso exemplo do MOMA). 

Ou seja, a pintura alcançaria os mesmos 9,98 megalux-horas ou mais, em menos de 2 anos em exibição! 

A exposição à luz é um assunto que ninguém fala quando se trata de proteger pinturas, gravuras ou fotografias do desbotamento e descoloração.

Se a gente continuasse com a iluminação de um prédio comercial pelo mesmo período de tempo que o “Noite Estrelada” está exposto no MOMA, seria muito mais do que o suficiente para causar desbotamento severo na pintura, bem como em quaisquer impressões ou fotografias.

É assim que funciona a exposição! O desbotamento da luz em uma obra de arte tem a ver com a exposição acumulada à luz, não apenas com o tempo de exibição!

Para continuar com a analogia entre exposição da fotografia em uma câmera e de uma obra de arte, quanto maior a sensibilidade do sensor da câmera, menos exposição total a luz é necessária para criar uma imagem. 

Os fotógrafos conhecem isso como ISO. Quanto mais sensível à luz for a obra de arte, menos exposição à luz será necessária para começar o desbotamento ou descoloração. 

Van Gogh pintou o quadro noite estrelada em 1889. 

A gente não sabe exatamente quais eram as cores originais, então fica difícil saber quanto o quadro desbotou. 


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Assim, no mercado fine art de hoje quando eu ouço as pessoas falando que uma tinta dura 100 anos e um papel 200 anos, eu me pergunto. Em que condições de luz? 

Os limites de exposição onde o desbotamento começa a aparecer podem ser 10x, 100x, e 1000x mais rápido em uma casa, escritório ou vitrine bem iluminada em comparação com uma sala de uma galeria de museu! 

As classificações de resistência faladas em anos, contam uma história incompleta e errada, porque os níveis de luz encontrados em ambientes internos do mundo real é muito grande para atribuir um valor único de previsão de vida.

Falar da durabilidade em Megalux é a maneira correta de avaliar a resistência ao desbotamento pela luz de pinturas, gravuras e fotografias.

Existem critérios de classificação da durabilidade à luz. Eles se chamam Conservation Display Ratings ou CDR e informam os limites de Megalux- hora que uma impressão pode suportar e ainda permanecer em excelentes condições, ou seja, onde se observa “pouco ou nenhum desbotamento perceptível”. 

Os fabricantes ainda costumam falar em anos ao se referirem a qualidade de suas tintas e papéis. Isto é errado.

As classificações de exposição de conservação mais rigorosas são importantes para servir como orientação especializada para colecionadores, curadores, conservadores e artistas que buscam garantir os mais altos padrões de manuseio, armazenamento e exibição de obras de arte sob seus cuidados, para que a intenção original do artista seja preservada.

Se você estiver interessado em conhecer estas tabelas, eu vou deixar o link nas informações deste podcast.

https://www.aardenburg-imaging.com/cdr-overview/

Texto original de: Mark McCormick-Goodhart

Mark McCormick-Goodhart é o fundador e diretor da Aardenburg Imaging & Archives. Ele tem mais de trinta anos de experiência profissional em imagem e ciência de materiais e detém oito patentes nos EUA no campo da ciência e tecnologia de imagem.

Publicou mais de 30 artigos relacionados à ciência da imagem e conservação fotográfica. A fotografia e a gravura têm sido o seu interesse especial há mais de quarenta anos. De 1988 a 1998, ele foi o Cientista Fotográfico de Pesquisa Sênior no Smithsonian Institution em Washington, DC.


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Estudou cinema na NFTS (UK), administração na FGV e química na USP. Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos 90 e no Brasil nos anos seguintes. Sua formação lhe conferiu entre muitas qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração de conteúdo, pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil. Paulo dirigiu 3 galerias de arte e hoje se dedica a ajudar artistas, galeristas e colecionadores a melhorarem o acesso no mercado internacional.

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