Curiosidades

A catarata e a percepção de mundo do impressionista Monet

Por Equipe Editorial - março 14, 2017
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“Quando um cantor perde a voz, ele se aposenta. Também o pintor que não enxerga deve abandonar a pintura, mas isso eu sou incapaz de fazer.”  Claude Monet.

Pai do Impressionismo, Monet foi um pintor bastante produtivo, criando mais de 5.000 obras em sua vida. Ele frequentava muitos de seus oftalmologistas e tentava de lidar com sua crescente catarata, incluindo usando belladonna (uma planta tóxica) para dilatar suas pupilas.

“Não percebo mais as cores com a mesma intensidade nem pinto a luz com a mesma precisão. O vermelho aparece lamacento para mim; já o rosa, insípido; e os tons intermediários ou menores me escapam por completo. O que eu pinto está cada vez mais escuro, mais e mais como uma fotografia antiga.”

A doença pode ter acometido Monet por conta das muitas horas em que ficou com seus olhos expostos ao sol. Sabe-se que a radiação ultravioleta é um clássico fator de risco para catarata, perdendo em importância apenas para a idade avançada. Monet pintava ao ar livre, preferencialmente ao meio dia, visto ser a representação do efeito que a luz solar produz sobre a natureza uma importante característica do impressionismo.

Water Lilies (1916)

A catarata limitava severamente sua discriminação de cores e, como forma de “sobrecompensação”, Monet passou a pintar com tonalidades mais intensas. Pinturas de nenúfares e salgueiros, ao longo do período 1916-1922, exemplificam a mudança. Os tons se tornaram mais enlameados e escuros, as formas surgem bem menos distintas, sua sensibilidade de contraste está diminuída, as pinceladas são mais fortes e as cores mais intensas.

Monet, que passou a vida documentando as sutis diferenças de cor, assumiu o que talvez fosse o primeiro estudo controlado do mundo sobre cirurgia de catarata, pintando a mesma cena com o primeiro olho operado – azul demais – e seu olho não operado – muito vermelho.

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À esquerda: pintura de Monet da ponte japonesa em seu jardim em Giverny (1899); A mesma cena (meio) que ele tentou capturar novamente entre 1918-1922 mostra que as cataratas turvaram sua visão e que o amarelamento das lentes de seus olhos prejudicaram sua visão do azul e do verde, deixando-o num mundo mais “vermelho e marrom”. À direita: Imagem computadorizada criada por especialistas mostrando como Monet enxergaria em 1924.

Mas por que tudo era tão azul para Monet?

A lente do olho humano absorve tanto um pouco do espectro azul quanto do espectro UV. A lente intraocular moderna inclui um filtro UV, de modo que atualmente poucos pacientes se queixam de excesso de azul. A maioria das lentes implantadas na Austrália tem um tom amarelo adicional, um filtro de bloqueio azul, projetado para proteger da luz azul e tornar a visão mais normalizada, além de servir para o problema da catarata.

As cataratas reduzem a luminância e o contraste da imagem. Alguns sintomas comuns de catarata incluem uma redução na acuidade, visão noturna, sensibilidade à luz e discriminação de cor, especialmente para os azuis. Assim, o desfoque, o amarelamento e a sensibilidade ao brilho são comuns. Durante a velhice o endurecimento da lente associada à catarata pode induzir miopia.

As fotos abaixo simulam os possíveis efeitos de uma catarata na visão. Observe a diminuição da iluminação, acuidade e saturação de cor em comparação com uma visão sem catarata.

Sem catarata - Com catarata

(via MiVisionPsych e Medicine is art)

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