Arte

Harmonia, uma incessante busca nas artes

A arte se envereda por rumos diversos, alicerçada por movimentos que marcaram época revolucionaram as perspectivas criativas, moldaram desafios e interpretações da realidade humana na sua dimensão tanto intimista como universal.

No início do século passado, uma revolução estética se propagava influenciando as décadas vindouras. O Orfismo por exemplo pouco difundido atualmente, foi um termo empregado pela primeira vez, em outubro de 1912, por Guillaume Apollinaire numa conferência sobre a pintura moderna por ocasião do Salão da Seção de Ouro, em Paris.

O Orfismo abrange duas vertentes de uma parte, uma maleabilidade da disciplina cubista, representado por artistas como Gleizes, Metzinger ou mesmo Marie Laurencin, de outra parte, a afirmação de Robert Delaunay do papel fundamental da cor na prática pictórica. Apollinaire argumenta esta tese no Die Moderne Malerei (A Pintura Moderna) na revista Der Sturm (A Tempestade), fevereiro 1913:

“Delaunay acreditava que se verdadeiramente uma cor simples condiciona sua cor complementar, ela não determina uma brisa de luz, mas estimula às vezes todas as cores do prisma, esta tendencia, podemos chamar de orfismo”.

OrfismoOrfismo
Torre Vermelha. Robert Delaunay

Na realidade, o orfismo se aplica intensamente na pintura de Delaunay. A série “As Janelas” (1912) ilustra suas pesquisas sobre o poder dinâmico das cores, notadamente com a série de discos e de formas circulares ele realiza pela primeira vez composições abstratas tendo por preocupação a utilização da cor para fortalecer a forma.

Appolinaire se inspirou em Orfeu, o poeta e músico da mitologia grega, para realçar essas criações de vanguarda. Filho da musa Calíope e de Apolo, Orfeu tinha uma habilidade singular em harmonizar música e poesia, sendo admirado tanto pelos mortais como pelos deuses com sua arte.

Os artistas do movimento buscavam a musicalidade visual nas formas abstratas com luz, cores vibrantes nos dinâmicos efeitos que espelhavam a efervescência de um momento especial, um tributo à inovação com um cromatismo excepcional.

Atualmente, uma exposição em cartaz no Museu Guggenheim de Nova York, “Harmonia e Dissonância – Orfismo em Paris 1910-1930” permite aos visitantes apreciar um período marcante da arte moderna. A mostra reúne mais de 80 obras de mestres consagrados como Marcel Duchamp, Francis Picabia, Robert e Sonia Delaunay, Frantisek Kupka, Marc Chagall e conta ainda com duas obras do artista português Amadeo de Souza Cardoso, emprestadas pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Algumas obras alimentam perspectivas inovadoras e otimistas, uma sensualidade sutil abrangendo um vigor cromático envolvente. Percebe-se uma sintonia com os novos tempos em “A Torre Vermelha” (1911-12) e “Janelas simultâneas” (1912), de Robert Delauny; “Discos de Newton” (1912), de Frantisek Kupka (1912) e “Paris pela janela” (1913), de Marc Chagall.

Paris pela Janela. Marc Chagall

Infelizmente ao estourar a I Guerra Mundial em 1914, uma mudança brusca ocorreu, refletindo o desmoronamento das ilusões de um mundo melhor, envolto na poesia das cores, a arte foi se ajustando à uma realidade dura, proporcionando novos desafios com as transformações políticas e sociais.

Fato curioso deve ser destacado, Robert e Sonia Delaunay refugiaram-se no Porto, em Portugal, escapando dos efeitos nefastos da Guerra, mas a artista foi detida com acusação de espionagem. As autoridades achavam que os discos coloridos em suas obras eram mensagens codificadas para submarinos alemães. Pura fantasia, uma inverdade, a sua obra refletia um otimismo, metafísico na essência e poético na sua transparência.

Prismas Elétricos. Sonia Delaunay

A influência desse movimento no Brasil teve reflexos nas obras do modernismo, como no caso de Anita Malfatti e Tarsila do Amaral entre alguns nomes consagrados que realizaram experiências cromáticas marcantes, revolucionando a pintura nacional no século XX.

Apollinaire, poeta francês foi um dos observadores mais perspicazes da arte de seu tempo, proporcionou pela sua intensa atividade a consagração da geração surrealista delineando um modelo de cumplicidade entre a poesia e as artes visuais, mas infelizmente teve morte prematura, vítima da gripe espanhola.

Leia também – Expressionismo: contexto, características e principais artistas

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José Henrique Fabre Rolim

Jornalista, curador, pesquisador, artista plástico e crítico de arte, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Unisantos (Universidade Católica de Santos), atuou por 15 anos no jornal A Tribuna de Santos na área das visuais, atualmente é presidente da APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), colunista do DCI com matérias publicadas em diversos catálogos de arte e publicações como Módulo, Arte Vetrina (Turim-Itália), Arte em São Paulo, Cadernos de Crítica, Nuevas de España, Revista da APCA e Dasartes.

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