Artigos Acadêmicos

A arte Neoclássica e os Cantos VI e IX da Ilíada


Após os Cantos iniciais da Ilíada, a trama dramática e heróica se intensifica. Os deuses tomam partido e os personagens de Homero apresentam maior conteúdo, personalidade e caráter distintos, dando aos artistas neoclássicos assuntos os mais diversos junto à criatividade e capacidade técnica no emprego dos pincéis, tintas e suporte.

Com a quebra do juramento firmado por Príamo e instigados por Hera e Atena, os deuses intercedem cada qual para um lado. A discordia se espalha. Ares e Apolo lutam ao lado de Troia. A luta se intensifica entre gregos e troianos. Heróis de ambos os lados são feridos e outros são recebidos por Hades.

No Canto VI, os aliados Troianos são abatidos e começam a se curvar diante dos gregos. Preocupado, Heitor volta ao grande paço à procura de sua mãe para que interceda aos deuses. Com a promessa de orações, em seguida, caminha em direção ao belo palácio de Alexandre, localizado no alto da Acrópole, a fim de chamá-lo para a batalha sangrenta.

Joseph-Marie VIEN[1] (1716-1809) Heitor determinando que Paris pegue em armas em defesa da pátria, 1760-1800. Óleo sobre tela, 330×258. Em depósito: Musée national du château de Fontainebleau, Fontainebleau.

A composição acompanha o estilo empregado por Vien na maioria de suas obras: personagens condizentes com o relato literário são distribuídos, no máximo, no primeiro e segundo planos, em um cenário com estrutura clássica e elementos arqueológicos.

No aposento conjugal, Heitor, o valente defensor da cidade de Príamo, encontra o irmão ao lado de Helena, cercado por algumas de suas servas.

Em resposta, Alexandre tenta se justificar, mas concorda em se juntar ao irmão na porta de saída para além dos muros, depois de se arrumar e, finalmente, envergar as armas.

Em seguida, Heitor se dirige para o próprio lar, em busca da querida esposa e de seu filho, tendo em vista que ao voltar para a batalha, pode não mais voltar a vê-los.

“Não tendo Heitor no palácio encontrado a impecável Andrômaca, para a saída retorna, apressado”, pois, segundo as servas, a esposa se encontra em uma das torres, “depois de saber que os Troianos cedem terreno ante a força maior dos guerreiros Acaios.” Para a muralha corre Heitor até alcançar “as Portas Ceias, por onde devia passar para o campo”, onde lhe alcança a esposa, acompanhada da ama e seu filhinho Escamândrio, chamado pelo povo de Astíanacte, filho do maior defensor da cidade, amparo dos muros de Troia. (HOMERO, Ilíada, VI, 374-375; 386-387; 393; 402-403, 2015, p. 165-166)

Benjamin WEST[2] (1738-1820) Heitor despedindo-se de Andrômaca: o susto de Astíanacte, 1766. Caneta e tinta marrom, pincel, aguada marrom e aquarela azul, toques de guache sobre traços de giz preto sobre papel, 35.6×48.3. Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, EUA.

West mostra Heitor armado para lutar contra os gregos. Andrómaca se agarra ao braço do marido e Astíanacte, no colo da ama, se encolhe diante do capacete do pai. O desenho é um estudo de uma pintura, agora perdida, exibida em 1767.

Joseph-Marie VIEN (1716-1809) As despedidas de Heitor e Andrómaca, 1786. Óleo sobre tela, 320×420.Musée du Louvre, Paris, França.

Vien representa, talvez, uma das cenas mais emocionante e memorável, detalhada na epopeia de Homero: o encontro de Heitor, Andrômaca e o inocente menino, que se assusta com o brilho do elmo e o enorme e oscilante penacho de crina sobre a cabeça do pai. 

Ao seu lado, Andrômaca em pranto, tomando-lhe a mão lhe diz as seguintes palavras:

Mas apesar de preocupado, Heitor argumenta que é sua a responsabilidade de combater à frente dos guerreiros troianos, que é seu dever honrar o pai e o próprio nome, mesmo que a morte o alcance e o leve para longe dos braços do filho e do amor da esposa querida. “O coração claramente mo diz e a razão mo confirma: dia virá em que Troia sagrada será destruída, bem como Príamo e o povo do velho monarca lanceiro”. (HOMERO, Ilíada, VI, 447-449, 2015, p. 167)

Angelica KAUFFMAN[3] (1741-1807) Heitor despedindo-se de Andrómaca,1768. Óleo sobre tela, 157,5 x 201. National Trust, Wiltshire, UK.

Embora tenha evoluído para o estilo Neoclássico, a pintura de Kauffman apresenta resquícios do Rococó francês, bem como, uma grande influência da obra produzida por Sir Joshua REYNOLDS[4], principalmente na representação graciosa e elegante dos personagens.

Como tantos outros artistas do período, Kauffman representa a despedida de Heitor e Andrômaca, notadamente, em uma cena mais íntima e acolhedora. Aqui, a esposa, ternamente, se despede do herói disposto a morrer, pois é seu dever. Comovido, ao ouvir Andrômaca, Heitor lhe aperta a mão, assegurando voltar.

Sem mais retardar, Heitor começa a se afastar do local em que deixara a esposa, quando alcança-lhe Páris, orgulhoso, vestido com as armas em bronze, justificando o atraso. Em resposta lhe diz Heitor:

Com o retorno de Heitor e Páris a batalha se equilibra. Zeus proíbe os deuses de participarem das lutas e os Troianos empurram os gregos de volta para suas naus.

No Canto IX, pressionado e aconselhado, Agamémnon decide aplacar a ira de Aquiles para evitar a derrota, enviando “ricos e infindos presentes”, além disso “sete escravas prendadas” e “formosas acima das outras mulheres” e o mais importante, Briseide, que jura “nunca ter o seu leito subido, nem com ela deitado”. (HOMERO, Ilíada, IX, 120; 128; 130; 133, 2015, p. 204-205)

E mais: Se Aquiles desejar pode se tornar seu genro, pois três lindas filhas ele tem.

E, ainda mais: sete cidades populosas e belas lhe serão ofertadas, se Aquiles submeter-se e dominar sua cólera.

Imediatamente, são escolhidos emissários para enviar a mensagem à tenda de Aquiles: Fenice, Ajaz, Odisseu[5], Odio, Euríbates, que se vão pela praia. 

Odisseu avança como guia, parando defronte a Aquiles, que sem soltar o instrumento, salta da cadeira e os cumprimenta.

Jean-Auguste-Dominique INGRES[6] (1780-1867) Os Embaixadores de Agamémnon na Tenda de Aquiles, 1801.Óleo sobre tela, 113×146. Ecole Nationale Supérieure des Beaux-Arts de Paris, Paris, França.

Com essa pintura, Ingres ganhou o Prix de Rome, e foi para a Académie de France de Rome, em 1801.

À esquerda está o herói grego Aquiles e ao lado dele se encontra o amigo Pátroclo. À direita, a delegação de Agamémnon, com Odisseu à frente, de capa vermelha, tentando persuadir Aquiles a se juntar aos gregos. No canto, de costas, Ajaz telamônio, e atrás dos dois heróis, o velho Fenice.

No entanto, depois de escutá-los, Aquiles rejeita os presentes, mostra-se ainda mais irado com Agamémnon e declara a intenção de partir e voltar para sua terra, onde, o velho pai, Peleu, guarda seus tesouros e reserva-lhe uma esposa.


Referências

ANTIKENSAMMLUNG DER STAATLICHEN MUSEEN ZU BERLIN. Berlim, Alemanha. Disponível em:  http://www.smb-digital.de/eMuseumPlus?service=ExternalInterface&module=collection&objectId=677309&viewType=detailView Acesso em: 23 mar. 2022.

ECOLE NATIONALE SUPÉRIEURE DES BEAUX-ARTS DE PARIS, Paris, França.Disponível em: www.ensba.fr/ow2/catzarts/images/Prp040-4327.JPG Acesso em: 23 mar. 2022.

HOMERO. Ilíada. Tradução Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. 536 p.

HOMERO. Ilíada. Tradução Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin & Companhia das Letras, 2017. 715 p.

METROPOLITAN MUSEUM OF ART, Nova Iorque, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/340717 Acesso em: 23 mar. 2022.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010211702  Acesso em: 23 mar. 2022.

MUSÉE NATIONAL DU CHÂTEAU DE FONTAINEBLEAU, Fontainebleau. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010211702  Acesso em: 23 mar. 2022.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010061986 Acesso em: 23 mar. 2022.

NATIONAL TRUST, Wiltshire, UK. Disponível em: http://www.nationaltrustcollections.org.uk/object/872177 Acesso em: 23 mar. 2022.

THE J. PAUL GETTY MUSEUM, VILLA COLLECTION, Malibu, California. Disponível em: https://www.getty.edu/art/collection/artists/296/underworld-painter-greek-apulian-active-about-340-310-bc/ Acesso em: 23 mar. 2022.


[1]     Saiba mais de Joseph-Marie VIEN (1716-1809) em: https://arteref.com/artigos-academicos/joseph-marie-vien-neoclassicismo-franca/

[2] Saiba mais de Benjamin WEST[2] (1738-1820) em: https://arteref.com/artigos-academicos/pinturas-benjamin-west-e-john-copley/

[3]   Saiba mais de Maria Anna Angelika Kauffmann, conhecida por Angelica KAUFFMAN (1741-1807) em: https://arteref.com/artigos-academicos/o-julgamento-de-paris-e-o-rapto-de-helena/

[4] Saiba mais sobre Sir Joshua REYNOLDS (1723-1792) em: https://arteref.com/artigos-academicos/pintura-inglesa-iluminismo-estetica-xviii/

[5]     Odisseu, chamado de Ulisses pelos romanos, é uma figura secundária na narrativa da disputa entre gregos e troianos. O herói, grande guerreiro e extremamente ardiloso, é casado com Penélope, filha de Ícaro, prima de Helena.

[6] Saiba mais de Jean-Auguste-Dominique INGRES[6] (1780-1867) em: https://arteref.com/artigos-academicos/jean-auguste-dominique-ingres/

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Fatima Sans Martini

Mestre em Artes Visuais com Abordagens Teóricas, Históricas e Culturais pela UNESP. Pós-graduação em História da Arte pela FAAP-SP. Formada em Artes Plásticas. Experiência profissional: Projetista em Design de Interiores. Experiência acadêmica: nas disciplinas de Projetos, Desenho, História do Mobiliário e História da Arte nos cursos de Arquitetura e Design de Interiores. Professor das disciplinas de Estética e História da Arte Mundial e Brasileira no Curso de Artes da Unimes, Universidade Metropolitana de Santos, SP

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