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Jean-Auguste INGRES: a tradição da pintura histórica na França

Por Fatima Sans Martini - dezembro 15, 2021
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Aluno de Jacques-Louis DAVID[2], Jean-Auguste-Dominique INGRES (1780-1867) se tornou um ícone da pintura conservadora na França do século XIX.

Nos retratos e nas cenas históricas, Ingres perpetuou a tradição clássica com figuras elegantemente desenhadas, muitas vezes audaciosamente distorcidas, distantes da estética romântica que alcançava e alterava sua época.

Em Montauban, cidade natal francesa, Ingres recebeu as primeiras instruções artísticas de seu pai. Da academia em Toulose, onde foi matriculado ainda muito jovem, Ingres chegou ao ateliê de David em 1797, do qual saiu dois anos depois para a École des Beaux-Arts. Ali, com a obra Os Embaixadores de Agamémnon na Tenda de Aquiles[3], Ingres ganhou o Prix de Rome, transferindo-se para a Académie de France de Rome, em 1801. E foi durante a estadia na cidade italiana que Ingres passou a apreciar as esculturas medievais, afastando-o um pouco dos conceitos davidiano na época. Essa aproximação com a arte gótica causou certo escândalo, quando de volta a Paris, no Salão de 1806, Ingres apresentou a imponente pintura de Napoleão no Trono Imperial[4], uma obra, que segundo os críticos, mostrava atitude e simetria hà muito ultrapassadas.

Com uma bolsa de quatro anos, pela Académie de France de Rome, Ingres retornou à Roma, disposto a estudar os grandes mestres renascentistas e os diferentes estilos medievais. Solicitado a mostrar provas de seu progresso, Ingres apresentou em 1808, além de inúmeros retratos e estudos de anatomia, a obra: A Banhista de Valpinçon, a qual causou uma série de polêmicas sobre sua forma de manipular a anatomia e a maneira de empregar certa sobriedade linear.

Jean-Auguste-Dominique INGRES (1780-1867) A Banhista de Valpinçon, 1808. Óleo sobre tela, 146x 97,5. Musée du Louvre, Paris, França.
Jean-Auguste-Dominique INGRES (1780-1867) A Banhista de Valpinçon, 1808. Óleo sobre tela, 146x 97,5. Musée du Louvre, Paris, França.

Ingres apresenta a banhista de costas: sem o menor sinal de movimento, mas sem ostentar uma imobilidade estatuária. A grande figura está como que dilatada e suspensa no espaço estreito, cheio de luz prateada, refletida, rarefeita. […] Ingres é o primeiro a compreender que a forma não é senão o produto do modo de ver ou experimentar a realidade, próprio do artista; isto é, o primeiro a reduzir o problema da arte ao problema da visão. (ARGAN, 2001, p. 50-52)

Quando o mandato de Ingres como estudante na Academia expirou em 1810, ele optou por permanecer na Itália, pintando retratos de oficiais franceses e algumas raras pinturas históricas e religiosas e em 1811 participou da redecoração do Palazzo del Quirinale, na Piazza di Monte Cavallo, futura residência do filho de Napoleão em Roma, com obras em têmpera para simular frescos, das quais um desenho de uma delas – Rômulo,conquistador de Acron, se encontra no acervo do Louvre.

Jean-Auguste-Dominique INGRES (1780-1867) Rômulo, conquistador de Acron. Desenho.  Caneta e tinta marrom, aquarela e lápis preto. 31x50,7. Musée du Louvre, Paris, França.
Jean-Auguste-Dominique INGRES (1780-1867) Rômulo, conquistador de Acron. Desenho. Caneta e tinta marrom, aquarela e lápis preto. 31×50,7. Musée du Louvre, Paris, França.

As encomendas cessaram em 1815, com a queda do império napoleônico e a evacuação francesa de Roma, ainda assim, Ingres permaneceu em Roma, pintando pequenos retratos.

Apesar da polêmica em torno de seus nus, com a obra – O voto de Luís XIII[5] (1824) –   um exemplo da união da Igreja e do Estado, sob o regime da Restauração Bourbon[6], Ingres foi eleito para a Académie des Beaux-Arts e ganhoureconhecimento e elogios da crítica oficial francesa, que precisava de um líder forte o suficiente para ocupar o lugar de David, e um possível defensor das tradições da grande arte. Segundo Janson (1992,  p. 599) “o que tinha sido um estilo revolucionário, apenas meio século antes, petrificara-se agora em rígido dogma, apoiado pelo governo e sustentado pelo peso da opinião conservadora.”

No Salão de 1819, Ingres submeteu, além da pintura, Ruggiero Libertando Angélica, a obra: Grande Odalisca, executada em 1814 para Caroline Murat, irmã de Napoleão e rainha de Nápoles. Hostil às duas obras, os críticos se posicionaram indignados com a modelagem radicalmente atenuada, bem como as distorções anatômicas habituais dos nus femininos, principalmente da jovem odalisca – o alongamento de suas costas, as nádegas expandidas e o braço direito desossado e elástico – trouxeram a Ingres inúmeras especulações, estas que depois foram aclamadas pelos modernistas.

Jean-Auguste-Dominique INGRES (1780-1867) Grande Odalisca, 1814. Óleo sobre tela, 91x162. Musée du Louvre, Paris, França.
Jean-Auguste-Dominique INGRES (1780-1867) Grande Odalisca, 1814. Óleo sobre tela, 91×162. Musée du Louvre, Paris, França.

Ingres, pode se afirmar, sempre considerou o desenho mais importante que a pintura. Todavia, em a Grande Odalisca, é notável o emprego do colorido e texturas.

O assunto exótico, exaltando o encantamento das Mil e Uma Noites, é, em si mesmo, caracteristicamente romântico. […] Apesar da veneração de Ingres por Rafael, este nu não encarna qualquer ideal clássico de beleza. As suas proporções, a graça lânguida e a estranha mistura de reserva e voluptuosidade, antes nos fazem lembrar Parmigianino[7]. (JANSON, 1992, p. 600)

Animado com o sucesso, Ingres voltou para Paris e em 1825, abriu um ateliê, que rapidamente se tornou um dos maiores e mais importantes de Paris, embora fosse contrário às rotinas acadêmicas. Dois anos depois, no Salão de 1827, Ingres reafirmou a tradição neoclássica francesa com a pintura: A Apoteose de Homero, inspirada na Escola de Atenas[8], de RAFAEL[9] Sanzio.

Jean-Auguste Dominique INGRES (1780-1867) Apoteose de Homero, 1827. Óleo sobre tela, 386x512. Musée du Louvre, Paris, França.
Jean-Auguste Dominique INGRES (1780-1867) Apoteose de Homero, 1827. Óleo sobre tela, 386×512. Musée du Louvre, Paris, França.

Em frente a um templo com um frontão inscrito com seu nome, o poeta Homero, divinizado está sentado em um pedestal. Vitória, a deusa alada coloca uma coroa de louros em sua cabeça. A seus pés, duas alegorias: a Ilíada com a espada e a Odisséia com remo. Quarenta e seis homens da Antiguidade se espalham na cena. à esquerda, Ésquilo com um rolo de pergaminho, Apeles com pincéis e paleta; à direita, Píndaro com sua lira, Fídias com seu malho, Dante e Rafael. Os modernos se encontram abaixo: Racine, Boileau, Molière, Corneille, La Fontaine e Nicolas Poussin. (Musée du Louvre. Tradução nossa[10])

Nomeado, em 1829, presidente da École des Beaux-Arts, Ingres apresentou no Salão de 1833, o Retrato de Monsieur Bertin[11], uma obra realista de intensa personalidade e uma homenagem, de certa forma, a nova classe média francesa, uma pintura, a qual novamente, dividiu elogios e reprovações.  

Em 1835, uma vez mais na Itália, Ingres permaneceu ali por cerca de seis anos na direção da Académie de France de Rome em Villa Medici, em contínua produção de retratos e pinturas históricas, carregadas de detalhes arqueológicos.

De volta à França, Ingres se tornou o retratista mais procurado pela sociedade francesa, em especial a elite feminina.

Por volta do setenta anos, o idoso Ingres dedicou-se aos temas eróticos, voltando-se às pinturas de nus femininos, revisitando as antigas obras, entre elas: Banho Turco, finalizado em 1862, aos oitenta e dois anos. A pintura é uma síntese da eterna procura de Ingres pelo equilibrio formal e observação isenta de preconceitos: um aglomerado de corpos femininos, entre contorções e distorções anatômicas, inserido em um espaço restrito convertido em tondo[12].  

Jean-Auguste Dominique INGRES (1780-1867) O Banho Turco, 1862. Óleo sobre tela, diâmetro 108. Musée du Louvre, Paris, França.
Jean-Auguste Dominique INGRES (1780-1867) O Banho Turco, 1862. Óleo sobre tela, diâmetro 108. Musée du Louvre, Paris, França.

A morte de Ingres, na segunda metade do século XIX, marcou o fim da tradição da pintura monumental francesa apoiada em temas históricos. Artistas da nova geração clamavam por temas heroicos da vida moderna e aplaudiram a chegada do Realismo.  No entanto, a aventura anatômica e o vigor do traço, orientados pelo grande mestre acadêmico, foram lembrados e reconhecidos, ainda no final do século XIX, por dois grandes impressionistas, Edgar DEGAS (1834-1917) e Pierre-Auguste RENOIR (1841-1919), seguidos pelos modernos, Henri MATISSE (1869-1954) e Pablo PICASSO (1881-1973), na virada do século XX.   


Referências

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução Denise Bottmann; Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 709 p.

ECOLE NATIONALE SUPÉRIEURE DES BEAUX-ARTS DE PARIS, Paris, França.    Disponível em:  www.ensba.fr/ow2/catzarts/images/Prp040-4327.JPG Acesso em: 27 nov. 2021.

JANSON H. W. História da Arte. Tradução J.A. Ferreira de Almeida; Maria Manuela Rocheta Santos. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 823 p.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em:   https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010063647 Acesso em: 27 nov. 2021.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010066528 Acesso em: 27 nov. 2021.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl020113109 Acesso em: 27 nov. 2021.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010065566 Acesso em: 27 nov. 2021.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010065748 Acesso em: 27 nov. 2021.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010066845 Acesso em: 27 nov. 2021.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010066606 Acesso em: 27 nov. 2021.

NATIONALMUSEUM, STOCKHOLM, Suécia. Disponível em: http://collection.nationalmuseum.se/eMP/eMuseumPlus?service=ExternalInterface&module=collection&objectId=19221&viewType=detailView Acesso em: 27 nov. 2021.


[1]     Jean-Auguste-Dominique INGRES (1780-1867) Ruggiero Libertando Angélica, 1819. Óleo sobre tela, 147×190. Musée du Louvre, Paris, França. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010066293 Acesso em: 27 nov. 2021.

A cena é retirada de um episódio do poema épico do século XVI Orlando Furioso, de Ludovico ARIOSTO (1474-1533). Ruggiero, sobre um hipogrifo, salva Angélica, que foi raptada por bárbaros. Acorrentada a uma rocha, ela foi deixada como um sacrifício a um monstro marinho.

[2]     Saiba mais sobre Jacques-Louis DAVID (1748 -1825) em: https://arteref.com/artigos-academicos/expansao-neoclassica-seculo-xviii/

[3]     Jean-Auguste-Dominique INGRES (1780-1867) Estudo: Os Embaixadores de Agamémnon na Tenda de Aquiles, 1801. Óleo sobre madeira, 25×32,5. Nationalmuseum, Stockholm, Suécia. Disponível em: http://collection.nationalmuseum.se/eMP/eMuseumPlus?service=ExternalInterface&module=collection&objectId=19221&viewType=detailView Acesso em: 27 nov. 2021. Original: Les ambassadeurs d’Agamemnon sous la tente d’Achille, 1801.Trabalho com vista ao Prix de Rome de Peinture.  Óleo sobre tela, 113×146. Ecole Nationale Supérieure des Beaux-Arts de Paris, Paris. Disponível em: www.ensba.fr/ow2/catzarts/images/Prp040-4327.JPG Acesso em: 27 nov. 2021.

[4]     Jean-Auguste-Dominique INGRES (1780-1867) Napoleão I no trono imperial, 1808. Óleo sobre tela, 260×163. Musée de l’Armée Invalides, Paris. Disponível em:https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010055671 Acesso em: 27 nov. 2021.

[5]     Jean-Auguste-Dominique INGRES (1780-1867) O voto de Luís XIII, 1824. Óleo sobre tela,  421×262. Cathédrale Notre-Dame de l’Assomption de Montauban, França.

[6]     Período histórico entre a queda de Napoleão Bonaparte em 1814 e a Revolução de Julho que ocorreu em 1830, a Restauração Francesa também é chamada de Restauração Bourbon, sob o reinado de Luís XVIII, irmão de Luís XVI.

[7]     No período chamado de Maneirismo, movimento de meados do século XVI ao início do XVII, Girolamo Francesco Maria Mazzola, mais conhecido por PARMIGIANINO (1503-1540) transformou seus modelos em corpos de outra raça, com membros longos e polidos como marfim, totalmente afastados das normas acadêmicas impostas no Renascimento.  

[8]     RAFAEL (1483-1520) Stanza della Segnatura,1509/11. Fresco, ca. 500×770 com a base. A Escola de Atenas tem por tema o Templo da Filosofia, a verdade racional. Influenciado, no período, pela revalorização do pensamento clássico, Rafael faz uma homenagem à Filosofia, distribuindo no cenário em perspectiva, cerca de sessenta diferentes filósofos no mesmo tempo e espaço da Escola de Atenas, na Antiga Grécia, como se eles tivessem convivido e trocassem suas opiniões acerca do mundo e da própria filosofia.

[9]     Saiba mais de RAFAEL de Sanzio (1483-1520) em: https://arteref.com/artigos-academicos/rafael-a-perfeicao-no-renascimento-pleno/ Acesso em: 27 nov. 2021.

[10]   Devant un temple au fronton inscrit de son nom, Homère, poète divinisé assis sur un piédestal. Une Victoire ailée lui met une couronne de lauriers sur la tête. À ses pieds, deux allégories: l’Iliade avec l’ épée, l’Odyssée une rame. Quarante-six hommes de l’Antiquité en pied: à gauche Eschyle avec un rouleau de parchemin, Apelle avec pinceaux et palette; à droite Pindare avec sa lyre, Phidias avec son maillet, Dante et Raphaël. Les autres modernes placés plus bas et à mi-corps: Racine, Boileau, Molière, Corneille, La Fontaine, Nicolas Poussin. Musée du Louvre, Paris, França. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010065748 Acesso em: 27 nov. 2021.

[11]   Jean-Auguste-Dominique INGRES (1780-1867) Retrato de Monsieur Bertin, Louis-François Bertin, dit Bertin l’Aîné (1766-1841), 1832. Óleo sobre tela, 116×95. Musée du Louvre, Paris, França. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010066845 Acesso em: 27 nov. 2021.

[12]   Composição realizada no interior de uma forma circular, chamada de tondo ou de tondi, quando no plural. A forma foi usada por muitos artistas do Renascimento. Uma das mais conhecidas e considerada uma das obras primas do Cinquecento italiano, é o Tondo Doni, executada por MICHELANGELO (1475-1564) em cerca de 1506-1508, encomendada por Agnolo Doni, presente no acervo da Galleria degli Uffizi, Florença, Itália.

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melissa
melissa
9 meses atrás

Muito bom!