Artigos Acadêmicos

Da Vinci e o Renascimento Pleno ou Alta Renascença

O artista criou a partir de sua imaginação e intuição um caminho inexplorado e infinito, um meio para iludir a realidade

Por Fatima Sans Martini - agosto 12, 2019
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O intervalo de tempo que vai do final do século XV e início do século XVI é considerado o mais alto período renascentista, chamado de Renascimento Pleno ou Alta Renascença.

Sob a proteção de patronos, os artistas se expressam livremente. De Florença, a renascença se desloca e se estende a Veneza e, principalmente, à cidade de Roma, que se torna o centro cultural do ocidente. 

As técnicas, da perspectiva frontal, a Secção áurea, a perspectiva atmosférica, o desenvolvimento do claro-escuro, o escorço e a composição triangular, são aprimoradas. Enquanto o sfumato, a graduação da cor e o claro-escuro são elaborados no Pleno Renascimento.

Entre os grandes mestres que nasceram no período encontram-se os italianos: Leonardo di ser Piero DA VINCI (1452-1519); CARPACCIO (c. 1460/5-c.1525); Miguel Ângelo Buonarroti, conhecido por MICHELANGELO (1475-1564); GIORGIONE (c.1476/7-1510); RAFAEL de Sanzio (1483-1520); CORREGGIO (1489-1534); DEL SARTO (1486-1530) e TICIANO(c.1488/90-1576).


Leonardo Da Vinci

Nascido na região de Florença, Leonardo DA VINCI (1452-1519) foi educado na oficina do pintor e escultor Andrea del VERROCCHIO[1].

De acordo com Gombrich (2000), com os colegas e o mestre, Leonardo foi introduzido na técnica da fundição, aprendeu os fundamentos sobre a perspectiva, o emprego das cores, estudou as plantas e os animais além de preparar os quadros e esculturas, mediante infindáveis estudos de nus e modelos vestidos.

Talentoso, o jovem artista viveu para explorar o mundo visível. Famoso por seus desenhos e pela técnica do sfumato, criou a partir de sua imaginação e intuição um caminho inexplorado e infinito, um meio para iludir a realidade. Muitas de suas pinturas se perderam, pois, Leonardo utilizava as técnicas mais diversas, nem sempre aconselháveis. Mas as poucas obras e seu caderno de anotações, com desenhos e diagramas científicos, forneceram uma imensa contribuição às futuras gerações de artistas.

Da Vinci passou a maior parte do início de sua vida profissional, por volta de 1482 a 1499, a serviço de Ludovico Sforza (Ludovico il Moro), em Milão, onde recebeu a encomenda da obra Virgem dos Rochedos[2] e a pintura mural com o tema da Ultima ceia para a sala de refeição do Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão, na Itália.

Leonardo DA VINCI (1452-1519) A Última Ceia, ca.1495-1499
Leonardo DA VINCI (1452-1519). A Última Ceia, ca.1495-1499. Fresco. Têmpera e outros materiais, 460 × 88. Convento de Santa Maria delle Grazie, Milão, Itália.

Na obra, Leonardo representa o momento em que Jesus, durante sua última refeição ao lado dos doze apóstolos, anuncia que será traído.

Os doze apóstolos se dividem em quatro grupos de três, em que se ligam num jogo harmonioso de gestos, movimentos e contra movimento. (GOMBRICH, 2000)

Ao fundo da composição, três janelas deixam transparecer a paisagem externa. Nas paredes laterais, Leonardo adiciona tapeçarias e representa o teto no estilo caixotão (renascentista)

Ao contrário da maioria das representações cristãs, Leonardo retira a aureola sobre a cabeça de Jesus, cuja expressão transmite tranquilidade e melancolia, enquanto seus apóstolos reagem, demonstrando inquietação e questionamento.

Do centro para o lado direito, da obra, encontram-se seis apóstolos: Tomé, Tiago Maior, Felipe, Mateus, Judas Tadeu e Simão. Tomé levanta o indicador. Tiago Maior abre os braços espantado; perto dele, Filipe coloca as mãos no peito, em devoção, protestando inocência.

O lado direito da obra está mais iluminado do que o esquerdo e reproduz o ambiente do refeitório, com as janelas do lado esquerdo iluminando o fundo a direita.

A altura em que a obra está colocada, deixa o observador de frente para a cena, partilhando da refeição.

Da esquerda para o centro encontram-se os apóstolos: Bartolomeu, Tiago Menor e André, Pedro, Judas e João. João se inclina para ouvir a pergunta de Pedro.

Na mão direita, Judas (na sombra) segura um saco de dinheiro e exibe alguns sinais de culpa ao demonstrar espanto e inclinar a cabeça para trás em defesa. As mãos similares de Jesus e de Judas quase se encontram sobre a mesa.

Leonardo DA VINCI (1452-1519) DETALHE: A Última Ceia, ca.1495-1499. Fresco. Têmpera e outros materiais, 460 × 88. Convento de Santa Maria delle Grazie, Milão, Itália.
Leonardo DA VINCI (1452-1519) DETALHE: A Última Ceia, ca.1495-1499. Fresco. Têmpera e outros materiais, 460 × 88. Convento de Santa Maria delle Grazie, Milão, Itália.

A Última Ceia foi uma das obras que mais sofreu com o desgaste do tempo. Ao invés de utilizar a técnica confiável do afresco, Leonardo aplicou a técnica à seco, como se fosse um quadro, aplicando uma mistura de têmpera e óleo sobre uma camada de gesso sobre o estuque, condenando a longevidade da obra, que nos primeiros anos após sua conclusão, já apresentava sinais de deterioração e mofo.

Em 1943, durante os bombardeios da Segunda Guerra Mundial, o complexo de Santa Maria delle Grazie foi quase que completamente destruído. As paredes laterais do refeitório não resistiram; a Última Ceia, protegida por poucos sacos de areia, ficou em pé. Coberta posteriormente por uma tela, a obra permaneceu a céu aberto, exposta ao sol e chuva, antes que a cidade e seus monumentos fossem reconstruídos

Com a deposição de Ludovico Sforza, Leonardo, abandonou Milão e fugiu para Veneza.

Ao retornar a Florença, em 1500, desenhou em sua oficina, várias versões de Santa Ana, a Virgem Maria e o menino Jesus[3].

Após uma breve passagem por Milão, Leonardo foi morar em Roma, no mesmo periodo que RAFAEL (1483-1520) e MICHELANGELO (1475-1564) e logo depois passou a trabalhar diretamente para o rei Francisco I da França, quando na ocasião passou a residir no solar de Clos Lucé, próximo ao Castelo de Amboise, residência do rei.

No solar, Da Vinci veio a falecer, deixando como legado a pintura de Santa Ana com a Virgem e o menino Jesus e  o famoso quadro de Mona Lisa, executado entre 1503 e 1506.

Obras executadas com uma técnica que somente Leonardo, na sua época, descobriu: que o pintor deve deixar para o observador algo para advinhar, que a forma deve ser deixada indefinida, fundindo-se com outra, desaparecendo numa sombra, por exemplo. A técnica que os italianos chamam de sfumato.

De acordo com Gombrich (2000) Da Vinci conhecia a fórmula mágica que infundia vida nas cores espalhadas por seu extraordinário pincel.

Leonardo DA VINCI (1452-1519) Cabeça da Virgem em três quartos virada para a direita, ca. 1510-1513. Desenho com giz preto, carvão, giz vermelho e alguns traços de giz branco; alguns restos caneta e tinta marrom no canto superior direito (não aplicadas por Leonardo) 20,3 × 15,6. Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/337496 Acesso em: 26 jul. 2019.

A cabeça da Virgem está entre os exemplos italianos da técnica do duplo giz empregado nos desenhos em que as cores vermelho e preto são misturadas com um efeito pictórico extremamente homogêneo adaptado à técnica do sfumato. O desenho aceito como autêntico por diferentes autores junto ao Metropolitan Museum of Art, parece ter servido a um propósito criativo e exploratório, que aponta para a concepção final da pintura Santa Ana, a Virgem Maria e o menino Jesus.

O desenho, associado a outros sobre a mesma pintura é um exemplo importante do “desenvolvimento inovador de Leonardo das complexas técnicas pictóricas a fim de materializar suas pesquisas sobre perspectiva da cor, o desaparecimento das formas e as gradações de luz e sombra.” (METROPOLITAN MUSEUM OF ART, 2019. Tradução nossa)[4]


Veja também sobre o assunto


Referências

CENÁCOLO VINCIANO. Convento de Santa Maria delle Grazie, Milão, Itália. Disponível em: https://legraziemilano.it/il-cenacolo/ Acesso em: 26 jul. 2019.

GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: LTC, 2000. 714 p.

JANSON H. W. História da Arte. Tradução J.A. Ferreira de Almeida; Maria Manuela Rocheta Santos. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 823 p.

MARTINI, Fátima R. S. A Pintura Renascentista e Maneirista nos Museus. In Curso de Extensão/UNIMES virtual. Santos/SP: UNIMES, 2016. 57 p.

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/337496 Acesso em: 26 jul. 2019.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em:https://www.louvre.fr/en/oeuvre-notices/virgin-and-child-saint-anne Acesso em: 26 jul. 2019.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em:https://www.louvre.fr/en/oeuvre-notices/mona-lisa-portrait-lisa-gherardini-wife-francesco-del-giocondo Acesso em: 26 jul. 2019.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em:https://www.louvre.fr/en/oeuvre-notices/virgin-rocks. Acesso em: 26 jul. 2019.

SANTI, Bruno. Leonardo da Vinci. Antella, Florença: Scala Group, 1990. 80 p.


[1]    Ourives, escultor e pintor, Andrea di Francesco di Cione, conhecido como Andrea del VERROCCHIO (Florença, Itália, 1435 – Veneza, 1488) trabalhou na corte de Lorenzo Médici. Grande escultor, sua famosa oficina foi frequentada por Leonardo DA VINCI (1452-1519); Sandro BOTTICELLI (1444/45-1510); Pietro Vannucci, conhecido por PERUGINO (ca.1448-1523); Domenico GHIRLANDAIO (1448/9-1494) e suas obras influenciaram MICHELANGELO (1475-1564) 

[2]    Da Vinci representa a Virgem Maria, Cristo, São João Batista e o arcanjo Uriel, na paisagem rochosa. A composição piramidal, rigorosamente ordenada, não impede o movimento das figuras; e a interação de olhares e gestos assumem uma nova intensidade na luz difusa, que suaviza os contornos sem enfraquecer a modelagem das figuras. A obra doada ao rei da França, Luís XII, faz parte do acervo do Musée du Louvre, em Paris, na França. Disponível em: https://www.louvre.fr/en/oeuvre-notices/virgin-rocks Acesso em: 26 jul. 2019.

[3]    A pintura baseada nos desenhos, espalhados por diferentes museus, parece não ter sido terminada por DA VINCI. O grupo mostra Santa Ana, a Virgem Maria e o menino Jesus com o cordeiro de Deus à borda de um precipício. O sfumato, efeito pictórico da marca de Leonardo, unifica a composição triangular (com Santa Ana como eixo da composição) envolvendo as figuras, de expressiva delicadeza, e a paisagem em uma névoa difusa, evanescente e poética. Disponível em:https://www.louvre.fr/en/oeuvre-notices/virgin-and-child-saint-anne Acesso em: 26 jul. 2019.

[4]    this sheet is an important example of Leonardo’s innovative development of complex pictorial techniques of drawing, in order to materialize his scientific research on the perspective of color, the disappearance of form, and the gradations of light and shadow. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/337496 Acesso em: 26 jul. 2019

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