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O artista conquista espaço na Arte Renascentista

Ele passa a assinar suas produções e trabalhar em grandes encomendas, asseguradas pelos mecenas

Por Fatima Sans Martini - julho 16, 2019
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Os artistas europeus consideravam a arte renascentista italiana um modelo ideal a ser seguido. Influenciados por novos elementos estéticos, viajavam constantemente às cidades italianas transformadas em centros culturais. Nesse período, destacam-se os artistas: Robert CAMPIN (ca. 1375 – 1444), os irmãos: Jan van EYCK (ca.1390 – 1441) e Hubert van EYCK (1366 – 1426) e Rogier van DER WEIDEN (ca.1399 – 1464), todos dos Países Baixos[1].

O artista conquista espaço na Arte Renascentista, passando a assinar suas produções e trabalhando em grandes encomendas, assegurados pelos mecenas, que divulgavam seus nomes.

Na pintura verificam-se algumas características: secção áurea[2]; a perspectiva frontal ou linear; a perspectiva atmosférica; o escorço[3]; desenvolvimento do claro-escuro; composição triangular; e o emprego da tela e da tinta a óleo.

arte renascentista; Oficina de Robert CAMPIN (ca. 1375-1444) Tríptico da Anunciação (Retábulo de Merode) ca. 1427-1432. Óleo sobre madeira. Painel central, 64.1 x 63.2. Retábulo aberto, 64.5 x 117.8. Metropolitan Musem of Art, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/470304 Acesso em: 11 jul. 2019.
Oficina de Robert CAMPIN (ca. 1375 – 1444) Tríptico da Anunciação (Retábulo de Merode) ca. 1427 – 1432. Óleo sobre madeira. Painel central, 64.1 x 63.2. Retábulo aberto, 64.5 x 117.8. Metropolitan Musem of Art, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/470304 Acesso em: 11 jul. 2019.

Executado em Tournai, ao sul dos Países Baixos, o retábulo central feito na Oficina de Robert CAMPIN (ca. 1375 – 1444) mostra o anjo Gabriel prestes a anunciar para a Virgem Maria que ela será mãe de Jesus.

No lado direito, José trabalha em sua marcenaria. Do lado esquerdo o doador ajoelhado testemunha a cena central através da porta aberta. Sua esposa se ajoelha atrás dele e um mensageiro espera no portão do jardim.

Uma das mais celebradas obras dos Países Baixos — particularmente por seus detalhes, imagens ricas e excelente condição — este tríptico pertence a um grupo de pinturas associadas com a oficina de Tournai de Robert Campin às vezes chamado do mestre de Flémalle. Documentos indicam que ele contratou pelo menos dois assistentes, o jovem Rogier VAN DER WEYDEN[4] e Jacques DARET[5].

Existem evidências que o retábulo foi executado em fases distintas. O painel central foi executado na oficina de Campin, mas os dois painéis laterais foram aplicados posteriormente. Provavelmente após o casamento do doador, quando as figuras da esposa e do mensageiro foram adicionadas.

O Retábulo de Mérode encontra-se entre as melhores obras de Campin. Na época foi uma surpresa para o observador a sensação de estar vendo, através da superfície de um painel, um mundo com todas as realidades da vida cotidiana. Um dos primeiros painéis sobre a Anunciação que tem por cenário um interior doméstico completamente mobiliado e também o primeiro em que se honra São José, o pai de Jesus. 

“A primeira fase — e talvez a decisiva — da revolução pictural na Flandres” está representada por Robert Campin, o “principal pintor de Tournai”, que influenciado inicialmente pela pintura de iluminuras, soube interpretar em suas obras a observação realista do mundo. (JANSON, 1992, p. 372)

Junto com os irmãos van Eyck[6], Campin é considerado o fundador da escola flamenga e um dos responsáveis por indicar aos seus contemporâneos as “possibilidades artísticas” da pintura à óleo. (JANSON, 1992, p. 374)

arte renascentista; Jan VAN EYCK (c.1390 -1441) Díptico, A Crucificação e O Último Julgamento, 1440-41. Óleo sobre tela transferido para painel de madeira, 56.5 x 19.7. Metropolitan Musem of Art, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/436282 Acesso em: 12 jul. 2019.
Jan VAN EYCK (c.1390 – 1441) Díptico, A Crucificação e O Último Julgamento, 1440 – 41. Óleo sobre tela transferido para painel de madeira, 56.5 x 19.7. Metropolitan Musem of Art, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/436282 Acesso em: 12 jul. 2019.

Representante maior do final do Gótico e início do Renascimento, Jan VAN EYCK (c.1390 – 1441) mostra na pintura do Último Julgamento todo o horror do inferno abaixo do anjo vingador, enquanto acima, anjos e santos tem a honra de serem escolhidos para o céu.

Acima do horizonte, tudo é ordem, simetria e calma, enquanto abaixo dele — na terra e no reino subterrâneo de Satanás — prevalece a condição oposta. (JANSON, 1992, p. 375)

É possível que os dois painéis: A crucificação ou O Calvário e o Último Julgamento sejam parte de um Tríptico.

Van Eick evoca uma notável gama de emoções entre a multidão que observa A Crucificação em uma Jerusalém imaginada. Abaixo dos três crucificados em destaque pelo azul do céu, o drama da mãe de Jesus amparada por outras mulheres. No centro, os florentinos se dividem entre o espanto e o pouco caso da cena dramática, em que alguns conseguem até se divertir.

Uma análise atenta do painel do Calvário, desde as figuras do primeiro plano até a distante Jerusalém, e aos cumes nevados do fundo, mostra-nos um decrescimento gradual na intensidade das cores locais e no contraste do claro-escuro, tendendo para um tom uniforme de um pálido cinzento-azulado, de modo que as montanhas mais distantes se fundem imperceptivelmente na cor do céu. (JANSON, 1992, p. 374)

Esse fenômeno visual que mantém as montanhas ao longe é o que se denomina perspectiva atmosférica, “fundamental para a percepção da profundidade do espaço mais que a perspectiva linear que registra a diminuição do tamanho aparente dos objetos” de acordo com o seu afastamento. (JANSON, 1992, p. 374)

O emprego da técnica da perspectiva atmosférica a partir das obras de Van Eick sugere o emprego do óleo, em que se tornou possível a sobreposição de “camadas opacas e translúcidas de tinta” aliadas à “sensibilidade individual” e à “perícia artesanal” do artista. (JANSON, 1992, p. 375)


Veja mais sobre o tema


Referências

ARGAN, Giulio Carlo. História da arte italiana: de Giotto a Leonardo. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. 448 p.

GOMBRICH, E. H. A História da Arte. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: LTC, 2000. 714 p.

HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 1032 p.

JANSON H. W. História da Arte. Tradução J.A. Ferreira de Almeida; Maria Manuela Rocheta Santos. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 823 p.

MARTINI, Fátima R. S. A Pintura Renascentista e Maneirista nos Museus. In Curso de Extensão/UNIMES virtual. Santos/SP: UNIMES, 2016. 57 p.

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/470304 Acesso em: 11 jul. 2019.

METROPOLITAN MUSEM OF ART, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/436282 Acesso em: 12 jul. 2019.


[1]    Costa da Europa Ocidental, banhada pelo mar do Norte, os Países Baixos, constituídos por Holanda do norte e Holanda do sul, fazem fronteira ao sul com a Bélgica e a leste com a Alemanha.

[2]    A proporção conhecida por secção Áurea ou número de ouro, foi durante séculos, considerada a chave dos mistérios da arte. A secção Áurea é empregada na proporção entre comprimento e largura de janelas e portas, molduras de quadros, e principalmente na arte da pintura: na relação do espaço acima da linha do horizonte para o espaço abaixo e a do plano anterior para o fundo.

[3]    O escorço existe quando alguns membros do corpo humano se encontram em um plano mais próximo em consequência do ponto de vista do observador (ou do artista). Quando isso ocorre, o artista se vê obrigado a procurar artifícios e métodos capazes de representar o que se vê, de um modo reconhecível.

[4]    Rogier VAN DER WEYDEN (1399 – 1464), pintor de Tournai, em Flandres, esteve na Itália em 1450. Não só sua obra foi bastante apreciada naquele país como também ele exerceu significativa influência na escola de Ferrara. Habilidoso retratista, Rogier soube como ninguém do seu tempo acrescentar emoção às figuras. A dor estampada em seus personagens era algo ainda desconhecido na arte italiana e se refletiu não só na expressão facial como também na postura dos corpos.

[5]    Pintor flamengo, Jacques DARET (1404 – 1470) nasceu em Tornai. Aluno de Robert Campin, trabalhou ao lado de Rogier van der Weyden. Com uma obra muito semelhante ao mestre, Daret destacou-se na corte de Borgonha, onde atuou por décadas.

[6]    Os irmãos Van Eyck – Jan VAN EYCK (c.1390 – 1441) e Hubert VAN EYCK (1366 – 1426) são os responsáveis por inaugurar a fase renascentista na pintura da Bélgica. Foram os primeiros artistas registrados pela história a fazerem uso da técnica da pintura a óleo, que acaba entrando na Itália por Veneza e pioneiros na arte de representar a perspectiva atmosférica, fundamental para a percepção de profundidade do espaço.

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Maria
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Maria

Como e maravilhoso olhar para um quadro e poder entende-lo. A autora do texto nos mostra todos os detalhes importantes para a compreensao do mesmo. Maravilhoso.