Gente de Arte

A ARTE CONCEITUAL E A BAHIA DAS TRADIÇÕES

Por Equipe Editorial - novembro 26, 2013
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por Almandrade

A história da arte no Brasil dá conta apenas do que acontece nos centros. Aliás, a arte sempre dependeu dos centros culturais de informação e divulgação, com algumas raras exceções. Um país como o Brasil com uma extensão territorial e uma diversidade cultural contraditória, não se tem uma informação mais depurada do que aconteceu nas outras regiões. Era sempre um olhar à distância, que via apenas o regional e o exótico, principalmente em se falando de arte contemporânea que despontava nos anos de 1970. A partir da década de 70, com a “Arte Conceitual” a obra passa a ser de ordem mental e reflexiva, constituindo uma das inúmeras formas de expressão artísticas possíveis para o desenvolvimento de um trabalho pelo artista plástico contemporâneo. O público deixar de ser um observador passivo, ele é obrigado a refletir sobre a obra de arte, o discutível entendimento da obra de arte não é mais direto.

Mas a Bahia, com sua produção defasada, ainda era provinciana e hostil a qualquer manifestação da arte conceitual. No Manifesto: Arte-Bahia-Estagnação publicado no JORNAL A TARDE, SALVADOR, SÁBADO 12 DE FEVEREIRO DE 1979, procuramos registrar o nosso atraso:

“Para haver uma arte de vanguarda (crítica) é preciso haver instituições crítica artística, salões, escola de artes aparelhadas, mercado mínimo de operacionalidade abertas que permitam em seu interior a produção, circulação e consumo de novas informações que ampliem o repertório de signos artísticos. Na Bahia podemos constatar a ausência desses fatores, e também, como fator negativo ao desenvolvimento de novos repertórios, podemos citar a preservação de um falso patrimônio que a elite econômica se utiliza para demonstrar status e ao mesmo tempo deter a cultura, controlando a produção ideológica.

“A divulgação da arte na Bahia só é possível quando os artistas aceitam as regras do mercado e dos grupos que controlam as instituições. Um fato que vem comprovar esta situação é o Salão de Verão que inicialmente tinha como estratégia uma exposição aberta a todo e qualquer trabalho, mas de última hora os organizadores mudaram de estratégia impondo uma seleção. Somos contra, não ao fato de haver seleção, pois o situar-se só é possível quando se toma partido, o que somos contra é o tipo de seleção, não objetiva, determinada por critérios de política pessoal, burocrática etc. Mesmo o salão alternativo que surgiu em decorrência desses fatos reproduz os mesmos defeitos do salão oficial em relação à produção artística.

“A situação na arte na Bahia estagnou nas propostas da década de 60, não havendo nenhum vínculo com a produção e as discussões dos anos 70 Arte conceitual, arte ecológica, Arte Corpo, etc. este desvinculamento da arte baiana em relação ás novas estratégias, contra o circuito artístico, levam os artistas a uma prática cultural alienada.

“Abrir um espaço para a arte não é como a Fundação Cultural propôs, com o Salão de Verão, mas sim abrir um espaço para discussão aberta que venha criar novos hábitos de produção e de leitura.

“O que se pretende neste texto é contribuir para a discussão da prática alienante que ainda reina nas artes na Bahia, sincronizar o fazer artístico na Bahia com os principais centros produtores e pensar formas de minar o mercado baiano. Não podemos deixar de citar também a falta de um posicionamento ideológico dos artistas. Enfim é necessário envenenar toda uma tradição cultural medíocre e suas táticas.

“Concluindo, para revitalizar a estagnada produção artística baiana, é fundamental frisar que o fazer artístico é essencialmente um fazer sobre a linguagem no interior da estrutura  social e o questionamento deve ser neste nível. Politizar a arte e a semântica e as formas de circulação.”

 (Almandrade e Haroldo Cajazeiras Alves)

No território das artes plásticas brasileiras, a Bahia passou por um processo de amadurecimento meio lento para absorver as linguagens modernas e promover uma renovação capaz de competir com a arte produzida nos grandes centros. O que marcava a produção baiana era uma tendência à regionalização e uma recusa à universalidade, a busca de um “moderno regional”. A arte girava em torno dos limites das primeiras manifestações modernistas, dentro de um esquema pictórico que reivindicava um retorno às chamadas raízes culturais, alheia às transformações que estavam acontecendo com passagem da vanguarda para a contemporaneidade. A adaptação às novidades modernas se deu de forma aleatória, dentro de um pacto com a temática local, nordestina. A contemporaneidade custou a chegar, e acabou sendo diluída sem se assimilar direito suas questões, como uma moda fácil que vem dominando a arte brasileira. Uma arte contemporânea sem história, instantânea e descartável.

Na segunda metade da década de 1960, houve na Bahia uma força de vontade de acompanhar as diversidades da vanguarda brasileira. Não havia um procedimento de vanguarda, nem um pensamento, era mais um inconformismo com a situação em que se encontrava a Bahia diante das inquietações dos anos 1960: contracultura, Tropicália, experimentalismo e as rupturas dos suportes tradicionais. A vontade de intercâmbio com a vanguarda resultou nas Bienais da Bahia, que contou com a participação das manifestações mais importantes da época: concretismo, neoconcretismo, tropicália etc., fazendo de Salvador o centro das artes plásticas brasileiras. Chegou a provocar o cenário cultural local, contrário a uma atualização do meio de arte baiano. Como o regime político do final dos anos 60 era pouco favorável a liberdade cultural, surgiu o AI-5 e a 2ª   Bienal foi fechada. Foi o fim de uma iniciativa que deixou a arte brasileira de luto.

Sem um trânsito de informações, sem um centro de apoio e sem uma política cultural que viabilizasse possíveis linguagens experimentais, entramos na década de 1970 sem acompanhar as mudanças significativas que estavam acontecendo na produção artística e sua leitura. Entre 1972 e 74, o grupo de estudos de linguagem da Bahia (Haroldo Cajazeira, Júlio César Lobo, Orlando Pinho e Almandrade), distante dos problemas do circuito local, iniciou um estudo pioneiro na Bahia sobre semiótica, teoria da informação, filosofia da arte, poesia concreta, concretismo neoconcretismo e arte conceitual que levou a publicação da revista “Semiótica”, em julho de 1974, uma iniciativa isolada, sem maiores atritos com o meio local.

Os artistas surgidos no início da década de 70, geração pós-AI-5, tinham poucas oportunidades de circular seu trabalho e acompanhar o que estava acontecendo nos grandes centros: as discussões em torno da arte conceitual e o sistema da arte. Contava apenas com os salões universitários, que não trazia nenhuma perspectiva de troca de informações, eram salões domésticos, mostrava a produção local, defasada, sem abrir intercâmbio com outros Estados. O Instituto Goethe foi o principal centro cultural da cidade, na época, principalmente para as manifestações artísticas experimentais, até o início da década de 80. As iniciativas eram individuais e improvisadas, como a exposição organizada por Glei Melo: “Paralelo 78” com a participação dos artistas: Humberto Velame, Mário Cravo Neto, Almandrade e o próprio Glei Melo, no foyer do Teatro Castro Alves, em 1978. O principal agente do circuito, do ponto de vista de investimentos econômicos, era o mercado estatal, mas direcionado para a geração surgida antes da década de 60, já estabelecida no mercado nacional. Sem uma política de ação cultural necessária à preservação e renovação do patrimônio cultural, a cidade do Salvador ficou aquém de uma cultura urbana.

 

Somente no final dos anos 1970, o Museu de Arte Moderna reabre as portas para reassumir o seu papel no circuito da arte, com uma grande exposição, sem nenhuma seleção, a Exposição Cadastro, um equívoco, mas um equívoco necessário, era uma vitrine da arte baiana. Desde as Bienais, não havia acontecido uma mostra desse porte, do ponto de vista de quantidade, não de qualidade, incomparável com as Bienais. Participaram das Bienais as principais tendências da arte de vanguarda brasileira e estava em outro contexto que diz respeito aos agitados anos de 1960. Essa reabertura do circuito de arte estava inserida dentro de outro momento político que passava o país: abertura, anistia, liberdades democráticas. O governo do Estado, através da Fundação Cultural do Estado, inaugurava uma nova perspectiva cultural: O AI5 fechou a Bienal, a chamada abertura política reabre o museu e devolve a liberdade de expressão. Era o início de uma nova etapa, a redemocratização do País. Mas a Exposição Cadastro, nas suas melhores intenções, mostrou que a Bahia estava distante da contemporaneidade, salvo alguns exemplos isolados, não tinha nem entendido direito a modernidade, às voltas com um “moderno regional”, a Arte Conceitual que não era mais o centro das atenções, era um escândalo. A exposição O Sacrifício do Sentido inaugurou não apenas sua participação no MAM-BA, mas representou a primeira exposição individual de arte contemporânea de um artista baiano no MAM – Ba. A mostra compreendia trabalhos realizados entre 1975 e 1980, “marcados principalmente pela arte conceitual que dominou a década de 70, e uma herança construtiva. Desenhos, objetos e instalação, sem cor, preto e branco”. Silêncio e raciocínio. Objetos tensos.

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