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A Ilíada de Homero – referencial poético para os artistas neoclássicos

Entenda o impacto da obra em artistas posteriores.

Por Fatima Sans Martini - janeiro 12, 2022
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A Ilíada, poema épico da literatura ocidental, relata o cerco dos gregos à cidade de Troia e apresenta as práticas militares das tribos helênicas, divididas em diferentes etnias, com certa base histórica.

Os versos iniciais da epopeia apresentam a discórdia entre o comandante dos exércitos gregos, Agamémnon, rei de Micenas e Aquiles, o guerreiro de rápidos pés.

Partindo desse ponto, Homero[1] amplia para uma série de acontecimentos e ao longo das páginas, durante os cinquenta dias de uma guerra de dez anos, apresenta a disputa entre os aliados gregos e os troianos, permitindo que se conheçam os demais guerreiros e o posicionamento dos deuses do Olimpo, que tomam parte ativa no enredo épico, muitas vezes ajudando os diferentes lados, em distintos momentos: Afrodite, Apolo, Leto e Ártemis apoiam os troianos. Zeus, embora neutro, torce ao lado de Tétis por Aquiles. Hefesto, Hera e Atena intercedem pelos gregos. Poseidon é favorável aos gregos e Ares alimenta a disputa. Hermes e Íris atuam como mensageiros entre os deuses e os homens, enquanto as divindades Péon e Éris participam também dos eventos.

No contexto do Canto I – a peste e a ira – o acampamento de Agamémnon, irmão de Menelau, marido de Helena[2], recebe a visita de Crises. O sacerdote responsável por cuidar dos templos de Apolo vem para recuperar sua filha, Criseide, que o chefe dos gregos raptara anteriormente.

Insultado, Crises parte de mãos vazias, mas intercede em oração fervorosa a Febo Apolo pedindo vingança. Indignado, imediatamente, Apolo atravessa nos ombros a aljava bem nutrida de flechas e sobe a um dos cumes do Olimpo.

Durante noves longos dias, sobre o exército dos gregos voaram as flechas infalíveis de Apolo. E desceu uma peste sobre os vivos, rapidamente recebidos por Hades[3].

Ao ver a quantidade de mortos, Aquiles, rei dos Mirmidões[4], aliado dos gregos, chama Agamémnon que aceita devolver a jovem, mas em troca, o herói deve entregar-lhe a linda escrava Briseide, que vive em sua companhia.

Tão logo a filha de Crises é devolvida, receosos, os ministros e arautos, enviados por Agamémnon, chegam à tenda de Aquiles, em busca da graciosa Briseide.

Joseph-Marie VIEN  (1716-1809) Briseide entregue por Pátroclo aos Arautos de Agamenon, 1781. Óleo sobre tela, 326x424. Em depósito no Musée des Beaux-arts, Arras, França.
Joseph-Marie VIEN (1716-1809) Briseide entregue por Pátroclo aos Arautos de Agamenon, 1781. Óleo sobre tela, 326×424. Em depósito no Musée des Beaux-arts, Arras, França.

Do lado de fora de sua tenda, Aquiles aguarda furioso a chegada dos homens de Agamémnon que levarão a escrava Briseide.

Na pintura, Vien representa o momento em que Aquiles chama o amigo Pátroclo[6] para entregar a jovem, que lhe coube do espólio tebano.

Domenico CUNEGO (1724/25[7]-1803) após Gavin HAMILTON[8] (1723-1798) Raiva de Aquiles pela perda de Briseis, ca. 1769. Gravura sobre papel, 45.4×62.9. Publicada após 1787[9]. Detroit Institute of Arts, Detroit, EUA.

Italiano, natural de Verona, pintor e, principalmente, gravador, Domenico Cunego reproduziu inúmeras obras de artistas italianos e ingleses. Entre elas, destaca-se a série de pinturas sobre a Ilíada produzida por Gavin Hamilton.

No fundo do mar, Tétis ouviu as súplicas do filho, que reclamava da injustiça sofrida. Rapidamente, levantou-se entre as ondas e ao lado dele sentou-se, a escutá-lo. Assim, o guerreiro recordando as afrontas pediu-lhe para interceder a Zeus para que este ficasse ao lado dos troianos e desse modo lembrar aos gregos a falta que faria aos aliados o maior dos guerreiros.

Doze dias haviam se passado, quando Tétis subiu ao Olimpo para falar com o filho de Crono[10].

Julien DE PARME (1736-1799) Júpiter e Tétis, segunda metade do século XVIII. Óleo sobre tela. Palazzo Pitti, Galleria d'Arte Moderna, Florença, Itália; Ilíada
Julien DE PARME (1736-1799) Júpiter e Tétis, segunda metade do século XVIII. Óleo sobre tela. Palazzo Pitti, Galleria d’Arte Moderna, Florença, Itália.

Suíço, Jean-Antoine Julien, conhecido por Julien DE PARME (1736-1799) se interessou pela pintura de retratos morando com a família na França. Da capital francesa, Julien passou por Gênova, Livorno, Pisa e Florença. Aos vinte e quatro anos chegou a Roma, onde se estabeleceu para se dedicar sobretudo ao estudo da Arte antiga e dos mestres italianos.

Apoiado pelo ministro do Ducado de Parma sob Filipe (1720-1765) e sua esposa, a princesa Louise-Élisabeth da França, Julien aprofundou sua educação, seguindo os temas históricos e mitológicos e o novo estilo propagado por Johann Joachim WINCKELMANN[11], Anton Raphael MENGS[12] e Joseph-Marie VIEN.

Em 1773, em Paris, os princípios estéticos de sua produção foram contestados na época, trazendo grandes dificuldades materiais à Julien, obrigado a transferir sua coleção de mestres italianos e toda sua obra, morrendo praticamente desacreditado.

Jean-Auguste-Dominique INGRES[13] (1780-1867) Zeus e Tétis, 1811. Óleo sobre tela, 324x260. Musée Granet, Aix en Provence, França. © Photo H. Maertens; Ilíada
Jean-Auguste-Dominique INGRES[13] (1780-1867) Zeus e Tétis, 1811. Óleo sobre tela, 324×260. Musée Granet, Aix en Provence, França. © Photo H. Maertens.

Dominique Ingres mostra seu talento em reproduzir cenas mitológicas no estilo neoclássico: Grandes figuras solidamente desenhadas preenchem o primeiro plano e se bastam para desempenhar seu papel na cena teatral.

Tétis ajoelhada aos pés do grande Zeus, de ampla cabeleira e sobrancelhas escuras, tem o braço em torno de seus joelhos, enquanto lhe afaga o queixo e lhe suplica:

O acordo entre Zeus e Tétis, no entanto, não passou despercebido de Hera, a vingativa e magnífica esposa real, que preferiu se calar para não aborrecer o banquete dos deuses reunidos a beber o doce néctar retirado da grande cratera divina e a ouvir a lira de Apolo e o canto das Musas.

Quando o sol se escondeu todos se recolheram. “Foi para o leito, também, Zeus potente” e para ali sobe, do mesmo modo, Hera, “a de trono dourado”. (HOMERO, Ilíada, I, 609-611, 2015, p. 72)


Referências

DETROIT INSTITUTE OF ARTS, Detroit, EUA. Disponível em: https://www.dia.org/art/collection/object/anger-achilles-loss-briseis-41801 Acesso em: 10 dez. 2021.

HESÍODO. Teogonia e Trabalhos e Dias. Tradução Sueli Maria de Regino. São Paulo: Martin Claret, 2014. 153 p.

________        . Teogonia. Tradução Christian Werner. São Paulo: Hedra, 2013. 103 p.

HOMERO. Ilíada. Tradução Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin & Companhia das Letras, 2017. 715 p.

HOMERO. Ilíada. Tradução Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. 536 p.

MUSÉE GRANET, Aix en Provence, França. © Photo H. Maertens. Disponível em: http://www.museegranet-aixenprovence.fr/collections/peinture Acesso em: 10 dez. 2021.

MUSÉE DES BEAUX-ARTS, Arras, França. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010053114 Acesso em: 10 dez. 2021.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Département des Antiquités grecques, étrusques et romaines. Disponível em: https://collections.louvre.fr/ark:/53355/cl010274134 Acesso em 10 dez. 2021.

PALAZZO PITTI, Galleria d’Arte Moderna, Florença, Itália. Disponível em: https://dati.beniculturali.it/lodview-arco/resource/HistoricOrArtisticProperty/0900648425.html Acesso em: 10 dez. 2021.


[1]     HOMERO (ca. IX-VIII a.C.) é autor de Ilíada e Odisseia. Os poemas heroicos datados por volta do século IX a.C., relatam as aventuras e os combates de diferentes personagens gregos e troianos, envolvidos e manipulados por poderosos deuses.

[2]     Esposa de Menelau, rei de Esparta, Helena ao fugir com Páris, filho do rei de Troia, ocasionou um movimento de união dos gregos que partiram para derrubar as muralhas de Troia, ocasionado uma disputa que durou dez longos anos. Saiba mais em: https://arteref.com/artigos-academicos/o-julgamento-de-paris-e-o-rapto-de-helena/

[3]     Irmão de Zeus, chamado de Plutão pelos romanos, o altivo Hades, deus dos mortos, habita o mundo subterrâneo.

[4]     Seguidores e soldados de Aquiles, na Guerra de Troia, os Mirmidones ou Mirmidões pertenciam ao povo tessálico. Dinastia fundada pelo rei Éaco (Filho de Zeus e da ninfa Égina) monarca da ilha de Égina. O termo deriva do grego myrmex que significa formiga. O rei teve dois filhos: Peleu e Télamo. Da união de Peleu e Tétis nasceu Aquiles.

[5]     Saiba mais sobre Joseph-Marie VIEN[5] (1716-1809) em: https://arteref.com/artigos-academicos/joseph-marie-vien-neoclassicismo-franca/

[6]     Criado desde muito jovem na corte de Peleu, Pátroclo, filho de Menetes, tornou-se o melhor amigo de Aquiles, lutando juntos em diversas batalhas.

[7]     Existem discrepâncias em relação à data de nascimento do artista gravador Domenico CUNEGO (1724/25-1803) indicada em diferentes museus e junto à sua biografia, por volta de 1723/1727.

[8]     Saiba mais sobre Gavin HAMILTON[8] (1723-1798) em: https://arteref.com/artigos-academicos/a-pintura-neoclassica-de-gavin-hamilton/

[9]     Publicada por John & Josiah Boydell. No.90 Cheapside, London, após 1787.

[10]   Crono inaugurou a segunda geração de deuses ao retirar o poder do velho pai, Urano, e instaurar o poder dos Titãs sobre o mundo. Pai dos deuses: Héstia, Deméter, Hera, sandália dourada; o altivo Hades, Poseidon e Zeus. Chamados, consecutivamente, pelos romanos: Vesta, Ceres, Juno, Plutão, Netuno e Júpiter, o mais novo.  

[11] Saiba mais sobre Johann Joachim WINCKELMANN (1717-1768) em: https://arteref.com/artigos-academicos/neoclassicismo-antiguidade-grega-imitacao-poesia/

[12]Saiba mais sobre Anton Raphael MENGS (1728-1779) em: https://arteref.com/artigos-academicos/neoclassicismo-antiguidade-grega-imitacao-poesia/

[13]   Saiba mais sobre Jean-Auguste-Dominique INGRES (1780-1867) em: https://arteref.com/artigos-academicos/jean-auguste-dominique-ingres/

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Caio Nakazoni
Caio Nakazoni
4 meses atrás

Olá minha querida ex-professora Fátima,
Sou seu fâ para o resto da vida! E a forma como escreve seus textos, são maravilhosos, expressam sentimentos pelas obras artísticas, e neste caso; “Este poema maravilhoso de Homero, que muitos estudiosos questionam até mesmo se ele existiu, de tão maravilhoso que é seu legado histórico.

Amei e já estou aguardando o próximo!!!

Beijos! Te adoro!!!