Artigos Acadêmicos

Turner: o homem moderno e a natureza

Obstinadamente, o artista lutou para elevar a pintura de paisagem ao nível da hierarquia da pintura histórica

Por Fatima Sans Martini - agosto 20, 2020
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Joseph Mallord William TURNER (1775‑1851) se destaca, entre outros, na pintura paisagística com viés pitoresco e iluminista na passagem dos séculos XVIII para o XIX.

Turner e John CONSTABLE [1] produziram obras paisagísticas, em sua grande maioria, apoiados no viés da Poética do Pitoresco, no mesmo período.

Turner se aproxima, no início, das obras de Claude LORRAIN [2] e das vistas produzidas pelo veneziano CANALETTO [3] para em seguida desenvolver:

“o gosto pela mancha (blot), teorizado por COZENS [4] como estímulo fantástico à interpretação da natureza; e seu ideal é a interpretação da natureza. como partícipe dos impulsos espirituais, da sensibilidade, do dinamismo da sociedade moderna” (ARGAN, 2001, p. 33)

Para Turner, ainda segundo Argan (2001, p. 40) “o espaço é uma extensão infinita, animada pelo agitar-se de grandes forças cósmicas, de modo que as coisas são tragadas em vórtices de ar e em turbilhões de luz”.

Turner entrou na Royal Academy School of Arts [5], em 1789, quando já trabalhava como desenhista no estúdio do topógrafo e desenhista arquitetônico Thomas Malton (1748- 1804)

O pai, um barbeiro foi o primeiro a incentivar o filho, exibindo e vendendo os primeiros desenhos de Turner em sua loja.

Uma de suas primeiras aquarelas foi exposta na Royal Academy em 1790, mas somente a partir de 1796 Turner passou a expor continuamente e em 1799 tornou-se associado. Membro do conselho, Turner foi nomeado professor de perspectiva de 1807 a 1837 e de 1811 a 1828, deu palestras que versavam sobre os problemas e valorização da pintura de paisagem, demonstrando o potencial da paisagem para abordar assuntos históricos, religiosos e literários.

A primeira viagem ao exterior foi em 1802, quando viajou para a França e Suiça, estudando no Louvre por uma temporada. Em 1817 Turner visitou os Países Baixos. Nas décadas de vinte e trinta, Turner passou pela Itália, parando, principalmente em Veneza, onde realizou diversos esboços a lápis.

As maioria das ilustrações produzidas foram publicadas entre 1827 e 1835 e surgiram de rápidos esboços passados para aquarelas, indispensável no registro de cenários e efeitos de luz. Invariavelmente, algumas dessas aquarelas, criativas e inovadoras, foram passadas para o óleo posteriormente.  

Obstinadamente, Turner lutou para elevar a pintura de paisagem ao nível da hierarquia da pintura histórica e trabalhou em inúmeros esboços em aquarela e pintura em óleo sobre tela.

Turner teve duas filhas em uma longa relação, mas na velhice se tornou extremamente reservado, morando sozinho aos cuidados de uma governanta até sua morte em 1851. 

Joseph Mallord William TURNER (1775‑1851) Veneza, do Pórtico de Madonna della Salute, ca. 1825.
Joseph Mallord William TURNER (1775‑1851) Veneza, do Pórtico de Madonna della Salute, ca. 1825. Óleo sobre tela, 91.4×122.2. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.

O óleo, inspirado nas vedute do veneziano Canaletto, foi exposto na Royal Academy em Londres em 1835, com enorme sucesso. As pinceladas rápidas e transparentes demonstram a experiência na técnica aplicada nas aquarelas. É quase impossível de longe, descobrir na maioria das obras de Turner se a tela foi pintada em aquarela ou óleo.

Turner baseou a composição em um leve desenho a lápis feito durante sua primeira viagem a Veneza, em 1819, mas a pintura é realmente o resultado de sua segunda visita, em 1833. (THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART, Nova York, EUA. Tradução nossa[6])

Joseph Mallord William TURNER (1775‑1851) Keelmen levantando carvão ao luar, 1835
Joseph Mallord William TURNER (1775‑1851) Keelmen levantando carvão ao luar, 1835. Óleo sobre tela, 92.3×122.8. National Gallery of Art, Washington, EUA.

A luz da lua atravessa a espessa nuvem e ilumina o céu e a água em contraste com o que ocorre à direita no meio plano. As chamas laranjas recortam as figuras enegrecidas dos homens que trabalham no transporte do carvão para os grandes navios à vela.

Joseph Mallord William TURNER (1775‑1851) O Forte de L'Esseillon, Val de la Maurienne, França, 1835-1836.
Joseph Mallord William TURNER (1775‑1851) O Forte de L’Esseillon, Val de la Maurienne, França, 1835-1836. Aquarela, 19.7×28. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.

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Referências

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução Denise Bottmann; Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 709 p.

NATIONAL GALLERY OF ART, Washington, EUA. Disponível em: https://www.nga.gov/collection/art-object-page.1225.html

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/337499 Acesso em: 19 ago. 2020.

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/437853 Acesso em: 19 ago. 2020.

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART, Nova York, EUA. https://www.metmuseum.org/art/collection/search/343384 Acesso em: 19 ago. 2020.


[1] John CONSTABLE (1776-1837) é considerado um dos mais importantes paisagistas ingleses do início do século XIX.

[2] Claude LORRAIN (ca. 1600/5-1682) lançou, simultaneamente com Nicolas POUSSIN (1594-1665) as bases para a Poética do Pitoresco, que viria a dominar a pintura alemã, francesa e inglesa na passagem dos séculos XVIII para o XIX.

[3] O veneziano Giovanni Antonio Canal (1697-1768), conhecido por CANALETTO é conhecido pelas vistas, chamadas de vedute pelos italianos, produzidas no século XVIII.

[4] Alexander COZENS (1717-1786) é o responsável por teorizar a pintura paisagística inglesa na passagem dos séculos XVIII para o XIX.

[5] A Royal Academy School of Arts em Londres, desde sua fundação em 1768-1769 oferece todo ano um curso em tempo integral para certo número de artistas em início de carreira.

[6] He based the composition on a rather slight pencil drawing made during his first trip to Venice, in 1819, but the painting is really the outcome of his second visit, in 1833. The Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.  Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/437853 Acesso em: 19 ago. 2020.

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