O Pintor no Caminho para Tarascon, de Vincent van Gogh
Obras de arte famosas como a Mona Lisa, A Última Ceia e O Grito não chegaram aos nossos dias sem enfrentar alguns episódios dramáticos. Ao longo da história, pinturas de Leonardo da Vinci, Claude Monet, Rembrandt, Edvard Munch e Vincent Van Gogh foram roubadas, atacadas, atingidas por guerras ou destruídas em incêndios.
Quando pensamos em obras-primas importantes, é comum imaginá-las protegidas em museus, cercadas por sistemas de segurança e submetidas a rigorosos processos de conservação. Muitas delas, porém, passaram por situações que poderiam ter mudado para sempre o patrimônio artístico que conhecemos hoje.
Algumas foram alvo de criminosos e visitantes. Outras precisaram sobreviver a guerras e incêndios. Em um dos casos desta lista, a obra não teve a mesma sorte e desapareceu durante a Segunda Guerra Mundial.
A Mona Lisa talvez seja o exemplo mais conhecido de uma obra que passou por situações extraordinárias antes de se tornar um dos quadros mais protegidos do mundo.
Em 1911, a pintura foi roubada do Louvre por Vincenzo Peruggia, um funcionário italiano do museu. O quadro permaneceu desaparecido por mais de dois anos, até que Peruggia tentou vendê-lo em Florença. A obra foi reconhecida e recuperada, retornando ao Louvre em 1913.
O episódio já seria suficiente para entrar para a história, mas a Mona Lisa ainda enfrentaria outros ataques. Em 1956, um visitante atirou uma pedra contra a pintura, quebrando o vidro de proteção e provocando uma pequena perda de pigmento próxima ao cotovelo esquerdo da figura. No mesmo ano, a obra também havia sido atingida por ácido.
Hoje, a pintura é mantida em condições especiais de conservação e protegida por um sistema de segurança muito mais rigoroso do que aquele existente no início do século XX.
A Última Ceia, outra obra-prima de Leonardo da Vinci, precisou enfrentar um dos acontecimentos mais destrutivos da história europeia: a Segunda Guerra Mundial. O mural está no refeitório do convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão. Em 1943, o edifício foi atingido por bombardeios aliados. O teto, as abóbadas e uma das paredes do refeitório desabaram, mas a parede onde Leonardo havia pintado A Última Ceia sobreviveu.
A pintura já apresentava problemas de conservação muito antes da guerra, em parte devido à técnica escolhida por Leonardo, que não utilizou o tradicional método do afresco. Mesmo assim, o fato de o mural ter sobrevivido ao bombardeio é considerado um dos episódios mais impressionantes de sua história. Fotografias feitas depois do ataque mostram a dimensão da destruição no espaço e ajudam a entender por que a sobrevivência da obra foi tão significativa.
Uma das histórias mais curiosas desta lista aconteceu no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA. Em 15 de abril de 1958, um incêndio começou no segundo andar do museu durante obras de manutenção. O fogo foi controlado em menos de uma hora, mas três obras importantes da coleção foram destruídas, entre elas dois painéis da série Nenúfares, de Claude Monet, e Number 1, 1948, de Jackson Pollock.
O caso de Monet é particularmente curioso porque um dos grandes painéis foi destruído durante a ação dos próprios bombeiros. Como a obra estava instalada diante das janelas, os profissionais precisaram quebrá-las para combater o incêndio, e acabaram destruindo o painel.
Outro Monet foi atingido diretamente pelas chamas. A obra sobrevivente ficou severamente danificada, com a superfície escurecida e carbonizada. Posteriormente, ela foi encaminhada para estudos de conservação. O incêndio também teve uma consequência importante para a história da conservação nos Estados Unidos: naquele mesmo ano, o MoMA criou seu próprio Departamento de Conservação.
A Ronda Noturna, de Rembrandt, é outra obra-prima que precisou ser restaurada depois de ataques deliberados. Em 1911, a pintura foi atacada com uma faca. Mais de seis décadas depois, em 1975, um visitante entrou no Rijksmuseum carregando uma faca de pão e golpeou a tela diversas vezes. O ataque deixou 12 cortes profundos na superfície da obra. Os restauradores precisaram costurar a tela, colocar um novo suporte e reconstruir cuidadosamente as áreas danificadas. O trabalho de recuperação foi minucioso e se tornou um importante capítulo da história da conservação da pintura.
Em 1990, A Ronda Noturna sofreu outro ataque. Um homem borrifou ácido sobre a obra, mas a intervenção rápida de um funcionário do museu impediu que o produto atingisse profundamente a camada pictórica. O verniz foi danificado, mas a pintura foi preservada.
Hoje, a obra é objeto de um dos maiores projetos de pesquisa e restauração já realizados pelo Rijksmuseum, conhecido como Operation Night Watch.
O Grito, de Edvard Munch, passou por dois roubos diferentes em apenas dez anos.
Em 1994, uma das versões da obra, pertencente à Galeria Nacional da Noruega, foi roubada durante a madrugada. Os criminosos entraram por uma janela, retiraram a pintura e deixaram o museu em aproximadamente 50 segundos. O quadro foi recuperado três meses depois.
Em 2004, outra versão de O Grito foi roubada do Museu Munch, em Oslo, juntamente com a pintura Madonna. Dessa vez, os criminosos entraram no museu durante o horário de visitação e levaram as obras diante dos visitantes.
As duas pinturas foram recuperadas em 2006. Apesar de terem retornado em condições melhores do que se esperava, O Grito apresentava uma mancha no canto inferior esquerdo que não pôde ser completamente removida.
A história fez com que uma das imagens mais conhecidas da arte moderna também se tornasse símbolo de um dos roubos de arte mais famosos do século XX.
A última história da lista tem um desfecho diferente das anteriores.
Em 1888, Vincent van Gogh pintou O Pintor no Caminho para Tarascon, uma obra que costuma ser associada a um autorretrato do artista em Arles. A pintura foi adquirida pelo Kaiser-Friedrich Museum, em Magdeburgo, na Alemanha, em 1912.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a coleção do museu foi transferida para uma mina de sal para protegê-la dos bombardeios. Em 1945, um incêndio atingiu o local e grande parte das obras armazenadas foi destruída. O quadro de Van Gogh é considerado perdido desde então e acredita-se que tenha sido destruído nesse contexto.
O caso é especialmente significativo porque a pintura não possui um registro fotográfico colorido conhecido. O que sobreviveu foi uma fotografia em preto e branco, além de reproduções e registros documentais.
A história dessas pinturas mostra que a preservação do patrimônio artístico nem sempre dependeu apenas de museus preparados, técnicas avançadas de conservação e sistemas de segurança.
A Mona Lisa sobreviveu a roubos e ataques. A Última Ceia atravessou um bombardeio. A Ronda Noturna foi reconstruída depois de golpes de faca e resistiu a um ataque com ácido. O Grito desapareceu duas vezes e voltou ao museu. Já algumas obras de Monet e Van Gogh não tiveram a mesma sorte.
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