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Arte Conceitual: todos falam, mas qual o seu real significado?

As preocupações estéticas e materiais passam a ter um papel secundário nesse movimento artístico.

Por Equipe Editorial - outubro 18, 2019
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A arte conceitual é provavelmente o movimento artístico com a abordagem mais radical e mais controversa da arte moderna e contemporânea. Inclusive, alguns artistas, especialistas e historiadores da arte chegam a descartar esse gênero como arte.

O movimento baseia-se na noção de que a essência da arte é uma ideia ou conceito, e que podem existir distintas formas de representá-la, até mesmo na ausência de um objeto.

Questiona-se a noção de arte em si; tanto que alguns artistas acreditam que a arte é criada pelo espectador, e não pelo artista ou pela própria obra.

Como ideias são a principal característica, as preocupações estéticas e materiais passam a ter um papel secundário. Artistas conceituais reconhecem que toda arte é essencialmente conceitual.

Maurizio Cattelan. Kaputt (2013) | Fundação Bayeler
Maurizio Cattelan. Kaputt (2013) | Fundação Bayeler
Via artsy

Para enfatizar esses termos, eles reduzem a presença material da obra a um mínimo absoluto, uma tendência que alguns chamam de desmaterialização da arte — que é uma das principais características da arte conceitual. Como muitos exemplos mostram, o próprio movimento da arte conceitual emergiu como uma reação contra os princípios do formalismo.

O formalismo considera que as qualidades formais de uma obra — como linha, forma e cor — são autossuficientes para sua apreciação e todas as outras considerações como aspectos representacionais, éticos ou sociais são secundárias, ou redundantes.

Apesar do termo geralmente se referir à arte feita entre meados da década de 1960 e meados da década de 1970, ela continua sendo utilizada no século XXI.


História da arte conceitual

O surrealismo e o movimento dadaísta foram as principais fontes do conceitualismo inicial. Como a arte conceitual rejeita a representação materialista das obras de arte, muitos conectaram arte conceitual ao minimalismo.

No entanto, os artistas conceituais rejeitaram a comparação com o minimalismo. Para a arte conceitual, ela não precisa parecer uma obra de arte tradicional, nem mesmo assumir qualquer forma física.


Sol LeWitt e Joseph Kosuth foram os primeiros a insistir que a arte verdadeira não é um objeto físico único ou valioso criado pela habilidade física do artista, como desenho, pintura ou escultura, mas um conceito ou uma ideia.

Sol LeWitt. Uma parede dividida verticalmente em quinze partes iguais, cada uma com uma direção e cor diferentes da linha e todas as combinações (1970)
Sol LeWitt. Uma parede dividida verticalmente em quinze partes iguais, cada uma com uma direção e cor diferentes da linha e todas as combinações (1970) | Tate Modern

Em vez de realmente fazer desenhos de parede, Sol LeWitt produziu instruções, consistindo de texto e diagramas, descrevendo como seus desenhos de parede poderiam ser feitos.

Quando um artista usa uma forma conceitual de arte, significa que todo o planejamento e decisões são feitos antecipadamente e a execução é um assunto superficial. A ideia se torna uma máquina que faz a arte.

Além de outros ramos da arte, a Filosofia da linguagem de Wittgenstein, os filósofos pós-estruturalistas e pós-modernos, como Jacques Derrida, Michel Foucault e Gilles Deleuze foram fontes muito importantes para impulsionar o desenvolvimento da arte conceitual.

Considerando as características ditas anteriormente, talvez Joseph Beuys estivesse certo quando disse que “toda pessoa pode ser um artista”.

A arte conceitual, embora não tenha valor financeiro intrínseco, pode transmitir uma mensagem poderosa e, portanto, servir de veículo para questões sociopolíticas.


A influência de Marcel Duchamp

O “pai” do movimento da arte conceitual é Marcel Duchamp. Seu trabalho mais conhecido é A Fonte (1917), que radicalizou completamente a própria definição de obra de arte.

Essa nova “direção” da arte abandonou a beleza, a raridade e a habilidade como medidas. Com este trabalho, o artista rompeu o vínculo tradicional entre o talento dos artistas e o mérito do trabalho.

Marcel Duchamp. A Fonte (1917)
Marcel Duchamp. A Fonte (1917)


Principais características da arte conceitual

  • Rompimento com os valores tradicionais artísticos de valorização da forma (estética)
  • O conceito / ideia por trás da obra é mais importante que a obra em si
  • Desmaterialização da arte — redução do objeto artístico ao mínimo absoluto
  • Forte influência dos ready-mades de Marcel Duchamp

Trabalhos artísticos conceituais

arte conceitual; Piero Manzoni. Merda de Artista (1961)
Piero Manzoni. Merda de Artista (1961)

Esse trabalho consiste numa série de 90 latas, traduzidas em variadas línguas. Elas contêm as fezes do próprio artista. Fortemente influenciada pela ideia dos ready-mades de Marcel Duchamp, Manzoni vendia as latas com fezes ao preço elevado.

Manzoni é um dos pioneiros a questionar os valores e características de uma obra de arte.


arte conceitual; Joseph Kosuth. Uma e Três Cadeiras (1965)
Joseph Kosuth. Uma e Três Cadeiras (1965) | MoMa

Uma cadeira fica ao lado de uma fotografia de uma cadeira e uma definição de dicionário da palavra cadeira. Talvez todos os três sejam cadeiras ou códigos para uma: um código visual, um código verbal e um código na linguagem dos objetos

As três diferentes representações sobre o mesmo conceito (cadeira), estimulam diferentes visões do espectador sobre o mesmo objeto artístico.


Aqui, Richard Long caminhou para trás e para frente em um campo até que o mato pisoteado capturasse a luz do sol e se tornasse visível como uma linha. Ele fotografou o trabalho como um meio de registrar a intervenção física humana na paisagem natural.


Ewa Partum usou a performance como um meio de criar sua poesia. Seus trabalhos poéticos foram feitos pegando letras individuais do alfabeto (recortadas em papel) e espalhando-as nas localidades da cidade e do campo. Ao desconstruir a linguagem, a artista buscou explorar suas estruturas.


arte conceitual; Joseph Beuys. Eu gosto da América e a América gosta de mim (1974)
Joseph Beuys. Eu gosto da América e a América gosta de mim (1974)

Beuys pegou um cobertor e passou três dias em uma sala com um coiote. O trabalho era uma expressão de sua postura anti-Guerra do Vietnã e também refletia suas crenças sobre os danos causados ao colonizador europeu ao continente americano e suas culturas nativas.


Baldessari é mais conhecido por obras que misturam materiais fotográficos (como fotos de filmes), tiradas do contexto original e reorganizadas em outra forma, geralmente incluindo a adição de palavras ou frases.


Resumindo

Quando se trata de arte conceitual, é a ideia e o processo artístico por trás da criação da obra que realmente conta. Então, em vez de olhar para formas, cores e linhas para avaliar e decifrar trabalhos conceituais, tente pensar em quais reações eles te proporcionam.

Te faz pensar algo? O quê? Faz você rir? O que diz sobre diferentes categorias, como espaço e tempo? Ao responder a essas perguntas, você estará mais próximo de entender e apreciar a arte conceitual.


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Fontes

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Jane Santos
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Jane Santos

Muito boa a reportagem sobre arte conceitual. Em linguagem simples define uma arte tão complexa.