Arte Contemporânea

Tudo pode ser considerado arte?

Principalmente sob influência dos ready-mades de Duchamp, as preocupações estéticas e materiais passaram a ter um papel secundário na arte.

Por Equipe Editorial - dezembro 3, 2021
2054 0
Pinterest LinkedIn

A partir do “invento” dos ready-mades e ascensão da arte contemporânea – principalmente da arte conceitual – tivemos uma enorme subversão e ruptura no que consiste o significado de arte. O que é arte? Tudo pode ser considerado arte?

Vamos contextualizar esse debate e mostrar que não é uma questão simples de ser respondida.


No início do século XX, durante o contexto da Primeira Guerra Mundial e das transformações políticas, sociais e econômicas na Europa, tivemos o surgimento das vanguardas artísticas.

Uma delas foi o Dadaísmo, liderado por Marcel Duchamp, movimento que tinha como intuito protestar contra os estragos trazidos da guerra, denunciando de forma irônica o horror que estava acontecendo. 

Sendo a negação total da cultura, o Dadaísmo defendia o absurdo, a incoerência, a desordem, o caos.  Sua principal representação ficou marcada pelos ready-madesobjetos já fabricados presentes no cotidiano, sem valor estético, expostos como obras de arte em espaços especializados.

Em 1917, Duchamp apresentou para o Salão dos Artistas Independentes (Nova Iorque) um objeto intitulado “Fonte”. A obra foi inscrita sob um pseudônimo e não foi aceita pela organização: tratava-se de um mictório invertido, assinado e com uma data na parte inferior.

Marcel Duchamp. A Fonte (1917)
Marcel Duchamp. A Fonte (1917)

Aquilo era arte? 

Ainda hoje isso causa estranhamento. Na época, nem se fala. Apenas pinturas e esculturas podiam ser classificadas como obras artísticas. 

O trabalho apresentado por Duchamp, contestador dos padrões hegemônicos da arte naquele momento, foi extremamente questionado e mal recebido pelo público. 

Entretanto, sua transgressão permitiu a formação de questionamentos importantíssimos, por exemplo:

  • O que é arte?
  • Por que uma pintura é arte e um mictório não? 
  • É necessária uma entidade (museu) para validar o que é um objeto artístico? Se sim, por que eles têm essa autoridade?
  • É necessária habilidade técnica para qualificar uma arte?

Essas perguntas entram em uma espiral infinita se irmos a fundo. Essa foi a grande contribuição de Duchamp. Ele abriu portas para novos estilos de artistas e obras, ressignificou o próprio conceito de arte. 


Banner Instaarts - Transforme

Temos, então, o lançamento das bases para o que viria a se tornar a Arte Conceitual, um dos pilares da Arte Contemporânea.

O movimento baseia-se na noção de que a essência da arte é uma ideia ou conceito, e que podem existir distintas formas de representá-la, até mesmo na ausência de um objeto.

Questiona-se a noção de arte em si; tanto que alguns artistas acreditam que a arte é criada pelo espectador, e não pelo artista ou pela própria obra.

Como ideias são a principal característica, as preocupações estéticas e materiais passam a ter um papel secundário. Artistas conceituais reconhecem que toda arte é essencialmente conceitual.

Saiba mais sobre Arte Conceitual

Exemplos marcantes que seguem essa linha de raciocínio que rompe com os critérios tradicionais e formalistas (qualidades formais de uma obra — linha, forma e cor — são autossuficientes para sua apreciação) da arte:


1) Artist’s Shit”, ou “Merda de Artista”

Esse é um trabalho de 1961 feito por Piero Manzoni, que consiste em 90 latas cheias de fezes do artista, cada uma pesando cerca de 30 gramas e medindo 4,8×6,5 cm, rotuladas com o título da obra em diversos idiomas. A obra chegou a ser vendida por 70 mil euros durante um leilão em 2008.

Tudo pode ser considerado arte?; arte conceitual; Piero Manzoni. Merda de Artista (1961)
Piero Manzoni. Merda de Artista (1961)

2) Performances de Chris Burden

Chris Burden (1946 – 2015) produziu algumas das obras mais chocantes da história da arte americana do século XX.

Ele queria retratar a realidade da dor para o público em um momento em que as pessoas se tornaram insensíveis à infinidade de imagens na televisão de soldados americanos feridos e mortos no Vietnã, e ao domínio geral da violência nas imagens da mídia.

Podemos ver isso nas seguintes performances:

Chris Burden. Shoot (1971).
Shoot (1971)
Chris Burden. Through the Night Softly (1973).
Through the Night Softly (1973)

Na imagem da esquerda, Chris é baleado no braço; na direita, ele desliza sobre vidros quebrados – apenas de cueca – com as mãos amarradas atrás das costas.


3) Os Parangolés de Hélio Oiticica

O Parangolé é uma espécie de capa que se veste, com textos, fotos, cores e que serve como uma Obra-ação-multisensorial.

“O objetivo é dar ao público a chance de deixar de ser público espectador, de fora, para participante na atividade criadora”, diz o artista.

O Parangolé é “anti-arte por excelência”, não se pode ir numa exposição de Parangolés, o espectador veste a obra e a obra ganha vida através dele, é capacidade de auto-criação, de expansão das sensações e rompimento.

parangole

4) “Inserções em circuitos ideológicos”, de Cildo Meireles

O objetivo do trabalho era criar um sistema de circulação e troca de informação que não dependia de nenhuma espécie de controle centralizado. As séries de inserções transmitiriam informações por uma variedade de circuitos alternativos, como garrafas de Coca-Cola, pentes para cabelos Black-Power, cédulas de dinheiro, etc.

Tudo pode ser considerado arte?; Inserções em circuitos ideológicos: Projeto Coca-Cola (1970)
Cildo Meireles. Inserções em circuitos ideológicos: Projeto Coca-Cola (1970)

O contexto histórico no qual a obra circula e lhe dá sentido é o Brasil dominado por uma ditadura militar que violou o regime constitucional de 1964. O regime ditatorial, imediatamente, impôs uma forte repressão sobre as expressões artísticas, submetendo-as a uma censura que filtrava todo tipo de informação.

As séries de “inserções em circuitos ideológicos” de Cildo Meireles procuraram explorar alternativas comunicacionais e artísticas para executar uma verdadeira “guerrilha” contra o sistema repressor da ditadura militar.


O legado de Duchamp

Nas palavras de Duchamp, “O ato criador não é executado pelo artista sozinho; o público estabelece o contato entre a obra de arte e o mundo exterior, decifrando e interpretando suas qualidades inatas e, desta forma, acrescenta sua contribuição ao ato”.

Ou seja, o artista funciona apenas na propagação de ideias, e os trabalhos se completam com a subjetividade do espectador.

Como coloca Arturo Danto, a obra Brillo Box (1964), de Andy Warhol, representa uma cristalização dessa nova concepção artística.

Usando a técnica de serigrafia em madeira compensada, o Warhol realizou réplicas exatas de produtos ​​encontrados em lares e supermercados. A obra é uma coleção de peças empilhadas, esculturas que podem ser organizadas de várias maneiras.

Assim, temos a união entre o mundo da arte e o mundo cotidiano através de objetos comuns deslocados de seu verdadeiro espaço.

Tudo pode ser considerado arte?; Andy Warhol Brillo Box (Soap Pads), 1964.
Andy Warhol. Brillo Box (Soap Pads), 1964.

Conclusão (?)

Não é preciso estudar desenho para fazer arte. Seguindo a linha iniciada por Duchamp e abraçada por outros movimentos vanguardistas, você só precisa criar algo parecido com um pensamento e depois elevá-lo ao nível de um conceito.

É preciso salientar que um objeto comum é diretamente relacionado com sua finalidade. Agora, um objeto-arte, carrega uma grande reflexão; mesmo que estejamos falando do mesmo objeto.

Um mictório num shopping não é a mesma coisa que o mictório de Duchamp. As obras precisam de um contexto para serem dotadas de sentido

Se o exemplo de Duchamp for levado ao extremo, absolutamente tudo poderia ser classificado como arte, o que seria algo perigoso de se dizer.

O debate sobre o que é ou não é arte, é extremamente vasto e continua até hoje. Ainda sim, para validarmos os conceitos são necessários critérios básicos de análise, contextualizações. Caso não, tudo vira arte.

E, se tudo é arte; nada é arte.


Banner Instaarts - Amplie

E você? O que acha sobre o tema? Tudo é arte? Deixe seu comentário.

Você pode se interessar pelas seguintes matérias

Marcel Duchamp: um artista inovador, polêmico e revolucionário

Arte Conceitual: todos falam, mas qual o seu real significado?

O que é Arte Contemporânea?

O que foram os Parangolés?


Não foi possível salvar sua inscrição. Por favor, tente novamente.
Sua inscrição foi bem sucedida.

Você quer receber informações sobre cultura, eventos e mercado de arte?


Selecione abaixo o perfil que você mais se identifica 

(Atenção: Os e-mails podem ir para sua caixa de promoções)


Fontes

Não foi possível salvar sua inscrição. Por favor, tente novamente.
Sua inscrição foi bem sucedida.

Você quer receber informações sobre cultura, eventos e mercado de arte?

Selecione abaixo o perfil que você mais se identifica.

Inscrever
Notificar de
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
Veja todos os comentários