Artigos Acadêmicos

Escultura francesa no século XVII

A escultura barroca acompanha os ideais estilísticos da corte francesa.

Por Fatima Sans Martini - fevereiro 13, 2020
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A escultura barroca acompanha os ideais estilísticos da corte francesa.

Numerosas e imensas estátuas equestres de reis foram produzidas, assim como bustos e personagens mitológicos foram representados ao longo do século XVII, principalmente para enfeitar palácios e jardins.

Artistas oriundos da Académie royale de peinture et de sculpture, fundada em 1648, e controlada por Jean-Baptiste COLBERT2 e Charles LE BRUN3, apresentavam em seu currículo instrução prática e teórica, baseado num sistema de regras, apoiados nas ideias de POUSSIN4 e no racionalismo.

Tal era a rigidez das normas que a valorização dos artistas, categorias e temas dependiam da classificação proposta numa escala numérica. De acordo com Janson (1992), os temas, por exemplo, partiam da história clássica, no topo, e terminavam na natureza morta, no fim da tabela.

Por esse espírito intransigente, invariavelmente, a emoção dramática perdia quase sempre para a perícia técnica em relação à escultura.

A escultura barroca produzida na França de Luís XIV está representada por: François GIRARDON (1628-1715), Antoine COYSEVOX (1640-1720), Jean CORNU (1650-1710), François ANGUIER (ca. 1604-1669), Michel ANGUIER (1612-1686), Anselme FLAMEN (1647-1717), Jean-Baptiste TUBY (1635-1700), Gaspard MARSY (1624-1681), Balthasar MARSY (1628-1674), Jacques PROU, o jovem (1655-1706), Pierre PUGET (1620-1694) e seu aluno: Christophe VEYRIER (1637-1689).

A maioria dos nomes citados ganharam bolsa de estudos com origem na competição artística do Grand Prix de Roma, patrocinada pelo governo francês. Em Roma5, por cerca de um ou dois anos, os artistas devotavam-se a fazer cópias das Antiguidades e das obras Renascentistas, adquirindo conhecimento e treinamento adicional. Ao retornar à França eram aceitos com grande êxito na corte de Luís XIV, produzindo inúmeras obras para enfeitar os palácios e jardins.


François GIRARDON (1628-1715)

François Girardon foi um dos escultores que mais serviram na elaboração do Projeto de Versailles, na corte de Luís XIV. Apresentado ao escultor François Anguier por Pierre Séguier6, Girardon seguiu para Roma. De volta à Paris, em 1657 foi aceito membro da Académie royale de peinture et de sculpture.

Empregado como decorador dos palácios, Girardon trabalhou ao lado de Le Brun por anos, executando algumas das mais belas esculturas.

A despeito da influencia da escola barroca romana e inspirado pelas esculturas produzidas por Gian Lorenzo BERNINI (1598-1680), as obras de Girardon são mais contidas, apresentando forte tendência clássica, menos vigorosas e aquém do cenográfico e da dramatização.


François GIRARDON (1628-1715) Maquete Estátua Equestre de Luís XIV, ca. 1685. Escultura em cera e madeira, 81.3x29.2x59.7. Yale University Art Gallery, New Haven, Connecticut, EUA.
François GIRARDON (1628-1715) Maquete Estátua Equestre de Luís XIV, ca. 1685. Escultura em cera e madeira, 81.3×29.2×59.7. Yale University Art Gallery, New Haven, Connecticut, EUA.

Estátuas equestres em grande escala sempre foram precedidas por estudos menores em material maleável. Em 1685 François Girardon foi contratado para criar uma estátua de bronze de vinte e três metros de altura do rei Luís XIV a cavalo (erguido em 1699 e destruído durante a Revolução Francesa um século depois) e usou esta maquete para experimentar o traje e a pose. O rei, com a volumosa peruca típica do século XVII, é representado como um imperador romano em armaduras antigas e sandálias. A estátua final mostrou pequenas modificações, inclusive sem o tronco de apoio. (YALE UNIVERSITY ART GALLERY. Tradução nossa7)

Várias versões reduzidas foram executadas por iniciativa do próprio Girardon. O modelo do Louvre, sem o apoio no centro, é a única cópia assinada8.


Pierre PUGET (1620-1694)

O escultor de Marseille, Pierre PUGET, mantido longe de Versailles por causa do seu espirito autônomo em relação às normas acadêmicas francesas, foi chamado por Colbert somente a partir de 1670.

Utilizando restos de blocos de mármore, o artista executou dois grandes grupos: Milo de Crotona9 e Perseu e Andrómeda10(1678-1684) em que mostrou toda sua paixão e caráter ousado, distante do espirito comedido da época. As esculturas artísticas quase dinâmicas demais para a dignidade do rei Sol, por pouco deixaram de ser sancionadas. No entanto, após a aprovação real, os grupos esculturais receberam um lugar de honra no jardim de Versailles até por volta de 1850, quando foram levados para o Musée du Louvre.

Pierre PUGET (1620-1694) Milo de Crotona, Cópia do original em Mármore, nos jardins de Versailles e cópia em bronze, ca. final do século XVII e início do século XVIII.  61.6x47x38.1. National Gallery of Art, Washington, EUA.
Pierre PUGET (1620-1694) Milo de Crotona, Cópia do original em Mármore, nos jardins de Versailles e cópia em bronze, ca. final do século XVII e início do século XVIII. 61.6x47x38.1. National Gallery of Art, Washington, EUA.

O atleta grego Milo, da cidade de Crotona, foi por várias vezes campeão dos jogos olímpicos e píticos. Idoso, para testar sua força e vigor, ao tentar dividir um tronco de árvores, sua mão ficou presa, sendo devorado por lobos durante à noite. Pierre Puget trocou a matilha por um leão e criou uma composição imbuída de paixão barroca e drama. O corpo de Milo se contorce de dor sob as garras do leão que afundam na carne. Os músculos se retesam e a consternação dramática transparece na face horrorizada.

Audacioso, Puget representa um tema que trata da vitória do tempo sobre a força e sobre o orgulho do homem.

Milo é derrotado por sua vaidade e por negar a fraqueza da idade. Sua dor é tanto moral quanto física. A glória humana é efêmera, como mostra a taça ganha nos Jogos e agora jogada ao chão. (MUSÉE DU LOUVRE, Tradução nossa11)

A escultura original em Mármore, executada de 1671 a 1682 para o rei Luís XIV e adicionada em 1683 próxima à entrada dos jardins de Versailles, encontra-se atualmente no acervo do Musée du Louvre, em Paris.


François (ca. 1604-1669) e Michel ANGUIER (1612-1686)

Nascidos na Normandia, por volta de meados do século, os irmãos ainda muito jovens foram morar em Paris para estudar. Em pouco tempo ganharam a oportunidade de pesquisar as antiguidades clássicas em Roma, seguindo os passos de inúmeros artistas franceses, na época, inclusive de trabalhar ao lado de Gian Lorenzo BERNINI (1598-1680) entre outros grandes artistas italianos.

Na volta para Paris em 1651, os irmãos, provavelmente, trabalharam juntos em algumas das obras espalhadas por mausoléus e na decoração dos interiores palacianos, inclusive a comissão para uma série de esculturas de deuses e deusas.

Após a morte do irmão, Michel Anguier lecionou na Académie royale de peinture et de sculpture sobre uma variedade de assuntos, entre as técnicas do desenho e escultura.

A grande quantidade de cópias em bronze das esculturas originais indica que o artista trabalhou ao lado de um fundidor especialista na época.

Michel ANGUIER (1612-1686) Netuno com o Hipocampo12, ca. 1652/1680. Escultura em bronze sobre modelo de 1652, 51,5 cm. National Gallery of Art, Washington, EUA.
Michel ANGUIER (1612-1686) Netuno com o Hipocampo12, ca. 1652/1680. Escultura em bronze sobre modelo de 1652, 51,5 cm. National Gallery of Art, Washington, EUA.

A pequena escultura em bronze é uma das cópias do original, que fazia parte de uma série de deuses e deusas, entre eles: Júpiter, Juno, Amphitrite, Plutão e Ceres, executados por Michel Anguier por volta de 1652.

Irritado, brandindo seu tridente, Netuno dá um passo à frente, atropelando o hipocampo, que se contorce entre suas pernas.

Existem inúmeras versões desses bronzes, lançadas por volta de 1660 e 1670, inclusive algumas em que os genitais de Netuno são cobertos. Outras parecem ter sido lançadas uma década depois, como esta do acervo do National Gallery of Art.


Veja também


Referências

JANSON H. W. História da Arte. Tradução J.A. Ferreira de Almeida; Maria Manuela Rocheta Santos. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 823 p.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em: https://www.louvre.fr/oeuvre-notices/milon-de-crotone Acesso em: 03 jan. 2020.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em: http://cartelfr.louvre.fr/cartelfr/visite?srv=car_not_frame&idNotice=792 Acesso em: 03 jan. 2020.

MUSÉE DU LOUVRE, Paris, França. Disponível em: https://www.louvre.fr/en/oeuvre-notices/louis-xiv-horseback?sous_dept=1 Acesso em: 03 jan. 2020.

NATIONAL GALLERY OF ART,Washington, EUA. Disponível em: https://www.nga.gov/collection/art-object-page.66234.html Acesso em: 06 jan. 2020.

NATIONAL GALLERY OF ART,Washington, EUA. Disponível em: https://www.nga.gov/collection/art-object-page.117648.html Acesso em: 03 jan. 2020.

YALE UNIVERSITY ART GALLERY, New Haven, Connecticut, EUA. Disponível em: https://artgallery.yale.edu/collections/objects/74438 Acesso em: 04 jan. 2020.


1 Localizado no 10º arrondissement de Paris, construído no formato dos antigos Arcos de Triunfo romanos, o Portão de Saint-Denis ou Porte Saint-Denis, substituiu em 1672 um portão medieval nas muralhas construídas por Carlos V (1338-1380) no século XIV. Sob o projeto de François Blondel (1618-1686), diretor da Académie Royale d’Architecture, fundada por Luís XIV, por volta de 1671, o Portão recebeu baixos e altos-relevos em honra às vitórias de Luís XIV nos frontispícios norte e sul por Michel ANGUIER (1612-1686)

2 Ministro de estado do rei Luís XIV, Jean-Baptiste COLBERT (1619-1683) atraiu os nobres para a corte, favoreceu a rica burguesia a empreender na indústria e no comércio, transformando a França em uma grande potência econômica.

3 Primeiro artista oficial da corte de Luís XIV, Charles LE BRUN (1619-1690) atuou como pintor, decorador e arquiteto, trabalhando no Palácio de Versailles e dirigindo a Académie royale de peinture et de sculpture até morrer.

4 O francês Nicolas Poussin (1594-1665) é considerado um dos maiores mestres acadêmicos do século XVII, também, chamado de Classicismo barroco ou estilo Luís XIV.

5 Fundada em 1666 por Colbert, L’Académie de France à Rome abrigava os ganhadores de bolsa de estudos com origem na competição artística do Grand Prix de Roma, patrocinada pelo governo francês.

6 Chanceler da França sob Luís XIV, Pierre Séguier (1588-1672) foi um dos maiores patronos, colecionadores e estudiosos de seu tempo. Séguier tornou-se o grande protetor de Charles LE BRUN (1619-1690) durante sua juventude, financiando seus estudos artísticos na Itália.

7 Large-scale equestrian statues were always preceded by smaller studies in malleable material, such as this wax figure. In 1685 François Girardon was commissioned to create a twenty-three-foot-tall bronze statue of King Louis XIV on horseback (erected in 1699 and destroyed during the French Revolution a century later) and used this maquette to experiment with attire and poses. The king is represented as a Roman emperor in antique armor and sandals but with a voluminous seventeenth-century wig. The trunk underneath the horse’s belly gives extra support to the fragile material. It was not present in the final bronze. Yale University Art Gallery, New Haven, Connecticut, EUA. Disponível em: https://artgallery.yale.edu/collections/objects/74438 Acesso em: 04 jan. 2020.

8 François GIRARDON (1628-1715) Modelo Estátua Equestre de Luís XIV, ca. 1685. Escultura, 102x98x50. Musée du Louvre, Paris, França. Disponível em: https://www.louvre.fr/en/oeuvre-notices/louis-xiv-horseback?sous_dept=1 Acesso em: 03 jan. 2020.

9 Pierre PUGET (1620-1694) Milon de Crotone, 1671-1682. Mármore de Carrara, 270x140x80. Musée du Louvre, Paris, França. Disponível em: https://www.louvre.fr/oeuvre-notices/milon-de-crotone Acesso em:03 jan. 2020.

10 Pierre PUGET (1620-1694) provavelmente com a colaboração de Christophe VEYRIER (1637-1689) Persée et Andromède, 1678-1684. Mármore de Carrara, 320x106x114. Musée du Louvre, Paris, França. Disponível em: http://cartelfr.louvre.fr/cartelfr/visite?srv=car_not_frame&idNotice=792 Acesso em: 03 jan. 2020.

11 Le thème, jusque-là inconnu en sculpture, est une méditation sur la Force vaincue par le Temps, mais aussi sur l’orgueil de l’Homme: Milon est avant tout vaincu par sa vanité, qui refuse la faiblesse de son âge. Sa douleur est autant morale que physique. La gloire humaine est éphémère, comme le symbolise la coupe gagnée aux Jeux, qui gît sur le sol, dérisoire. Musée du Louvre, Paris, França. Disponível em: https://www.louvre.fr/oeuvre-notices/milon-de-crotone Acesso em: 03 jan. 2020.

12 Animais com corpo de cavalo e cauda de peixe, Hippocampus erectus e Hippocampus reidi. São eles que puxam a carruagem de Netuno, no alto-mar.


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