Artigos Acadêmicos

Escultura francesa: Classicismo Barroco e Mitologia

A grande produção do século XVII recebeu cópias e continuou a enfeitar os palácios e jardins, enquanto os originais foram recolhidos nos grandes acervos franceses.

Por Fatima Sans Martini - fevereiro 21, 2020
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A corte francesa de Luís XIV recebeu inúmeras esculturas para enfeitar seus palácios e jardins.

Entre bustos e modelos executados pelos mais brilhantes artistas do Classicismo Barroco francês, o período tardio do reinado testemunhou uma verdadeira explosão de personagens e grupos esculturais dedicados à releitura das mais diversas histórias mitológicas greco-romanas.

A maioria dos escultores trabalhou para Versailles e para o Rei-Sol junto a Académie royale de peinture et de sculpture1e entre eles se encontram: François GIRARDON (1628-1715), Antoine COYSEVOX (1640-1720), Jean CORNU (1650-1710), François ANGUIER (ca. 1604-1669), Michel ANGUIER (1612-1686), Anselme FLAMEN (1647-1717), Jean-Baptiste TUBY (1635-1700), Gaspard MARSY (1624-1681), Balthasar MARSY (1628-1674), Jacques PROU, o jovem (1655-1706), Pierre PUGET (1620-1694) e seu aluno: Christophe VEYRIER (1637-1689).

A grande produção do século XVII recebeu cópias e continuou a enfeitar os palácios e jardins, enquanto os originais foram recolhidos nos grandes acervos franceses. As reproduções, a maior parte em menor tamanho, se multiplicaram e se distribuíram nos demais museus, mundo afora.


Jean CORNU (1650-1710)

Cornu iniciou seus estudos trabalhando em pequenas esculturas em marfim. Em 1673 ganhou o Grand Prix de Roma2, permanecendo por anos na cidade italiana, vitorioso em mais de dois concursos.

Ao voltar à França permaneceu na corte de Luís XIV onde produziu altos e baixos-relevos decorativos para as fachadas de Versailles ao lado do pintor e decorador Charles LE BRUN3 e executou inúmeras esculturas distribuídas pelos jardins, inclusive vasos ornamentais com baixos-relevos muito comuns na época para enfeitar os jardins da corte. Como tantos outros, Cornu foi eleito membro da Académie royale de peinture et de sculpture e contratado como professor.

Classicismo Barroco e Mitologia; Jean CORNU (1650-1710) Vênus entregando armas a Enéias4, 1704.
Jean CORNU (1650-1710) Vênus entregando armas a Enéias4, 1704. Escultura em terracota e madeira pintada, 108 cm. The Metropolitan Museum of Art. Nova York, EUA.

Jean Cornu representa Vênus entregando armas a Enéias, um episódio tirado do Livro VIII da Eneida descrito pelo poeta romano Virgílio5.

Enéias, filho de Vênus, está prestes a combater os exércitos de Turno6. Afim de protege-lo, sua mãe pede ao marido, Vulcano7, que forje armas para o filho.

O exército já está espalhado nas colinas e próximo às tendas, Enéias circula com seus guerreiros, quando se aproxima sua mãe com as armas.

A cândida Ciprina8 os dons pelo éter
Nimbroso traz, e ao filho em vale escuso
Retraído enxergando à fresca margem,
Lhe disse rosto a rosto: “Eis os presentes
Que engendrou meu consorte: não receies
Laurentes soberbões nem fero Turno
Provocar”. Nisto, enreda-se nos braços
Do seu querido, e à sombra de um carvalho
Depôs fronteiro as fulgurantes armas.
Gostoso de honra tanta, em si não cabe;
Mira tudo e remira; embraça e apalpa,
Meneia e prova, de terrível crista
O elmo flamívomo, a letal espada;
Bronzirrija e sanguínea a grã couraça,
Qual se aos raios do Sol cerúlea nuvem
Longe esplende e rubeja; as finas grevas
De electro e ouro acendrado, e a cota e a lança,
E a do broquel9 textura inexplicável.
Nele, o porvir sabendo e as profecias,
O artífice gravou de Itália as coisas
(VIRGÍLIO, Eneida, Livro VIII, 598-618, 2011, p. 296)

Junto às espetaculares armas, Cornu adiciona à história, o meio-irmão de Enéias, Cupido, chamado de Eros pelos gregos, levantando o broquel. O escudo traz gravado por Vulcano o futuro e os triunfos de Enéias, inclusive que ele seria o fundador de Roma10.


Balthasar (1628-1674) e Gaspard MARSY (1624-1681)

Os irmãos – Balthasar e Gaspar Marsy – foram chamados para trabalhar ao lado de Charles Le Brun logo no início das obras de Versailles. Entre as diversas esculturas espalhadas pelo imenso jardim do Palácio, os irmãos executaram o grupo Latona e seus filhos11. Com essa obra os dois irmãos ganharam a simpatia de Luís XIV, apreciados por seguirem os conceitos do estilo real e principalmente por que a escultura representava um tema vinculado ao mito de Apolo, incluído no programa de esculturas de Versailles.


Anselme FLAMEN (1647-1717)

Anselme Flamen, apoiado por Luís XIV estudou em Roma e reproduziu, como todo artista enviado para lá, inúmeras cópias das estátuas antigas contidas nas coleções particulares. Após o retorno a Paris em 1669, Flamen começou a colaborar na oficina de Gaspard Marsy, produzindo uma série de fontes e grupos para o jardim real. Em 1681, membro da Académie royale de peinture et de sculpture, completou as obras deixadas pelo mestre e seguiu em frente na produção de grupos esculturais, principalmente mitológicos para os jardins e alguns trabalhos em estuque no interior do palácio.

Ao longo do tempo, o classicismo barroco de Flamen evoluiu para o estilo Rococó12 mais leve, mais delicado e extremamente decorativo, próprio para os ambientes internos.

Classicismo Barroco e Mitologia; Gaspard MARSY (1624-1681) e Anselme FLAMEN (1647-1717) Bóreas13 e Oritia14, ca. 1693-1716.
Gaspard MARSY (1624-1681) e Anselme FLAMEN (1647-1717) Bóreas13 e Oritia14, ca. 1693-1716. Escultura em bronze, 53.3x29x27. Original em mármore, (Marsy) 1677-1681 e (Flamen) 1684-1687. National Gallery of Art, Washington, EUA.

O grupo escultural representa o rapto de Oritia por Bóreas, história descrita no Livro VI em Metamorfoses por Ovídio15.

Bóreas há muito tempo se sentia prejudicado por se ver excluído do convívio da linda e querida Oritia, enquanto Céfalo16, descendente do senhor dos ventos, compartilhava os aposentos da amada Prócris.

Súplicas e agrados de nada serviram. Oritia se mantinha distante. Revoltado, Bóreas exclama:

“É bem feito! Por que deixei eu as minhas armas,
a crueldade, a força, a ira, o espirito ameaçador,
e recorri às súplicas, cujo uso me deslustra?!
Comigo condiz a força. É com ela que eu disperso a nuvem
sombria. Com ela agito o mar, derrubo o nodoso carvalho,
enrijeço a neve, flagelo a terra com o granizo.
Quando encontro os meus irmãos em pleno céu,
pois esse é o meu campo de ação, luto com tal afinco
que entre nós o céu ressoa com os nossos embates
e, despedidos pelas grossas nuvens, saltam os fogos.”
(OVÍDIO, Metamorfoses, Livro VI, 687-696, 2017, p. 359-361)

Assim, inconformado, desejou de imediato a união com Oritia e Erecteu como sogro. Batendo as asas ferozmente, Bóreas fez o mar se levantar em altas ondas e a terra se eriçar.

Arrastando pelos altos cumes seu manto de pó, varreu o chão
e, encoberto numa nuvem, envolve em suas douradas asas
sua amada Oritia, que tremia de medo.
Seus fogos, estimulados de novo, ardem com mais força.
E não puxou as rédeas da sua aérea corrida antes de alcançar
o povo e as muralhas dos Cícones com o objeto do rapto.
Ali, esta filha da Ática tornou-se esposa do gelado tirano
e tornou-se mãe. Deu à luz dois gêmeos que, do pai,
tinham as asas, tinham da mãe tudo o mais.
(OVÍDIO, Metamorfoses, Livro VI, 705-713, 2017, p. 361)

A escultura Bóreas e Oritia faz parte de uma série de esculturas encomendada por Luís XIV à Charles Le Brun para enfeitar o Parterre d’eau, um espelho d’água localizado logo em seguida à fachada do palácio com vista para os jardins. Entre as esculturas, quatro delas deveriam representar os quatro elementos alegóricos: fogo, ar, água e terra.

A encomenda previa, para cada escultura, um grupo de três personagens17.

O grupo escultural, executado por Marsy e Flamen, representa a alegoria do ar.

O terceiro personagem, caído ao chão com pequenas asas, é comumente interpretado como Zéfiro, um dos irmãos de Bóreas, para reforçar a ideia da alegoria escolhida.


Veja também


Referências

GALLERIA BORGHESE. Roma, Itália. Disponível em: http://www.galleriaborghese.beniculturali.it/it Acesso em: 20 jan. 2020.

HESÍODO. Teogonia. Tradução Christian Werner. São Paulo: Hedra, 2013. 103 p.

JANSON H. W. História da Arte. Tradução J.A. Ferreira de Almeida; Maria Manuela Rocheta Santos. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 823 p.

NATIONAL GALLERY OF ART,Washington, EUA. Disponível em: https://www.nga.gov/collection/art-object-page.69416.html Acesso em: 20 jan. 2020.

OVIDIO. Metamorfoses. Tradução Domingos Lucas Dias. São Paulo: Editora 34, 2017. 909 p.

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART. Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/197036 Acesso em 20 jan. 2020.

VIRGÍLIO. Eneida. Tradução Manuel Odorico Mendes. São Paulo: Martin Claret Ltda, 2011. 451 p.


1 Jean-Baptiste COLBERT (1619-1683) assumiu o controle estratégico da Académie royale de peinture et de sculpture juntamente com Charles LE BRUN (1619-1690) que garantiu a glorificação do rei, por meio das artes e o Classicismo Barroco, resultado da união da Antiguidade Clássica com a arte Barroca italiana.

2Fundada em 1666 por Colbert, L’Académie de France à Rome abrigava os ganhadores de bolsa de estudos com origem na competição artística do Grand Prix de Roma, patrocinada pelo governo francês. EmRoma, por cerca de um ou dois anos, os artistas devotavam-se a fazer cópias das Antiguidades e das obras Renascentistas, adquirindo conhecimento e treinamento adicional. Ao retornar à França eram aceitos com grande êxito na corte de Luís XIV, produzindo inúmeras obras para enfeitar os palácios e jardins.

3Primeiro artista oficial da corte de Luís XIV, Charles LE BRUN (1619-1690) atuou como pintor, decorador e arquiteto, trabalhando no Palácio de Versailles e dirigindo a Académie royale de peinture et de sculpture até morrer.

4Enéias é filho de Vênus, Afrodite para os gregos, com Anquises, primo do rei Priamo, de Tróia. Quando Tróia foi assaltada e caiu nas mãos dos gregos, Enéias conseguiu fugir, com a ajuda de sua mãe, levando seu pai nas costas e seu pequeno filho, Ascânio. Os três partiram a bordo de um navio em busca de novas terras para fundar.

5Públio VIRGÍLIO Maro ou Marão (70 a.C.-19 a.C.). Um dos maiores poetas romanos. Sua obra mais conhecida, Eneida segue a história de Eneias, refugiado de Troia, que cumpre o seu destino chegando às margens de Itália, na fundação de Roma. O modelo do poema épico serviu para a construção de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões (1524-1580).

6No caminho de Enéias e a fundação de Roma encontra-se Turno, comandante dos exércitos inimigos e anteriormente noivo de Lavínia, filha do rei Latino, rei do Lácio.

7 Conhecido pelos romanos por Vulcano e Hefesto pelos gregos. Segundo Hesíodo (929, 2013, p. 97) enfurecida com o marido, por causa das amantes e os filhos bastardos, Hera gerou sem a união do amor, Hefesto, que “nas artes supera a todos os Celestes”. Revoltado, dizem, que Zeus o jogou lá do alto para a terra. Na queda, Hefesto ficou coxo, mas apesar da deficiência foi amado por Afrodite, com quem se casou. Ferreiro, deus dos vulcões, das forjas e da metalurgia, Hefesto é responsável por forjar, entre outras armas e instrumentos em ouro e prata, as sandálias de Hermes, o cinto de Afrodite, o carro de Hélio e as armaduras, chamadas de égides, de Zeus, Aquiles e Enéias.

8Vênus é adorada na ilha de Chipre, localizada ao largo das costas da Turquia, Síria e Egito. Local do nascimento da deusa.

9Pequeno escudo redondo, seguro por um encaixe no antebraço, o broquel protegia os golpes do inimigo.

10Sobre a gravação por Vulcano no broquel de bronze de Enéias (VIRGÍLIO, Eneida, 619-725, 2011, p. 296-300)

11Conhecida também por Bacia de Latona (1668-1670), a escultura Latona e seus filhos, cercada por sapos metamorfoseados, está localizada no centro de uma bacia d’água circular, logo abaixo da primeira escadaria do jardim, na linha de horizonte, em linha reta com o Palácio de Versailles.

12As formas vigorosas e angustiadas do barroco se transformam em gavinhas encaracoladas que se movimentam em delicada sensualidade, no novo estilo chamado de Rococó. Os elementos rebuscados e decorativos atraem a aristocracia, que descobre nas figuras alegóricas a própria existência elegante e vazia.

13Segundo Hesíodo (378-380, 2013, p. 59) Astreu, neto de Urano e Gaia, em amor a deusa Éos (Aurora para os romanos) gerou os quatro ventos: o clareante Zéfiro; Bóreas, rota-ligeira, Euro, ânimo vigoroso e Noto. Zéfiro é identificado como o vento Oeste ou Favônio. Bóreas é identificado como o vento frio do Norte ou Aquilão. Euro é o vento Leste, criador de tempestades. Noto é identificado como o vento Sul.

14 A bela Oritia e sua irmã Prócris são filhas de Erecteu, rei de Atenas, filho de Pandion.

15 Em Metamorfoses, influenciado pelos poemas épicos e pela genealogia grega, Publios OVÍDIO Naso (43 a.C.- 17 d.C.) descreveu em cerca de doze mil versos, em latim, as histórias dos deuses e heróis. Abrangendo a cosmogonia e a etiologia, a obra fundiu ficção e realidade, transformou personagens e deuses mitológicos em animais, plantas, rios e pedras, no princípio dos tempos e chegou até o tempo do poeta e de Augusto. Ovídio seguiu o conceito de Hesíodo na divisão cronológica da mitologia clássica e uniu os deuses aos mortais nas descrições sobre o amor, incesto, ciúme e morte. Os personagens ganharam humanidade e se afastaram das solenes divindades.

16 Céfalo, descendente de Éolo, senhor dos ventos e rei das ilhas Eólicas, casou-se com uma das filhas de Erecteu: Prócris, irmã de Oritia. Anos depois do feliz casamento, Éos, dedos de rosa se apaixonou por Céfalo, causando de forma indireta a morte de Prócris.

17 O emprego de três personagens parece ter sido resultado da grande influência das obras de dois grandes artistas: o flamengo Maneirista, naturalizado italiano, GIAMBOLOGNA (1529-1608) e o italiano Barroco, Gian Lorenzo BERNINI (1598-1680). Ambos artistas eram conhecidos por obras esculpidas em um só bloco de mármore constituídos por três figuras interligadas no sentido vertical, ascendente e extremamente dinâmicas. De GIAMBOLOGNA (1529-1608): O Rapto das Sabinas, 1583. Escultura em Mármore, ca. 410 de altura. Loggia dei Lanzi, Florença, Itália. De Gian Lorenzo BERNINI (1598-1680): O Rapto de Prosérpina, 1621-1622. Escultura em Mármore. 255 de altura. Galleria Borghese, Roma, Itália.

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