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Maneirismo na Itália

Um brado de protesto contra os limites e as referências clássicas, o Maneirismo é o resultado de um classicismo que entra em decadência.

Por Fatima Sans Martini - setembro 13, 2019
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O termo Maneirismo é usado basicamente para determinar a arte italiana de meados do século XVI ao início do XVII, por volta de 1530 a 1620.

Alguns autores, vulgarizaram o termo maniera, no sentido de estilo, como um assunto relacionado a leveza, graça, movimento, colorido, elegância, artificial, sofisticação, assunto ligado ao complicado, distorção e afetação. A conotação pejorativa perdurou por séculos, enquanto a arte clássica, da Grécia, Roma e Renascimento, era considerada a expressão máxima do equilíbrio e respeito à natureza.

Do século XVII ao início do século XIX prevaleceu a ideia de que a arte italiana produzida no século XVI, com exceção de MICHELANGELO (1475-1564) e RAFAEL Sanzio (1483-1520), era decadente. Para alguns, os sucessores dos dois artistas citados, limitavam-se à cópia e à distorção.

O Maneirismo, porém, além de ser olhado como um momento estético intermediário entre o Renascimento e o Barroco, é apreciado como um movimento autônomo, em que grandes contrastes de luzes e sombras produzem volumes insólitos, expressões desoladas se vestem de luxo e cores; os protagonistas se dispersam, os gestos são inesperados, e os cenários e personagens apresentam intensa emoção.

Aos poucos, os críticos passaram a ver virtudes na libertação dos cânones, na revolta contra a sobriedade, serenidade e equilíbrio.

A função do Maneirismo é a de proporcionar prazer estético, bem ao gosto das elites intelectuais e do estilo palaciano. Um estilo que rompe com seus excessos a falsa harmonia social do Renascimento tardio, e encara a Contrarreforma1 e o momento político delicado. Um brado de protesto contra os limites e as referências clássicas. O Maneirismo é o resultado de um classicismo que entra em decadência.

Os grandes impérios começam a se formar, o homem já não é a principal e única medida do universo, e a igreja e a própria Europa estão divididas após a Reforma de Lutero.

A nova geração busca elementos que lhe permita renovar e desenvolver as habilidades artísticas e as técnicas adquiridas.

No século XVI, de acordo com Hauser (2000) o Maneirismo foi o preferido de todas as cortes influentes da Europa. Os pintores de Francisco I (1494-1547) em Fontainebleau2, de Felipe II (1527-1598) em Madrid, de Rodolfo II (1552-1612) em Praga e de Alberto V (1528-1579) na Baviera, receberam patrocínio principesco influenciados pelas maneiras e hábitos das cortes italianas, como a dos Médici, em Florença.

Pode-se dizer que o Maneirismo apresenta duas fases:

A primeira fase parte do saque de Roma em 1527 até meados do século XVI, com os artistas se espalhando pela Europa. Valendo-se dos mesmos elementos do Renascimento, porém com um espírito totalmente diferente, e gestos mais livres, desenvolvem uma arte de labirintos, espirais e proporções estranhas. Muitos consideram a última fase3 da pintura de Michelangelo, apresentada durante o Renascimento tardio como maneirista, ou anticlássica.

Com ritmos verticais, as figuras são alongadas e os membros delicados, os espaços se tornam abstratos como imagens de sonho, a iluminação é artificial e surgem novas gamas de cor.  O Maneirismo do século XVI é um período de transição onde imitar os grandes mestres é uma honra.

No segundo período, as obras apresentam um novo gosto, mais elegante. Refletem fortes emoções e contornos mais firmes, em que os artistas acentuam o caráter das composições, que se aproximam do novo estilo denominado de Barroco.

Entre os principais pintores Maneiristas, na Itália, encontram-se: Andrea d’Agnolo, conhecido por Andrea DEL SARTO4 (1486-1530), TICIANO5(c.1488/90-1576) Girolamo Francesco Maria Mazzola, mais conhecido por PARMIGIANINO (1503-1540), Jacopo Comin, também chamado por Jacopo Robusti, conhecido por TINTORETTO (1518-1594), Paolo VERONESE (1528-1588), Jacopo Carucci, conhecido por PONTORNO (1494-1557), Giovan Battista di Jacopo, conhecido por IL ROSSO (1495-1540) um dos mais excêntricos; Francesco de Rossi, conhecido por Il SALVIATI (1510-1563), Giorgio VASARI (1511-1574), Agniolo di Cosimo di Mariano Tori, conhecido por Agnolo BRONZINO (1503-1572), Giuseppe ARCIMBOLDO (1527-1593); Agostino CARRACCI (1557-1602), Annibale CARRACCI (1560-1609) e Ludovico CARRACCI (1555-1619); Giuseppe Cesari conhecido por GIUSEPPINO (1568-1640), Pietro FACCINI (1575/76-1602) e Domenico Zampieri conhecido por DOMENICHINO (1581-1641).

Na escultura o destaque cabe ao escultor e ourives florentino, Benvenuto CELLINI (1500-1571). O saleiro de mesa, executado em 1543 para o rei da França, Francisco I, é um exemplo das inquietações artísticas do período.


Jacopo Comin, conhecido por TINTORETTO (1518-1594)

Veneziano, Tintoretto empregou as cores brilhantes e fortes, típicas dos artistas da região, aplicadas com uma pincelada rápida e audaciosa. Seus quadros são impregnados de emoção e profundamente cativantes.

Tintoretto “foi um artista de prodigiosa energia e inventiva, combinando qualidades de ambas as fases – anticlássica e elegante – do novo gosto.” (JANSON, 1992, p. 466)

Maneirismo ;TINTORETTO (1518-1594) Susana, ca. 1580. Óleo sobre tela, 150.2x102.6. National Gallery of Art, Washington, EUA.
TINTORETTO (1518-1594) Susana, ca. 1580. Óleo sobre tela, 150.2×102.6. National Gallery of Art, Washington, EUA.

Tintoretto teve êxito em produzir quadros incomuns e cativantes, representando, sob uma nova luz, as lendas, a religião e os mitos do passado. 

A história de Susana e os dois anciãos foi reproduzida por diversas vezes a partir do século XVI. Embora o assunto tratasse de religião e de justiça, os artistas o usavam mais por conta da inclusão da nudez feminina e do apelo sensual.

A história faz parte do Livro de Daniel, no Antigo Testamento. A bela e rica Susana era casada com Joaquim, um dos exilados judeus na Babilónia. Sua casa era frequentada por dois velhos juízes obcecados por sua beleza. Numa tarde os dois se esconderam no jardim e espreitaram a bela mulher no banho. Surpresa ao ver os dois ela os mandou sair, mas foi pressionada a se deitar com eles, ou todos saberiam que ela traíra o marido. Mesmo sabendo que ninguém acreditaria em sua palavra ela se recusou a ceder.

No dia seguinte, Susana foi convocada na presença da Assembleia da comunidade presidida pelos velhos juízes. Confiando nos anciãos, os demais presentes condenaram Suzana à morte. Quando estava para ser executada, Deus enviou Daniel para fazer sua defesa. Ao separar os dois velhos e fazer-lhes perguntas, ambos deram respostas diferentes o que indicou a mentira. Dessa forma Daniel conseguiu provar a inocência de Susana. Segundo a Lei de Moisés, os anciãos foram executados e a virtude triunfou.

Na obra, Tintoretto concentra-se na figura nua de Susana, deixando as pequenas figuras dos anciãos ao fundo, somente esboçadas, quase que desprezadas.

“A identificação de diferentes mãos que trabalharam no estúdio de Tintoretto continua a ser um desafio. Aqui, entretanto, o tipo facial da empregada doméstica é semelhante ao empregado em outras obras por Domenico, filho de Tintoretto. A obra pode assim provisoriamente ser atribuída a Domenico, trabalhando no estúdio do seu pai.” (NATIONAL GALLERY OF ART,Washington, EUA. Tradução nossa6)

Maneirismo; Agostino CARRACCI (1557-1602) depois de TINTORETTO (1518-1594) A Virgem aparecendo para São Jerônimo, 1588. Gravura, 41.91×29.85. Los Angeles County Museum of Art, Los Angeles, EUA.
Agostino CARRACCI (1557-1602) depois de TINTORETTO (1518-1594) A Virgem aparecendo para São Jerônimo, 1588. Gravura, 41.91×29.85. Los Angeles County Museum of Art, Los Angeles, EUA.

O pintor Agostino7 Carracci (1557-1602) trabalhou como gravador, reproduzindo obras dos grandes mestres italianos.

Na gravura, A Virgem aparecendo para São Jerônimo8, Tintoretto representa anjos apoiando a Virgem quando ela se apresenta para São Jerônimo recolhido em penitência a estudar e escrever em uma espécie de gruta improvisada.

Como quase todas as obras cujo assunto é São Jerônimo, são representados alguns dos símbolos referente ao santo: o livro aberto, o chapéu de cardeal, o crânio9 e a companhia do enorme leão10.

A tensão, a forte emoção, o confronto e o dinamismo são representados na paisagem e nas figuras inclinadas em diferentes direções. As solenes e rígidas figuras clássicas ficaram para trás.


Veja mais sobre o assunto


Referências

HAUSER, Arnold. História Social da Arte e da Literatura. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 1032 p.

JANSON H. W. História da Arte. Tradução J.A. Ferreira de Almeida; Maria Manuela Rocheta Santos. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 823 p.

LOS ANGELES COUNTY MUSEUM OF ART, Los Angeles, EUA. Disponível em: https://collections.lacma.org/node/2280183 Acesso em: 26 ago. 2019.

MARTINI, Fátima R. S. A Pintura Renascentista e Maneirista nos Museus. In Curso de Extensão/UNIMES virtual. Santos/SP: UNIMES, 2016. 57 p.

NATIONAL GALLERY OF ART,Washington, EUA. Disponível em: https://www.nga.gov/collection/art-object-page.372.html Acesso em: 25 ago. 2019.

KUNTHISTORISCHES MUSEUM, Viena, Áustria. Disponível em: https://www.khm.at/objektdb/detail/87080/ Acesso em: 25 ago. 2019.


1 A Contrarreforma foi promovida pela Igreja de Roma, por volta de 1545, a fim de reestruturar suas instituições após a Reforma protestante iniciada por Martinho Lutero.

2 O Château de Fontainebleau, próximo a Paris, na França serviu de residência para os monarcas franceses. No período de Francisco I (1494-1547) o Palácio abrigou a Escola de Fontainebleau (ca. 1530-1610) de onde saíram importantes nomes que influenciaram a arte Maneirista, entre eles: Giovan Battista do Jacopo, conhecido por ROSSO FIORENTINO, (1494-1540), chamado em 1531 por para ajudar na reforma do Chateau; Francesco PRIMATICCIO (1504 – 1570), Niccolò dell’Abbate, também conhecido como NICOLINO (1509/1512-1571), François CLOUET (ca. 1510-1572), Benvenuto CELLINI (1500-1571) e Toussaint DUBREUIL (c. 1561-1602)

3 A pintura do Juízo Final executada por Michelangelo, de 1535 a 1541, na parede da Capela Sistina, é um exemplo da grande mudança que ocorre em sua obra.

4 Andrea DEL SARTO (1486-1530) é um artista importante para compreender a transição do final da Renascença ao Maneirismo em Florença, no entanto, sua fama foi eclipsada por outros grandes nomes da História da Arte.

5 O artista dominou a pintura veneziana no período denominado de Renascimento tardio e atravessou o estilo maneirista, com uma qualidade insuperável. TICIANO (c.1488/90-1576) é um dos grandes retratistas do período.

6 The identification of different hands in the Tintoretto shop remains a challenge. Here, however, the maid’s facial type is one that appears regularly in paintings that can be associated with Domenico, Tintoretto’s son. The picture can thus provisionally be assigned to Domenico, working in his father’s studio. National Gallery of Art, Washington, EUA. Disponível em: https://www.nga.gov/collection/art-object-page.372.html Acesso em: 25 ago. 2019.

7 O irmão Annibale CARRACCI (1560-1609) e o primo de Ludovico CARRACCI (1555-1619) junto com Agostino Carracci (1557-1602) são responsáveis pela fundação da Accademia degli Incamminati, que posteriormente foi transformada na Escola de Bologna. Com o irmão Annibale, Agostino decorou um dos tetos do Palazzo Farnese, em Roma, com a pintura em afresco de Céfalo e Aurora, em 1597.

8 Sacerdote, teólogo e historiador, Jerônimo é considerado pela Igreja Católica, um confessor e doutor da Igreja. Erudito humanista, poliglota e profundo conhecedor das línguas semíticas, em especial o Hebraico, o aramaico e o grego, responsável pela tradução da Bíblia para o latim, Jerônimo viveu por muitos anos em Roma, circulou por diferentes lugares, no oriente, lendo e escrevendo. Por volta de 388, Jerônimo viajou para a Terra Santa, aumentou sua biblioteca e viveu o resto da vida numa espécie de cela onde produziu uma extensa obra literária.

9 Crânios e caveiras fazem parte da iconografia do Renascimento, nos séculos XVI e XVII, associados às pinturas de gênero e natureza-morta, principalmente na Alemanha e Países Baixos. Na História da Arte o emprego de caveiras recebe o nome em latim de Vanitas, interpretada como brevidade da vaidade.

10 O leão na companhia de Jerônimo pode ter dois significados: dizem que ele estava recluso na caverna com mais alguns monges, quando surgiu um leão com a pata ferida. Todos fugiram, menos São Jerônimo, que verificou que sua pata estava cheia de espinhos. Com carinho o santo ganhou a confiança do felino, curando-lhe as feridas. Dessa forma o leão passou a lhe fazer companhia e nunca mais se afastou. O segundo é a própria simbologia do animal ligado à Jesus Cristo, pela majestade e força.

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