Artigos Acadêmicos

Romantismo: a visão Neoclássica e a pintura por volta de 1750 e 1850

Entenda sobre as fases desse movimento.

Por Fatima Sans Martini - agosto 6, 2021
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Entre meados do século XVIII e meados do século XIX encontram-se diferentes movimentos artísticos, mas todos figurativos, com tendência ora para a objetividade ora para a subjetividade, ou seja, a imaginação.

No fervor do entusiasmo romântico ligado à literatura[1], alguns artistas trilham caminhos semelhantes, compartilhando o gosto por temas exóticos, históricos e patrióticos.

Tanto o clássico como o romântico foram teorizados entre a metade do século XVIII e a metade do século seguinte: o clássico sobretudo por Winckelmann[2] e Mengs[3], o romântico pelos defensores do renascimento do Gótico e pelos pensadores e literatos alemães. (ARGAN, 2001, p. 11)

A pintura romântica pode ser dividida em duas fases: a primeira, chamada de pré-romântica, ocorre ao lado das estéticas do Pitoresco e do Sublime com Alexander COZENS (1717-1786), responsável por teorizar a pintura paisagística inglesa do período, John CONSTABLE (1776-1837), Joseph Mallord William TURNER (1775‑1851) e William BLAKE (1757-1827); o suíço Johann Heinrich FÜSSLI ou FUSELI (1741-1825) e o alemão Caspar David FRIEDRICH (1774-1840) e entre outros.

Caspar David FRIEDRICH (1774-1840) Dois Homens contemplando a lua, ca. 1825–30. Óleo sobre tela, 34.9 x 43.8. Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.
Caspar David FRIEDRICH (1774-1840) Dois Homens contemplando a lua, ca. 1825–30. Óleo sobre tela, 34.9 x 43.8. Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.

Existem diversas versões dessa composição distribuídas por diferentes museus, entre eles: na Alemanha: Gemäldegalerie Neue Meister, Staatliche Kunstsammlungen Dresden; Nationalgalerie, Staatliche Museen zu Berlin e Galerie Hans, Hamburg.

Os dois homens se encontram de costas, de tal forma que o observador visualiza a mesma paisagem lunar, um tema muito apreciado pelos alemães no período inicial do Romantismo.

As paisagens meticulosas de Friedrich são dominadas, por vezes, por uma luz dramática, árvores solitárias no primeiro plano e encobertas por uma espécie de bruma ao longe, montanhas e rochedos extraordinários inseridos em uma atmosfera nostálgica e sublime.

A segunda fase, chamada de Romantismo histórico, ocorre simultaneamente com a visão Neoclássica e após o ciclo napoleônico, e aproxima-se também de movimentos anteriores em uma visão revivalista.

O Neobarroco surge na Espanha na figura de Francisco José de GOYA y Lucientes (1746-1828) ao voltar para o Barroco – da luz e sombra dramática de VELÁSQUEZ[4] E REMBRANDT[5] – aliado às passagens históricas e de heroísmo, segundo Janson (1992, p. 601) “empenhado na verdade nua e crua”.

Na França, Antoine-Jean GROS (1771-1835), dividido entre os princípios acadêmicos e a tendência romântica se afasta dos ensinamentos clássicos de Jacques Louis DAVID (1748 -1825), pois “por muito que respeitasse as doutrinas do mestre, a sua natureza emotiva impelia-o para a cor e dramatismo do Barroco”. (JANSON, 1992, 599)

A tendência Neobarroca de Gros influenciou outros artistas. Entre eles, o francês, Jean-Louis André Théodore GÉRICAULT (1791-1824), que se aproxima, por vezes, do Classicismo Barroco de LORRAIN[6] e POUSSIN[7] em relação às paisagens, outras vezes do Barroco de RUBENS[8], em busca de mostrar o herói romântico e as cenas históricas e dramáticas com o máximo de veracidade.

Jean-Louis André Théodore GÉRICAULT (1791-1824) Noite: paisagem com um aqueduto, 1818. Óleo sobre tela, 250.2 x 219.7. Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.
Jean-Louis André Théodore GÉRICAULT (1791-1824) Noite: paisagem com um aqueduto, 1818. Óleo sobre tela, 250.2 x 219.7. Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.

Paisagem com um aqueduto visto à noite faz parte de uma série que Gericault executou para mostrar os diferentes momentos do dia e suas variações de cor e luz. Na pintura concluída no interior do estúdio, Gericault relembra a beleza pastoral da Campagna romana, as ruínas de Lorrain e as colossais paisagens de Poussin.

No interior da visão revivalista o Neogótico surge na Inglaterra no início do século XIX e culmina com a formação da Irmandade dos Pré-Rafaelitas a partir de 1848.

O grupo formado por Dante Gabriel ROSSETTI (1828-1882), John Everett MILLAIS (1829-1896), Edward BURNE-JONES (1833-1898) Willian MORRIS (1834-1896) e John Henry DEARLE(1859-1932), entre outros, pretendiam quebrar as diferenças entre belas artes e artes aplicadas, trabalhar nas diferentes áreas e a partir da ornamentação resistir a uma sociedade cada vez mais industrializada.

A fase denominada de Neoclássica ligada, segundo Argan (2001, p. 11) ao “mundo antigo, greco-romano” corresponde ao período em que ocorre a Revolução Francesa[9] em 1789 e o império de Napoleão até 1815, representado por artistas franceses principalmente. Entre eles: Jacques Louis DAVID (1748-1825), Jean-Auguste Dominique INGRES (1780 -1867).

No caso dos artistas americanos nas figuras de Benjamim WEST (1738-1820) e John Singleton COPLEY (1738-1815) o classicismo se une aos momentos históricos e heroicos, contribuindo para o desenvolvimento do Romantismo.

Por outro lado, o ponto de convergência entre a arte Neoclássica, o Romantismo e o Neobarroco é a arte de Ferdinand Victor Eugène DELACROIX (1798-1863), um artista de caráter complexo, revolucionário e rebelde na aceitação dos padrões da Academia.

Neoclássica; Ferdinand Victor Eugène DELACROIX (1798-1863) Rebecca e o Ivanhoe Ferido, 1823. Óleo sobre tela, 64.5 × 53.7. Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.
Ferdinand Victor Eugène DELACROIX (1798-1863) Rebecca e o Ivanhoe Ferido, 1823. Óleo sobre tela, 64.5 × 53.7. Metropolitan Museum of Art, Nova York, EUA.

A pintura trata do herói Ivanhoé, personagem retirado dos romances históricos e populares de cavalaria medieval de Sir Walter Scott (1771-1832) publicado em 1820. O herói pertence a Inglaterra do século XII com eventos fora da lei, bruxas, judeus e cristãos.

Abandonados pelos criados, o ferido Ivanhoé esforça-se para deixar seu leito, enquanto ouve a aterrorizada Rebecca, que descreve e testemunha uma batalha violenta. Por meio dos gestos e do olhar da jovem, o observador compreende o que ocorre além da janela.


Referências

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. Do Iluminismo aos movimentos contemporâneos. Tradução Denise Bottmann; Federico Carotti. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. 709 p.

HAMBURGER KUNSTHALLE, Hamburgo, Alemanha. Disponível em: https://online-sammlung.hamburger-kunsthalle.de/de/objekt/HK-5161 Acesso em: 27 jul. 2021.

JANSON H. W. História da Arte. Tradução J.A. Ferreira de Almeida; Maria Manuela Rocheta Santos. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 823 p.

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/438417 Acesso em: 27 jul. 2021.

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/436455 Acesso em: 27 jul. 2021.

THE METROPOLITAN MUSEUM OF ART, Nova York, EUA. Disponível em: https://www.metmuseum.org/art/collection/search/438110 Acesso em: 27 jul. 2021.


[1] O movimento literário que marca o início do Romantismo ocorre em 1774, com a publicação do romance Os sofrimentos do jovem Werther, do alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)

[2] Arqueólogo e Historiador de Arte, o alemão Johann Joachim Winckelmann (1717-1768) publicou em 1755 – Reflexões sobre a imitação das obras gregas na pintura e na escultura e em 1764 – História da Arte da Antiguidade. Com sua pesquisa, as atividades artísticas em Roma e a presença nas escavações em Nápoles, Winckelmann estabeleceu as bases da Estética e da História da Arte ao atribuir as diferenças entre a arte grega, greco-romana e romana, possibilitando a manifestação do neoclassicismo durante o século XVIII.

[3] Pintor alemão, precursor do Neoclássico, Anton Raphael MENGS (1728-1779) saiu de Dresden para Roma com o objetivo de completar a sua formação, assentada basicamente no classicismo. Convidado a trabalhar na corte espanhola, Mengs viveu entre Roma e Madrid. Artistas italianos, alemães, ingleses e espanhóis foram influenciados por sua arte.

[4] Saiba mais de Diego Rodrigues de Silva y VELÁSQUEZ (1599 -1660) em https://arteref.com/artigos-academicos/barroco-na-espanha/

[5] Saiba mais de REMBRANDT van Rijn (1606-1669) em https://arteref.com/artigos-academicos/o-barroco-na-holanda/

[6] Saiba mais de Claude LORRAIN (ca. 1600/5-1682) em https://arteref.com/artigos-academicos/claude-lorrain-classicismo-barroco/

[7] Saiba mais de Nicolas POUSSIN (1594-1665) e do Classicismo Barroco em https://arteref.com/artigos-academicos/classicismo-barroco/

[8] Saiba mais de Peter Paul RUBENS (1577-1640) em https://arteref.com/artigos-academicos/peter-paul-rubens/

[9] Em 14 de julho de 1789, a Revolução Francesa pôs fim à monarquia absoluta dos reis franceses na figura do rei Luís XVI, substituindo as convicções aplicadas por séculos pela igreja católica e monarquia por conceitos ligados aos já existentes ideais iluministas e aos termos Liberté, Égalité e Fraternité.  Em 1792 a Primeira República Francesa foi proclamada, o rei foi executado em 1793 e os jacobinos e Robespierre (1758-1794) estabeleceram o terror até 1794. O Diretório assumiu o controle em 1795 e em 1799 foi estabelecido o Consulado com Napoleão Bonaparte (1769-1821) assumindo como imperador da França de 1804 a 1814 e por Cem Dias em 1815.


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Mestre em Artes Visuais com Abordagens Teóricas, Históricas e Culturais pela UNESP. Pós-graduação em História da Arte pela FAAP-SP. Formada em Artes Plásticas. Experiência profissional: Projetista em Design de Interiores. Experiência acadêmica: nas disciplinas de Projetos, Desenho, História do Mobiliário e História da Arte nos cursos de Arquitetura e Design de Interiores. Professor das disciplinas de Estética e História da Arte Mundial e Brasileira no Curso de Artes da Unimes, Universidade Metropolitana de Santos, SP

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