Artigos Acadêmicos

Barroco final

Arrebatados pelo trabalho em decoração, os artistas do período trabalhavam em grande número dividindo as responsabilidades.

Por Fatima Sans Martini - março 2, 2020
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A partir da segunda metade do século XVII, arquitetos, escultores e pintores, hábeis no trabalho de estuque[2] e nos grandes afrescos em trompe l’oeil[3], transformaram igrejas, villas e palácios em grandiosas exibições. 

Artistas como GUERCINO[4] e Pietro da CORTONA[5] foram responsáveis por desenvolver e aplicar a arte suprema da decoração teatral.

Nos interiores das igrejas e palácios construídos no estilo Barroco, os artistas estimulavam a imaginação das mais diferentes cortes em ascensão espalhadas pela Europa. Nas paredes e nos tetos, ultrapassando as molduras, transbordavam e se espalhavam, as composições com temas mitológicos ou sagrados, em contínuo movimento, articuladas entre o infinito azul do céu, as brancas e volumosas nuvens e a estrutura arquitetônica.

Arrebatados pelo trabalho em decoração, os artistas do período trabalhavam em grande número dividindo as responsabilidades. No entanto, alguns pintores se destacaram também nos trabalhos individuais, quando se dispuseram a dar um passo em direção a assuntos e pinceladas mais leves, combinando cores alegres e luminosas, ao gosto da nova elite que se formava.

Os franceses: Antoine COYPEL (1661-1722), Charles de LA FOSSE (1636-1716), Jean Baptiste JOUVENET (1644-1717), Jacint Rigau-Ros i Serra, conhecido por Hyacinthe RIGAUD (1659-1743); os alemães: Johann Georg BERGMÜLLER (1688-1762), Franz Joseph SPIEGLER (1691-1757) e Johann Baptist ZIMMERMANN (1680-1758); o austríaco: Daniel GRAN (1694-1757) e os italianos: Sebastiano RICCI (1659-1734) e Giambattista ou Giovanni Battista TIEPOLO (1696-1770) são alguns dos artistas classificados no período artístico do final do Barroco e responsáveis pelos primeiros passos rumo ao estilo decorativo chamado de Rococó.


Antoine COYPEL (1661-1722)

Antoine Coypel estudou em Roma no mesmo período em que seu pai, Noël COYPEL[6], foi nomeado diretor da Académie de France à Rome. Na cidade italiana, Antoine entrou em contato com as obras de RAFAEL, CARRACCI, TICIANO, VERONESE e CORREGGIO. De volta a Paris em 1676, ainda ao lado do pai, Coypel executou algumas obras sobre temas religiosos, mitológicos e assuntos relacionados à corte de Luís XIV.

A partir de 1685, Coypel tornou-se pintor regular do irmão de Luís XIV, o Duque de Orleans[7], realizando uma série de pinturas mitológicas em uma das galerias do Palais Royal, em Paris. 

Na virada do século XVII para o século XVIII, Coypel assume o cargo de diretor da Académie royale de peinture et de sculpture[8] de Paris, executa a obra em afresco no teto da nave da Capela Real de Versailles – Deus Pai em sua Glória – enquanto se aproxima da delicadeza e do colorido do Rococó, afastando-se do pesado Barroco.

Barroco Final
Antoine COYPEL (1661-1722) O Batismo de Cristo, ca. 1690. Óleo sobre tela, 136.21×97.63. Los Angeles County Museum of Art, Los Angeles, EUA.

Coypel representa a Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo rodeados de querubins e putti, no momento em que São João batiza o Messias nas águas do Rio Jordão.


Hyacinthe RIGAUD (1659-1743)

Um dos mais sucedidos pintores de retratos do período Barroco francês de Luís XIV, Jacint Rigau-Ros i Serra, conhecido por Hyacinthe Rigaud, nasceu na Espanha, mas foi batizado na França. O artista chegou em Paris em 1681 e um ano depois ganhou o Grand Prix de Roma.

Comum no período, Rigaud permaneceu emRoma, por cerca de dois anos, devotando-se a fazer cópias das Antiguidades e das obras de artistas Renascentistas, adquirindo conhecimento e treinamento adicional.

Ao retornar à Paris, Rigaud se tornou reconhecido e requisitado pela rica burguesia parisiense para pintar seus retratos. Em 1700 foi admitido na Académie royale de peinture et de sculpture de Paris, como pintor histórico.

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Hyacinthe RIGAUD (1659-1743) Retrato do Cardeal Guillaume Dubois, 1723. Óleo sobre tela, 146.7×113.7. The Cleveland Museum of Art, Cleveland, Ohio, EUA.

Rigaud representa o Cardeal Dubois vestido em damasco escarlate e uma capa de pele nos ombros. Dubois foi tutor do sobrinho de Luís XIV[9] e depois ministro-chefe quando ele se tornou regente do bisneto – o futuro Luís XV (1710-1774). Luís XV subiu ao trono em 1723, no mesmo ano que a pintura foi executada, com Dubois segurando uma carta com as palavras: Au Roy.


Sebastiano RICCI (1659-1734)

Pintor italiano, Sebastiano Ricci estudou e trabalhou grande parte de sua vida em Veneza, influenciado pelas obras de VERONESE[10].

Bologna, Parma, Milão, Turim, Roma e Florença financiaram sua produção, enquanto aproveitava a oportunidade para estudar as obras dos grandes mestres. Em Roma em 1691, Ricci conheceu a pintura decorativa e ilusionista dos CARRACCI, Pietro da CORTONA e Andrea POZZO[11].

Bem conhecido, Ricci trabalhou em Londres por dois anos. Em 1718 submeteu uma obra junto à Académie royale de peinture et de sculpture, sendo admitido logo depois na instituição francesa.

De volta à Veneza, Ricci se dedicou a decorar algumas villas, com obras coloridas e vibrantes, cuja técnica, alegre e elegante, aplicada em afresco nas paredes e tetos, abriu caminho para o movimento do estilo Rococó em Veneza. 

Barroco Final
Sebastiano RICCI (1659-1734) Apoteose de um santo[12], ca. 1695. Esboço em óleo sobre tela, 78.5×62.8. The Cleveland Museum of Art, Cleveland, Ohio, EUA.

O estilo da pintura reflete o gosto pelas apoteoses – ascensão ao céu, divinização ou a inclusão de figuras públicas no reino dos deuses – um tema que se enquadrava bem para a realização de pinturas em frescos nos tetos das igrejas e villas[13] italianas.

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Sebastiano RICCI (1659-1734) A Continência de Cipião, 1701-1711. Óleo sobre tela, 140×182. Art Institute Chicago, Chicago, EUA.

Ricci representa o momento em que o general Cipião[14] devolve a esposa de Luceio, príncipe dos celtiberos[15]

Um dos fatos mais importantes para a fama do romano Cipião foi celebrado por todos os autores como um exemplo de virtude: durante a segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.), ao levarem à sua presença uma jovem e bela prisioneira, Cipião cuidou com toda humanidade e respeito, e sabendo que era esposa de Luceio, príncipe dos celtiberos, estabelecidos no norte da Espanha, mandou lhe chamar, exigindo um resgate. Ao contemplar os amantes, Cipião desistiu do resgate, entregando a esposa intocada. Grato, Luceio comunicou aos súditos sobre a modéstia e continência singular do general romano, cedendo-lhe em seguida um bom número de soldados.


Referências

ART INSTITUTE CHICAGO, Chicago, EUA. Disponível em: https://www.artic.edu/artworks/33249/the-continence-of-scipio Acesso em: 26 jan. 2020.

CHÂTEAU VERSAILLES. ROYAL-CHAPEL, Versailles, França. Disponível em: http://en.chateauversailles.fr/discover/estate/palace/royal-chapel Acesso em 26 jan. 2020.

CHIESA DI SAN BERNARDINO ALLE OSSA, Milão, Itália. Disponível em: https://ostellobello.com/it/san-bernardino-alle-ossa/ Acesso em: 26 jan. 2020.

JANSON H. W. História da Arte. Tradução J.A. Ferreira de Almeida; Maria Manuela Rocheta Santos. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1992. 823 p.

LOS ANGELES COUNTY MUSEUM OF ART, Los Angeles, EUA. Disponível em: https://collections.lacma.org/node/224741 Acesso em: 23 jan. 2020

PALAIS LIECHTENSTEIN, Viena, Áustria. Disponível em: https://www.palaisliechtenstein.com/en/garden-palace/first-floor.html Acesso em: 26 jan. 2020.

THE CLEVELAND MUSEUM OF ART, Cleveland, Ohio, EUA. Disponível em: https://www.clevelandart.org/art/1967.17 Acesso em 10 fev. 2020.

THE CLEVELAND MUSEUM OF ART, Cleveland, Ohio, EUA. Disponível em: https://www.clevelandart.org/art/1980.39 Acesso em 26 jan. 2020.


[1]    Iniciada em 1687 e concluída em 1710, sob o projeto dos arquitetos Jules Hardouin-Mansart (1646-1708) e Robert de Cotte (1656-1735) a Capela Real de Versailles pertence ao grande palácio de Luís XIV. Artistas do início do século XVIII foram os responsáveis por sua decoração interna. O semi-domo da abside recebeu pintura feita Charles de LA FOSSE (1636-1716). O teto da nave recebeu pintura de Antoine COYPEL (1661-1722) e a galeria, onde ficava o rei, foi decorada com a obra de Jean Baptiste JOUVENET (164-1717)

[2]    Mistura de gesso e pó de mármore, o estuque é empregado no revestimento de paredes, relevos e na decoração arquitetural, por exemplo, de cornijas e molduras.

[3]    Expresão francesa para enganar os olhos, a técnica artística chamada de Trompe l’oeil transforma a imagem em três dimensões, ocasionando um ilusionismo espacial. A expressão é usada tanto na pintura como na Arquitetura.

[4]    Artista do período Barroco, Giovanni Francesco Barbieri, chamado de GUERCINO (1591-1666) é responsável pela pintura em afresco: Aurora, executado de 1621 a 1623 no teto da sala central do Casino di Villa Boncompagni Ludovisi, em Roma.

[5]  Artista Barroco, Pietro Berrettini da CORTONA (1596 -1669) ficou conhecido por seus afrescos pintados nos tetos das igrejas e grandes villas italianas. Um dos mais conhecidos é o fresco do teto do Palazzo Barberini, em Roma: Il Trionfo della Divina Providenza e Exaltação da Família Barberini, executado por volta de 1632-1639.

[6]    Grande artista, o pintor barroco, Noël Coypel (Paris, França, 1628-1707) pertenceu a uma numerosa familia de artistas, que atuou ao lado da corte francesa do final do século XVII ao século XVIII.

[7]    Filipe I (1640-1701) irmão mais novo de Luís XIV, recebeu o título de Duque de Orléans. Grande mecenas e de gosto refinado, Filipe viveu grande parte em Paris.

[8]    Jean-Baptiste COLBERT (1619-1683) assumiu o controle estratégico da Académie royale de peinture et de sculpture juntamente com Charles LE BRUN (1619-1690) que garantiu a glorificação do rei, por meio das artes e o Classicismo Barroco, resultado da união da Antiguidade Clássica com a arte Barroca italiana.

[9]    Duque de Orléans, Filipe Charles II (1674-1723), sobrinho de Luís XIV, foi regente da França de 1715 a 1723, durante a menoridade de Luís XV, bisneto de Luís XIV.

[10]   Maneirista, Paolo VERONESE (1528-1588) dominou a pintura veneziana ao lado do colega TINTORETTO (1518-1594) após a morte de TICIANO (1488/90-1576). Em Veneza, Veronese ficou conhecido pelas cenas de banquetes e costumes da vida opulenta dos palácios venezianos em grande formato. Veronese viveu trabalhando intensamente até sua morte aos sessenta anos.

[11]   Arquiteto, pintor, decorador e teórico, o artista Barroco Andrea POZZO (1642-1709) recebeu influência de Veronese e da Escola Bolonhesa. Famoso, Pozzo executou os mais belos afrescos no teto da nave e na Abside da Igreja de Santo Inácio, em Roma. A pintura ilusionista – Apoteose de Hércules – no teto do salão nobre do Palais Liechtenstein em Viena na Áustria, é outro exemplo do estilo Barroco aplicado na decoração palaciana. O tratado teórico que trata das regras da perspectiva na arquitetura e nas artes plásticas: Perspectiva Pictorum et Architectorum foi publicado em duas partes entre 1693 e 1700 e traduzido para principais línguas europeias do período, influenciando arquitetos, cenógrafos, desenhistas, gravuristas e pintores.

[12]   A precisa identidade da figura permanece desconhecida, uma vez que os documentos que descrevem a comissão não foram descobertos. A pintura a óleo foi encomendada para a Chiesa di San Bernardino alle Ossa, em Milão, na Itália.

[13]   O nome villa tem origem na época romana para as residências de campo da alta classe. No século XVIII as construções de villas, ricamente decoradas, proliferaram na Itália, principalmente nos arredores de Veneza, para abrigar os ricos proprietários que se afastavam da cidade na época do verão.

[14]   Públio Cornélio Cipião Africano (236-183 a.C.)


Veja também

https://arteref.com/artigos-academicos/graca-e-beleza-no-barroco-italiano/

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